18/02/2018

A Desejada Das Gentes, Machado de Assis


— Ah! conselheiro, aí começa a falar em verso.

— Todos os homens devem ter uma lira no coração, — ou não sejam homens. Que
a lira ressoe a toda a hora, nem por qualquer motivo, não o digo eu, mas de longe
em longe, e por algumas reminiscências particulares... Sabe por que é que lhe
pareço poeta, apesar das Ordenações do Reino e dos cabelos grisalhos? é porque
vamos por esta Glória adiante, costeando aqui a Secretaria de Estrangeiros... Lá
está o outeiro célebre... Adiante há uma casa...
— Vamos andando.

— Vamos... Divina Quintília! Todas essas caras que aí passam são outras, mas
falam-me daquele tempo, como se fossem as mesmas de outrora; é a lira que
ressoa, e a imaginação faz o resto. Divina Quintília!

— Chamava-se Quintília? Conheci de vista, quando andava na Escola de Medicina,
uma linda moça com esse nome. Diziam que era a mais bela da cidade.

— Há de ser a mesma, porque tinha essa fama. Magra e alta?

— Isso. Que fim levou?

— Morreu em 1859. Vinte de abril. Nunca me há de esquecer esse dia. Vou
contar-lhe um caso interessante para mim, e creio que também para o senhor.
Olhe, a casa era aquela... Morava com um tio, chefe de esquadra reformado; tinha
outra casa no Cosme Velho. Quando conheci Quintília... Que idade pensa que
teria, quando a conheci?
— Se foi em 1855...

— Em 1855.

— Devia ter vinte anos.

— Tinha trinta.

— Trinta?

— Trinta anos. Não os parecia, nem era nenhuma inimiga que lhe dava essa
idade. Ela própria a confessava e até com afetação. Ao contrário, uma de suas
amigas afirmava que Quintília não passava dos vinte e sete; mas como ambas
tinham nascido no mesmo dia, dizia isso para diminuir-se a si própria.

— Mau, nada de ironias; olhe que a ironia não faz boa cama com a saudade.

— Que é a saudade senão uma ironia do tempo e da fortuna? Veja lá; começo a
ficar sentencioso. Trinta anos; mas em verdade, não os parecia. Lembra-se bem
que era magra e alta; tinha os olhos como eu então dizia, que pareciam cortados
da capa da última noite, mas apesar de noturnos, sem mistérios nem abismos. A
voz era brandíssima, um tanto apaulistada, a boca larga, e os dentes, quando ela
simplesmente falava, davam-lhe à boca um ar de riso. Ria também, e foram os
risos dela, de parceria com os olhos, que me doeram muito durante certo tempo.
— Mas se os olhos não tinham mistérios...

— Tanto não os tinham que cheguei ao ponto de supor que eram as portas
abertas do castelo, e o riso o clarim que chamava os cavaleiros. Já a conhecíamos,
eu e o meu companheiro de escritório, o João Nóbrega, ambos principiantes na
advocacia, e íntimos como ninguém mais; mas nunca nos lembrou namorá-la. Ela
andava então no galarim; era bela, rica, elegante, e da primeira roda. Mas um dia,
no antigo Teatro Provisório entre dois atos dos Puritanos, estando eu num
corredor, ouvi um grupo de moços que falavam dela, como de uma fortaleza
inexpugnável. Dois confessaram haver tentado alguma coisa, mas sem fruto; e
todos pasmavam do celibato da moça que lhes parecia sem explicação. E
chalaceavam: um dizia que era promessa até ver se engordava primeiro; outro
que estava esperando a segunda mocidade do tio para casar com ele; outro que
provavelmente encomendara algum anjo ao porteiro do céu; trivialidades que me
aborreceram muito, e da parte dos que confessavam tê-la cortejado ou amado,
achei que era uma grosseria sem nome. No que eles estavam todos de acordo é
que ela era extraordinariamente bela; aí foram entusiastas e sinceros.
— Oh! ainda me lembro!... era muito bonita.

— No dia seguinte, ao chegar ao escritório, entre duas causas que não vinham,
contei ao Nóbrega a conversação da véspera. Nóbrega riu-se do caso, refletiu, e
depois de dar alguns passos, parou diante de mim, olhando, calado. — Aposto que
a namoras? perguntei-lhe. — Não, disse ele; nem tu? Pois lembrou-me uma coisa:
vamos tentar o assalto à fortaleza? Que perdemos com isso? Nada; ou ela nos põe
na rua, e já podemos esperá-lo, ou aceita um de nós, e tanto melhor para o outro
que verá o seu amigo feliz. — Estás falando sério? — Muito sério. — Nóbrega
acrescentou que não era só a beleza dela que a fazia atraente. Note que ele tinha
a presunção de ser espírito prático, mas era principalmente um sonhador que vivia
lendo e construindo aparelhos sociais e políticos. Segundo ele, os tais rapazes do
teatro evitavam falar dos bens da moça, que eram um dos feitiços dela, e uma
das causas prováveis da desconsolação de uns e dos sarcasmos de todos. E diziame: — Escuta, nem divinizar o dinheiro, nem também bani-lo; não vamos crer
que ele dá tudo, mas reconheçamos que dá alguma coisa e até muita coisa, —
este relógio, por exemplo. Combatamos pela nossa Quintília, minha ou tua, mas
provavelmente minha, porque sou mais bonito que tu.
— Conselheiro, a confissão é grave; foi assim brincando...?

— Foi assim brincando, cheirando ainda aos bancos da academia, que nos
metemos em negócio de tanta ponderação, que podia acabar em nada, mas deu
muito de si. Era um começo estouvado, quase um passatempo de crianças, sem a
nota da sinceridade; mas o homem põe e a espécie dispõe. Conhecíamo-la, posto
não tivéssemos encontros freqüentes; uma vez que nos dispusemos a uma ação
comum, entrou um elemento novo na nossa vida, e dentro de um mês estávamos
brigados.

— Brigados?

— Ou quase. Não tínhamos contado com ela, que nos enfeitiçou a ambos,
violentamente. Em algumas semanas já pouco falávamos de Quintília, e com
indiferença; tratávamos de enganar um ao outro e dissimular o que sentíamos. Foi
assim que as nossas relações se dissolveram, no fim de seis meses, sem ódio,
nem luta, nem demonstração externa, porque ainda nos falávamos, onde o acaso
nos reunia; mas já então tínhamos banca separada.
— Começo a ver uma pontinha do drama...

— Tragédia, diga tragédia; porque daí a pouco tempo, ou por desengano verbal
que ela lhe desse, ou por desespero de vencer, Nóbrega deixou-me só em campo.
Arranjou uma nomeação de juiz municipal lá para os sertões da Bahia, onde
definhou e morreu antes de acabar o quatriênio. E juro-lhe que não foi o inculcado
espírito prático de Nóbrega que o separou de mim; ele, que tanto falara das
vantagens do dinheiro, morreu apaixonado como um simples Werther.

— Menos a pistola.

Também o veneno mata; e o amor de Quintília podia dizer-se alguma coisa
parecido com isso; foi o que o matou, e o que ainda hoje me dói... Mas, vejo pelo
seu dito que o estou aborrecendo...

— Pelo amor de Deus. Juro-lhe que não; foi uma graçola que me escapou. Vamos
adiante, conselheiro; ficou só em campo.

— Quintília não deixava ninguém estar só em campo, — não digo por ela, mas
pelos outros. Muitos vinham ali tomar um cálix de esperanças, e iam cear a outra
parte. Ela não favorecia a um mais que a outro; mas era lhana, graciosa e tinha
essa espécie de olhos derramados que não foram feitos para homens ciumentos.

     Tive ciúmes amargos e, às vezes, terríveis. Todo argueiro me parecia um
cavaleiro, e todo cavaleiro um diabo. Afinal acostumei-me a ver que eram
passageiros de um dia. Outros me metiam mais medo, eram os que vinham
dentro da luva das amigas. Creio que houve duas ou três negociações dessas, mas
sem resultado. Quintília declarou que nada faria sem consultar o tio, e o tio
aconselhou a recusa, — coisa que ela sabia de antemão. O bom velho não gostava
nunca da visita de homens, com receio de que a sobrinha escolhesse algum e
casasse. Estava tão acostumado a trazê-la ao pé de si, como uma muleta da velha
alma aleijada, que temia perdê-la inteiramente.

— Não seria essa a causa da isenção sistemática da moça?

— Vai ver que não.

— O que noto é que o senhor era mais teimoso que os outros...

— ...Iludido, a princípio, porque no meio de tantas candidaturas malogradas,
Quintília preferia-me a todos os outros homens, e conversava comigo mais
largamente e mais intimamente, a tal ponto que chegou a correr que nos
casávamos.
— Mas conversavam de quê?

— De tudo o que ela não conversava com os outros; e era de fazer pasmar que
uma pessoa tão amiga de bailes e passeios, de valsar e rir, fosse comigo tão
severa e grave, tão diferente do que costumava ou parecia ser.

— A razão é clara: achava a sua conversação menos insossa que a dos outros
homens.

— Obrigado; era mais profunda a causa da diferença, e a diferença ia-se

acentuando com os tempos. Quando a vida cá embaixo a aborrecia muito, ia para
o Cosme Velho, e ali as nossas conversações eram mais freqüentes e compridas.
Não lhe posso dizer, nem o senhor compreenderia nada, o que foram as horas que
ali passei, incorporando na minha vida toda a vida que jorrava dela. Muitas vezes
quis dizer-lhe o que sentia, mas as palavras tinham medo e ficavam no coração.
Escrevi cartas sobre cartas; todas me pareciam frias, difusas, ou inchadas de
estilo. Demais, ela não dava ensejo a nada, tinha um ar de velha amiga. No
princípio de 1857 adoeceu meu pai em Itaboraí; corri a vê-lo, achei-o moribundo.
Este fato reteve-me fora da Corte uns quatro meses. Voltei pelos fins de maio.
Quintília recebeu-me triste da minha tristeza, e vi claramente que o meu luto
passara aos olhos dela...

— Mas que era isso senão amor?

— Assim o cri, e dispus a minha vida para desposá-la. Nisto, adoeceu o tio
gravemente. Quintília não ficava só, se ele morresse, porque, além dos muitos
parentes espalhados que tinha, morava com ela agora, na casa da Rua do Catete,
uma prima, D. Ana, viúva; mas, é certo que a afeição principal ia-se embora e
nessa transição da vida presente à vida ulterior podia eu alcançar o que desejava.
A moléstia do tio foi breve; ajudada da velhice, levou-o em duas semanas. Digolhe aqui que a morte dele lembrou-me a de meu pai, e a dor que então senti foi
quase a mesma. 

   Quintília viu-me padecer, compreendeu o duplo motivo, e,
segundo me disse depois, estimou a coincidência do golpe, uma vez que tínhamos
de o receber sem falta e tão breve. A palavra pareceu-me um convite
matrimonial; dois meses depois cuidei de pedi-la em casamento. D. Ana ficara
morando com ela e estavam no Cosme Velho. Fui ali, achei-as juntas no terraço,
que ficava perto da montanha. Eram quatro horas da tarde de um domingo. D.
Ana, que nos presumia namorados, deixou-nos o campo livre.

— Enfim!

— No terraço, lugar solitário, e posso dizer agreste, proferi a primeira palavra. O
meu plano era justamente precipitar tudo, com medo de que, cinco minutos de
conversa me tirassem as forças. Ainda assim, não sabe o que me custou; custaria
menos uma batalha, e juro-lhe que não nasci para guerras. Mas aquela mulher
magrinha e delicada impunha-se-me, como nenhuma outra, antes e depois...

— E então?

— Quintília adivinhara, pelo transtorno do meu rosto, o que lhe ia pedir, e deixoume falar para preparar a resposta. A resposta foi interrogativa e negativa. Casar
para quê? Era melhor que ficássemos amigos como dantes. Respondi-lhe que a
amizade era, em mim, desde muito, a simples sentinela do amor; não podendo
mais contê-lo, deixou que ele saísse. Quintília sorriu da metáfora, o que me doeu,
e sem razão; ela, vendo o efeito, fez-se outra vez séria e tratou de persuadir-me
de que era melhor não casar. — Estou velha, disse ela; vou em trinta e três anos.
— Mas se eu a amo assim mesmo, repliquei, e disse-lhe uma porção de coisas,
que não poderia repetir agora. Quintília refletiu um instante; depois insistiu nas
relações de amizade; disse que, posto que mais moço que ela, tinha a gravidade
de um homem mais velho e inspirava-lhe confiança como nenhum outro.

      Desesperançado, dei algumas passadas, depois sentei-me outra vez e narrei-lhe
tudo. Ao saber da minha briga com o amigo e companheiro da academia, e a
separação em que ficamos, sentiu-se, não sei se diga, magoada ou irritada.
Censurou-nos a ambos, não valia a pena que chegássemos a tal ponto. — A
senhora diz isso porque não sente a mesma coisa. — Mas então é um delírio? —
Creio que sim; o que lhe afianço é que ainda agora, se fosse necessário, separarme-ia dele uma e cem vezes; e creio poder afirmar-lhe que ele faria a mesma
coisa.

    Aqui olhou ela espantada para mim, como se olha para uma pessoa cujas
faculdades parecem transtornadas; depois abanou a cabeça, e repetiu que fora
um erro; não valia a pena. — Fiquemos amigos, disse-me, estendendo a mão. — É

impossível; pede-me coisa superior às minhas forças, nunca poderei ver na
senhora uma simples amiga; não desejo impor-lhe nada; dir-lhe-ei até que nem
mais insisto, porque não aceitaria outra resposta agora. Trocamos ainda algumas
palavras, e retirei-me... Veja a minha mão.

— Treme-lhe ainda...

— E não lhe contei tudo. Não lhe digo aqui os aborrecimentos que tive, nem a dor
e o despeito que me ficaram. Estava arrependido, zangado, devia ter provocado
aquele desengano desde as primeiras semanas; mas a culpa foi da esperança, que
é uma planta daninha, que me comeu o lugar de outras plantas melhores. No fim
de cinco dias saí para Itaboraí, onde me chamaram alguns interesses do
inventário de meu pai. Quando voltei, três semanas depois, achei em casa uma
carta de Quintília.

— Oh!

— Abri-a alvoroçadamente: datava de quatro dias. Era longa; aludia aos últimos
sucessos, e dizia coisas meigas e graves. Quintília afirmava ter esperado por mim
todos os dias, não cuidando que eu levasse o egoísmo até não voltar lá mais, por
isso escrevia-me, pedindo que fizesse dos meus sentimentos pessoais e sem eco
uma página de história acabada; que ficasse só o amigo, e lá fosse ver a sua
amiga. E concluía com estas singulares palavras: "Quer uma garantia? Juro-lhe
que não casarei nunca”.
  
   Compreendi que um vínculo de simpatia moral nos ligava
um ao outro; com a diferença que o que era em mim paixão específica, era nela
uma simples eleição de caráter. 

   Éramos dois sócios, que entravam no comércio da
vida com diferente capital: eu, tudo o que possuía; ela, quase um óbolo. Respondi
à carta dela nesse sentido; e declarei que era tal a minha obediência e o meu
amor, que cedia, mas de má vontade, porque, depois do que se passara entre
nós, ia sentir-me humilhado. Risquei a palavra ridículo, já escrita, para poder ir
vê-la sem este vexame; bastava o outro.

— Aposto que seguiu atrás da carta? É o que eu faria, porque essa moça, ou eu
me engano ou estava morta por casar com o senhor.

— Deixe a sua fisiologia usual; este caso é particularíssimo.

— Deixe-me adivinhar o resto; o juramento era um anzol místico; depois, o
senhor, que o recebera, podia desobrigá-la dele, uma vez que aproveitasse com a
absolvição. Mas, enfim, correr à casa dele.

— Não corri; fui dois dias depois. No intervalo, respondeu ela à minha carta com
um bilhete carinhoso, que rematava com esta idéia: "não fale de humilhação,
onde não houve público." Fui, voltei uma e mais vezes e restabeleceram-se as
nossas relações. Não se falou em nada; ao princípio, custou-me muito parecer o
que era dantes; depois, o demônio da esperança veio pousar outra vez no meu
coração; e, sem nada exprimir, cuidei que um dia, um dia tarde, ela viesse a casar
comigo. E foi essa esperança que me retificou aos meus próprios olhos, na
situação em que me achava. Os boatos de nosso casamento correram mundo.

     Chegaram aos nossos ouvidos; eu negava formalmente e sério; ela dava de
ombros e ria. Foi essa fase da nossa vida a mais serena para mim, salvo um
incidente curto, um diplomata austríaco ou não sei que, rapagão, elegante, ruivo,
olhos grandes e atrativos, e fidalgo ainda por cima. Quintília mostrou-se-lhe tão
graciosa, que ele cuidou estar aceito, e tratou de ir adiante.
   Creio que algum gesto
meu, inconsciente, ou então um pouco da percepção fina que o céu lhe dera,
levou depressa o desengano à legação austríaca. Pouco depois ela adoeceu; e foi
então que a nossa intimidade cresceu de vulto. Ela, enquanto se tratava, resolveu
não sair, e isso mesmo lhe disseram os médicos. Lá passava eu muitas horas
diariamente. Ou elas tocavam, ou jogávamos os três, ou então lia-se alguma
coisa; a maior parte das vezes conversávamos somente. Foi então que a estudei

muito; escutando as suas leituras vi que os livros puramente amorosos achava-os
incompreensíveis, e, se as paixões aí eram violentas, largava-os com tédio. Não
falava assim por ignorante; tinha notícia vaga das paixões, e assistira a algumas
alheias.

— De que moléstia padecia?

— Da espinha. Os médicos diziam que a moléstia não era talvez recente, e ia
tocando o ponto melindroso. Chegamos assim a 1859. Desde março desse ano a
moléstia agravou-se muito; teve uma pequena parada, mas para os fins do mês
chegou ao estado desesperador. Nunca vi depois criatura mais enérgica diante da
iminente catástrofe; estava então de uma magreza transparente, quase fluida; ria,
ou antes, sorria apenas, e vendo que eu escondia as minhas lágrimas, apertava-me as mãos agradecida.   

  Um dia, estando só com o médico, perguntou-lhe a
verdade; ele ia mentir; ela disse-lhe que era inútil, que estava perdida. — Perdida,
não, murmurou o médico. — Jura que não estou perdida? — Ele hesitou, ela
agradeceu-lho. Uma vez certa que morria, ordenou o que prometera a si mesma.

— Casou com o senhor, aposto?

— Não me relembre essa triste cerimônia; ou antes, deixe-me relembrá-la, porque
me traz algum alento do passado. Não aceitou recusas nem pedidos meus; casou
comigo à beira da morte. Foi no dia 18 de abril de 1859. Passei os últimos dois
dias, até 20 de abril ao pé da minha noiva moribunda, e abracei-a pela primeira
vez feita cadáver.

— Tudo isso é bem esquisito.

— Não sei o que dirá a sua fisiologia. A minha, que é de profano, crê que aquela
moça tinha ao casamento uma aversão puramente física. Casou meio defunta, às
portas do nada. Chame-lhe monstro, se quer, mas acrescente divino.
  



A DESEJADA DAS GENTES, Contos Fluminenses, Machado de Assis

17/02/2018

O Grande Homem, Nelson Rodrigues


Sou um obsessivo e volto a falar de Guimarães Rosa. O que me feriu,
na morte do ficcionista, foi a aridez do seu velório. Sei, evidente, que a
visitação não parou. Como se saía e como se entrava! E, coisa curiosa: não
senti, nas caras presentes, nenhum sentimento maior. Fora a família, só vi
duas pessoas marcadas pelo espanto da morte: — Franklin de Oliveira e
Gustavo Corção.
(Parece uma perversidade pôr, lado a lado, e chorando o mesmo
morto, duas figuras tão dessemelhantes.) Passei na Academia uns dez,
quinze minutos; e saí de lá certo de que o grande homem é o menos amado
dos seres. O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já
o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato
de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não
entranhas vivas.
Vou concluir: — o velório de Guimarães Rosa teria de ser fatalmente
frio por se tratar de um grande morto. Fosse ele um Lemos qualquer, e teria,
não uma apoteose crítica, mas lágrimas inumeráveis. Sem querer, disse o
nome certo: — Lemos. Esse Lemos existiu e, se não me engano, trabalhava
na Casa da Moeda (na Casa da Moeda ou na Imprensa Nacional).
Vejamos o nome: — Lemos. Lemos, como Oliveira, é nome de vizinho.
Um sujeito que se chama Lemos só pode ser vizinho; e o citado morava na
casa ao lado da minha. Era ainda em Aldeia Campista. Um patusco e pior: —
homem de vir, para o meio-fio, de pijama, aparar os calos com gilete. E fazia
isso com um deleite, um requinte, um lavor inexcedíveis. Outro dado
biográfico: — mal sabia assinar o nome.
Pois um dia o Lemos morreu. Teve, em pleno expediente, isso que o
repórter chama de “mal súbito”. E morreu. Eu era garoto e essa morte foi um
dos espantos da minha infância. Aldeia Campista parou por causa do
Lemos. Nunca vi ninguém tão chorado. Veio gente da Pavuna, de Quintino,
do Encantado. Favelados desceram.

Desde garotinho que eu sou um fascinado por qualquer dor, inclusive
as físicas. E posso dizer que não houve, no velório do Lemos, ninguém
omisso, indiferente ou frívolo. As pessoas que lá entravam começavam a
estrebuchar, a bater com os pés, como em transe mediúnico. Perdi a conta
dos ataques. E, na hora de fechar o caixão, foi espantoso.
Eis o fato: — com súbita e frenética agilidade, a viúva deu um pulo
inverossímil. Deu um pulo e montou, solidamente, no caixão. Era uma
senhora gorda e fez isso. Teve que ser arrastada por uns dez. Fecho os olhos
e ouço os seus gritos: — “Quero ser enterrada com o Lemos!”. E esganiçava
o apelo: — “Me leva contigo! Lemos, Lemos!”. Também ela o chamava de
Lemos.
Conto o fato para concluir: — por que todo esse elenco de uivos?
Explico: porque morrera o antigênio, o antigrande homem. É fácil amar e
chorar o pobre-diabo. Ainda por cima, aos dezessete anos, tivera varíola. Era
chamado de “Lemos Bexiga”. Ao passo que somos ressentidos contra o
sujeito que funda uma língua, inventa um Brasil e tira um sertão inédito da
própria cabeça como de uma cartola.
Mas falei, falei, e não estou dizendo o essencial. O que chamo
essencial é a carta que acabo de receber do Otto ou, por extenso, Otto Lara
Resende. Ora, uma carta do Otto é, para mim, uma experiência
desconhecida. Ele nunca me escreveu e vou mais longe: — nunca me
telefonou. E, súbito, recebo uma carta imensa. Quase não acreditei e passei
os olhos na assinatura. Mas o nome lá estava, indubitável, limpidíssimo: —
Otto.
Agora vem o já referido essencial: — o meu longínquo amigo trata,
como não podia deixar de o fazer, do Guimarães Rosa. Eram amigos, foram
íntimos, uniram as suas gargalhadas em piadas recíprocas e lapidares. Mas,
antes de entrar no assunto “Guimarães Rosa”, quero dizer duas palavras
sobre o “novo” Otto. Não exagero. O Otto que daqui saiu não tem nada a ver
com o Otto que lá está.
Sim, o Otto de Lisboa é um, o de São João Del-Rey, o da
TV Globo, é
outro. Já domingo, no Jornal do Brasil, saiu um artigo do “novo” Otto. O
leitor lê, lê e não entende que o nome do mineiro lá esteja. O Almeida
Garrett assinaria tal página com a maior desfaçatez. De mais a mais, eu e o
Hélio Pellegrino falamos com o Otto pelo telefone internacional (custou-nos
a ligação uns duzentos mil cruzeiros). E nada descreve o nosso estupor. A

voz que ouvíamos não era a do Otto mas a do Leopoldo Fróes. O Otto fala
como Leopoldo Fróes. É o mesmo sotaque lisboeta, sem tirar nem pôr.
(E, por isso, digo eu que o brasileiro nunca pode viajar. Foi para
Lisboa um Otto Lara Resende e Portugal vai-nos devolver um Leopoldo
Fróes.) Mas o caro amigo fala, em certo trecho da carta, em Guimarães Rosa.
Confesso a maligna curiosidade com que li tal passagem. Nós estávamos
aqui, isto é, a dois passos do acontecimento. Qualquer táxi nos levaria ao
velório. Ao passo que havia entre o Otto e o Guimarães Rosa todo um
oceano a separá-los. Que influência teria a distância nas leis da emoção ou,
melhor dizendo, da dor? É o que eu ia ver.
Mas o comportamento humano não tem nenhuma simplicidade.
Quando surgiu, na carta, o nome de Guimarães Rosa, fiz um suspense para
mim mesmo. Parei de ler e puxei um cigarro. Comecei a imaginar o que
dizia o Otto sobre o ficcionista. Não me interessava sua admiração. O
admirador porta-se muito mal diante da morte. Acendendo o cigarro, eu me
lembrava da visita que nos fez, há tempos, o Jean-Paul Sartre. Fui a uma de
suas conferências. Gente escorrendo do lustre, subindo pelas paredes. E os
presentes lambiam o Sartre com a vista. Olhei aquilo e concluí que há
admirações abjetas. Justamente, eu não queria que o Otto fizesse do
Guimarães Rosa um Sartre.
Li a primeira frase e parei. Eis o que me perguntava: — Será que o
Otto chorou pelo amor do Grande sertão? Na véspera da partida para
Portugal, ele passara na casa do Hélio Pellegrino. Os dois foram para a
cozinha tomar leite gelado. E, de repente, o Otto começou a chorar. No
pânico e vergonha das próprias lágrimas, correu para o banheiro. E, lá, se
trancou com o Hélio. O Otto soluçava. Era uma dor sofrida, mugida. Por
quem chorava ele? Por nós, pelo Brasil ou pela própria e inefável
miserabilidade? Pois eu queria que, na carta, ele chorasse também como se o
Guimarães Rosa fosse o próprio “Lemos Bexiga”. Mas comecei a ler e, de
repente, tive medo.
[9/12/1967]
  

11/02/2018

Um Homem Célebre, Machado de Assis


— Ah! o senhor é que é o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um largo
gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: — Desculpe meu
modo, mas... é mesmo o senhor?

       Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do piano,
enxugando a testa com o lenço, e ia a chegar à janela, quando a moça o fez
parar. Não era baile; apenas um sarau íntimo, pouca gente, vinte pessoas ao
todo, que tinham ido jantar com a viúva Camargo, Rua do Areal, naquele dia dos
anos dela, cinco de novembro de 1875... Boa e patusca viúva! Amava o riso e a
folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e foi a última vez que folgou e
riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. Boa e patusca viúva! Com que alma e
diligência arranjou ali umas danças, logo depois do jantar, pedindo ao Pestana que
tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso acabar o pedido; Pestana curvou-se
gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadrilha, mal teriam descansado uns dez
minutos, a viúva correu novamente ao Pestana para um obséquio mui particular.

— Diga, minha senhora.

— É que nos toque agora aquela sua polca
Não Bula Comigo, Nhonhô.

       Pestana fez uma careta, mas dissimulou depressa, inclinou-se calado, sem
gentileza, e foi para o piano, sem entusiasmo. Ouvidos os primeiros compassos,
derramou-se pela sala uma alegria nova, os cavalheiros correram às damas, e os
pares entraram a saracotear a polca da moda. Da moda; tinha sido publicada
vinte dias antes, e já não havia recanto da cidade em que não fosse conhecida. Ia
chegando à consagração do assobio e da cantarola noturna.
Sinhazinha Mota estava longe de supor que aquele Pestana que ela vira à mesa de
jantar e depois ao piano, metido numa sobrecasaca cor de rapé, cabelo negro,
longo e cacheado, olhos cuidosos, queixo rapado, era o mesmo Pestana
compositor; foi uma amiga que lho disse quando o viu vir do piano, acabada a
polca. Daí a pergunta admirativa. Vimos que ele respondeu aborrecido e vexado.
Nem assim as duas moças lhe pouparam finezas, tais e tantas, que a mais
modesta vaidade se contentaria de as ouvir; ele recebeu-as cada vez mais
enfadado, até que, alegando dor de cabeça, pediu licença para sair. Nem elas,
nem a dona da casa, ninguém logrou retê-lo. Ofereceram-lhe remédios caseiros,
algum repouso, não aceitou nada, teimou em sair e saiu.

Rua fora, caminhou depressa, com medo de que ainda o chamassem; só afrouxou,
depois que dobrou a esquina da Rua Formosa. Mas aí mesmo esperava-o a sua
grande polca festiva. 
      De uma casa modesta, à direita, a poucos metros de
distância, saíam as notas da composição do dia, sopradas em clarineta. Dançavase. Pestana parou alguns instantes, pensou em arrepiar caminho, mas dispôs-se a
andar, estugou o passo, atravessou a rua, e seguiu pelo lado oposto ao da casa do
baile. As notas foram-se perdendo, ao longe, e o nosso homem entrou na Rua do
Aterrado, onde morava. Já perto de casa, viu vir dois homens: um deles,
passando rentezinho com o Pestana, começou a assobiar a mesma polca,
rijamente, com brio, e o outro pegou a tempo na música, e aí foram os dois
abaixo, ruidosos e alegres, enquanto o autor da peça, desesperado, corria a
meter-se em casa.

Em casa, respirou. Casa velha, escada velha, um preto velho que o servia, e que
veio saber se ele queria cear.

— Não quero nada, bradou o Pestana: faça-me café e vá dormir.
Despiu-se, enfiou uma camisola, e foi para a sala dos fundos. Quando o preto
acendeu o gás da sala, Pestana sorriu e, dentro d'alma, cumprimentou uns dez
retratos que pendiam da parede. Um só era a óleo, o de um padre, que o educara,
que lhe ensinara latim e música, e que, segundo os ociosos, era o próprio pai do
Pestana. Certo é que lhe deixou em herança aquela casa velha, e os velhos
trastes, ainda do tempo de Pedro I. Compusera alguns motetes o padre, era doido
por música, sacra ou profana, cujo gosto incutiu no moço, ou também lhe
transmitiu no sangue, se é que tinham razão as bocas vadias, coisa de que se não
ocupa a minha história, como ides ver.

      Os demais retratos eram de compositores clássicos, Cimarosa, Mozart, Beethoven,
Gluck, Bach, Schumann, e ainda uns três, alguns gravados, outros litografados,
todos mal encaixilhados e de diferente tamanho, mas postos ali como santos de
uma igreja. O piano era o altar; o evangelho da noite lá estava aberto: era uma
sonata de Beethoven.

      Veio o café; Pestana engoliu a primeira xícara, e sentou-se ao piano. Olhou para o
retrato de Beethoven, e começou a executar a sonata, sem saber de si,
desvairado ou absorto, mas com grande perfeição. Repetiu a peça, depois parou
alguns instantes, levantou-se e foi a uma das janelas. Tornou ao piano; era a vez
de Mozart, pegou de um trecho, e executou-o do mesmo modo, com a alma
alhures. Haydn levou-o à meia-noite e à segunda xícara de café.
Entre meia-noite e uma hora, Pestana pouco mais fez que estar à janela e olhar
para as estrelas, entrar e olhar para os retratos. De quando em quando ia ao
piano, e, de pé, dava uns golpes soltos no teclado, como se procurasse algum
pensamento; mas o pensamento não aparecia e ele voltava a encostar-se à
janela.
      As estrelas pareciam-lhe outras tantas notas musicais fixadas no céu à
espera de alguém que as fosse descolar; tempo viria em que o céu tinha de ficar
vazio, mas então a terra seria uma constelação de partituras. Nenhuma imagem,
desvario ou reflexão trazia uma lembrança qualquer de Sinhazinha Mota, que
entretanto, a essa mesma hora, adormecia, pensando nele, famoso autor de
tantas polcas amadas. Talvez a idéia conjugal tirou à moça alguns momentos de
sono. Que tinha? Ela ia em vinte anos, ele em trinta, boa conta. A moça dormia ao
som da polca, ouvida de cor, enquanto o autor desta não cuidava nem da polca
nem da moça, mas das velhas obras clássicas, interrogando o céu e a noite,
rogando aos anjos, em último caso ao diabo. Por que não faria ele uma só que
fosse daquelas páginas imortais?

   Às vezes, como que ia surgir das profundezas do inconsciente uma aurora de
idéia: ele corria ao piano, para aventá-la inteira, traduzi-la, em sons, mas era em

vão: a idéia esvaía-se. Outras vezes, sentado, ao piano, deixava os dedos
correrem, à ventura, a ver se as fantasias brotavam deles, como dos de Mozart:
mas nada, nada, a inspiração não vinha, a imaginação deixava-se estar dormindo.

   Se acaso uma idéia aparecia, definida e bela, era eco apenas de alguma peça
alheia, que a memória repetia, e que ele supunha inventar. Então, irritado, erguiase, jurava abandonar a arte, ir plantar café ou puxar carroça: mas daí a dez
minutos, ei-lo outra vez, com os olhos em Mozart, a imitá-lo ao piano.
Duas, três, quatro horas. Depois das quatro foi dormir; estava cansado,
desanimado, morto; tinha que dar lições no dia seguinte. Pouco dormiu; acordou
às sete horas. Vestiu-se e almoçou.

— Meu senhor quer a bengala ou o chapéu-de-sol? perguntou o preto, segundo as
ordens que tinha, porque as distrações do senhor eram freqüentes.
— A bengala.
— Mas parece que hoje chove.

— Chove, repetiu Pestana maquinalmente.

— Parece que sim, senhor, o céu está meio escuro.

Pestana olhava para o preto, vago, preocupado. De repente:
— Espera aí.

     Correu à sala dos retratos, abriu o piano, sentou-se e espalmou as mãos no
teclado. Começou a tocar alguma coisa própria, uma inspiração real e pronta, uma
polca, uma polca buliçosa, como dizem os anúncios. Nenhuma repulsa da parte do
compositor; os dedos iam arrancando as notas, ligando-as, meneando-as; dir-seia que a musa compunha e bailava a um tempo. 
   Pestana esquecera as discípulas,
esquecera o preto, que o esperava com a bengala e o guarda-chuva, esquecera
até os retratos que pendiam gravemente da parede. Compunha só, teclando ou
escrevendo, sem os vãos esforços da véspera, sem exasperação, sem nada pedir
ao céu, sem interrogar os olhos de Mozart. Nenhum tédio. Vida, graça, novidade,
escorriam-lhe da alma como de uma fonte perene.

    Em pouco tempo estava a polca feita. Corrigiu ainda alguns pontos, quando voltou
 para jantar: mas já a cantarolava, andando, na rua. Gostou dela; na composição
recente e inédita circulava o sangue da paternidade e da vocação. Dois dias
depois, foi levá-la ao editor das outras polcas suas, que andariam já por umas
trinta. O editor achou-a linda.

— Vai fazer grande efeito.

   Veio a questão do título. Pestana, quando compôs a primeira polca, em 1871, quis
dar-lhe um título poético, escolheu este:
Pingos de Sol. O editor abanou a cabeça,
e disse-lhe que os títulos deviam ser, já de si, destinados à popularidade, ou por
alusão a algum sucesso do dia, — ou pela graça das palavras; indicou-lhe dois:
A
Lei de 28 de Setembro
, ou Candongas Não Fazem Festa.

— Mas que quer dizer Candongas Não Fazem Festa? perguntou o autor.

— Não quer dizer nada, mas populariza-se logo.

      Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações e guardou a
polca, mas não tardou que compusesse outra, e a comichão da publicidade levouo a imprimir as duas, com os títulos que ao editor parecessem mais atraentes ou
apropriados. Assim se regulou pelo tempo adiante.

   Agora, quando Pestana entregou a nova polca, e passaram ao título, o editor
acudiu que trazia um, desde muitos dias, para a primeira obra que ele lhe
apresentasse, título de espavento, longo e meneado. Era este:
Senhora Dona,
Guarde o Seu Balaio.

— E para a vez seguinte, acrescentou, já trago outro de cor.

     Pestana, ainda donzel inédito, recusou qualquer das denominações compositor
bastava à procura; mas a obra em si mesma era adequada ao gênero, original,
convidava a dançá-la e decorava-se depressa. Em oito dias, estava célebre.
Pestana, durante os primeiros, andou deveras namorado da composição, gostava
de a cantarolar baixinho, detinha-se na rua, para ouvi-la tocar em alguma casa, e
zangava-se quando não a tocavam bem.
    Desde logo, as orquestras de teatro a
executaram, e ele lá foi a um deles. Não desgostou também de a ouvir assobiada,
uma noite, por um vulto que descia a Rua do Aterrado.
Essa lua-de-mel durou apenas um quarto de lua. Como das outras vezes, e mais
depressa ainda, os velhos mestres retratados o fizeram sangrar de remorsos.

  Vexado e enfastiado, Pestana arremeteu contra aquela que o viera consolar tantas
vezes, musa de olhos marotos e gestos arredondados, fácil e graciosa. E aí
voltaram as náuseas de si mesmo, o ódio a quem lhe pedia a nova polca da moda,
e juntamente o esforço de compor alguma coisa ao sabor clássico, uma página
que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser encadernada entre Bach e Schumann.
Vão estudo, inútil esforço. Mergulhava naquele Jordão sem sair batizado. Noites e
noites, gastou-as assim, confiado e teimoso, certo de que a vontade era tudo, e
que, uma vez que abrisse mão da música fácil...

— As polcas que vão para o inferno fazer dançar o diabo, disse ele um dia, de
madrugada, ao deitar-se.

   Mas as polcas não quiseram ir tão fundo. Vinham à casa de Pestana, à própria sala
dos retratos, irrompiam tão prontas, que ele não tinha mais que o tempo de as
compor, imprimi-las depois, gostá-las alguns dias, aborrecê-las, e tornar às velhas
fontes, donde lhe não manava nada. Nessa alternativa viveu até casar, e depois
de casar.

— Casar com quem? perguntou Sinhazinha Mota ao tio escrivão que lhe deu
aquela notícia.

— Vai casar com uma viúva.

— Velha?

— Vinte e sete anos.

— Bonita?

— Não, nem feia, assim, assim. Ouvi dizer que ele se enamorou dela, porque a
ouviu cantar na última festa de S. Francisco de Paula. Mas ouvi também que ela
possui outra prenda, que não é rara, mas vale menos: estatística.

  Os escrivães não deviam ter espírito, — mau espírito, quero dizer. A sobrinha
deste sentiu no fim um pingo de bálsamo, que lhe curou a dentadinha da inveja.
Era tudo verdade. Pestana casou daí a dias com uma viúva de vinte e sete anos,
boa cantora e tísica. Recebeu-a como a esposa espiritual do seu gênio. O celibato
era, sem dúvida, a causa da esterilidade e do transvio, dizia ele consigo;
artisticamente considerava-se um arruador de horas mortas; tinha as polcas por
aventuras de petimetres. Agora, sim, é que ia engendrar uma família de obras
sérias, profundas, inspiradas e trabalhadas.

    Essa esperança abotoou desde as primeiras horas do amor, e desabrochou à
primeira aurora do casamento. Maria, balbuciou a alma dele, dá-me o que não
achei na solidão das noites, nem no tumulto dos dias.

Desde logo, para comemorar o consórcio, teve idéia de compor um noturno.
     Chamar-lhe-ia Ave, Maria. A felicidade como que lhe trouxe um princípio de
inspiração; não querendo dizer nada à mulher, antes de pronto, trabalhava às
escondidas; coisa difícil, porque Maria, que amava igualmente a arte, vinha tocar
com ele, ou ouvi-lo somente, horas e horas, na sala dos retratos. Chegaram a
fazer alguns concertos semanais, com três artistas, amigos do Pestana. Um
domingo, porém, não se pôde ter o marido, e chamou a mulher para tocar um
trecho do noturno; não lhe disse o que era nem de quem era. De repente,
parando, interrogou-a com os olhos.

— Acaba, disse Maria; não é Chopin?

      Pestana empalideceu, fitou os olhos no ar, repetiu um ou dois trechos e ergueuse. Maria assentou-se ao piano, e, depois de algum esforço de memória, executou
a peça de Chopin. A idéia, o motivo eram os mesmos; Pestana achara-os em
algum daqueles becos escuros da memória, velha cidade de traições. Triste,
desesperado, saiu de casa, e dirigiu-se para o lado da ponte, caminho de S.
Cristóvão.

— Para que lutar? dizia ele. Vou com as polcas... Viva a polca!

   Homens que passavam por ele, e ouviam isto, ficavam olhando, como para um
doido. E ele ia andando, alucinado, mortificado, eterna peteca entre a ambição e a
vocação... Passou o velho matadouro; ao chegar à porteira da estrada de ferro,
teve idéia de ir pelo trilho acima e esperar o primeiro trem que viesse e o
esmagasse. O guarda fê-lo recuar. Voltou a si e tornou a casa.

     Poucos dias depois, — uma clara e fresca manhã de maio de 1876, — eram seis
horas, Pestana sentiu nos dedos um frêmito particular e conhecido. Ergueu-se
devagarinho, para não acordar Maria, que tossira toda noite, e agora dormia
profundamente. Foi para a sala dos retratos, abriu o piano, e, o mais surdamente
que pôde, extraiu uma polca. Fê-la publicar com um pseudônimo; nos dois meses
seguintes compôs e publicou mais duas. Maria não soube nada; ia tossindo e
morrendo, até que expirou, uma noite, nos braços do marido, apavorado e
desesperado.

    Era noite de Natal. A dor do Pestana teve um acréscimo, porque na vizinhança
havia um baile, em que se tocaram várias de suas melhores polcas. Já o baile era
duro de sofrer; as suas composições davam-lhe um ar de ironia e perversidade.

    Ele sentia a cadência dos passos, adivinhava os movimentos, porventura lúbricos,
a que obrigava alguma daquelas composições; tudo isso ao pé do cadáver pálido,
um molho de ossos, estendido na cama... Todas as horas da noite passaram
assim, vagarosas ou rápidas, úmidas de lágrimas e de suor, de águas-da-colônia e
de Labarraque, saltando sem parar, como ao som da polca de um grande Pestana
invisível.

     Enterrada a mulher, o viúvo teve uma única preocupação: deixar a música, depois
de compor um
Requiem, que faria executar no primeiro aniversário da morte de
Maria. Escolheria outro emprego, escrevente, carteiro, mascate, qualquer coisa
que lhe fizesse esquecer a arte assassina e surda.

   Começou a obra; empregou tudo, arrojo, paciência, meditação, e até os caprichos
do acaso, como fizera outrora, imitando Mozart. Releu e estudou o
Requiem deste
autor. Passaram-se semanas e meses. A obra, célere a princípio, afrouxou o
andar. Pestana tinha altos e baixos. Ora achava-a incompleta, não lhe sentia a

alma sacra, nem idéia, nem inspiração, nem método; ora elevava-se-lhe o coração
e trabalhava com vigor. Oito meses, nove, dez, onze, e o
Requiem não estava
concluído. Redobrou de esforços; esqueceu lições e amizades. Tinha refeito muitas
vezes a obra; mas agora queria concluí-la, fosse como fosse. Quinze dias, oito,
cinco... A aurora do aniversário veio achá-lo trabalhando.

     Contentou-se da missa rezada e simples, para ele só. Não se pode dizer se todas
as lágrimas que lhe vieram sorrateiramente aos olhos, foram do marido, ou se
algumas eram do compositor. Certo é que nunca mais tornou ao
Requiem.
"Para quê?" dizia ele a si mesmo.
Correu ainda um ano. No princípio de 1878, apareceu-lhe o editor.

— Lá vão dois anos, disse este, que nos não dá um ar da sua graça. Toda a gente
pergunta se o senhor perdeu o talento. Que tem feito?

— Nada.

— Bem sei o golpe que o feriu; mas lá vão dois anos. Venho propor-lhe um
contrato: vinte polcas durante doze meses; o preço antigo, e uma porcentagem
maior na venda. Depois, acabado o ano, podemos renovar.
Pestana assentiu com um gesto. Poucas lições tinha, vendera a casa para saldar
dívidas, e as necessidades iam comendo o resto, que era assaz escasso. Aceitou o
contrato.

— Mas a primeira polca há de ser já, explicou o editor. É urgente. Viu a carta do
Imperador ao Caxias? Os liberais foram chamados ao poder; vão fazer a reforma
eleitoral. A polca há de chamar-se:
Bravos à Eleição Direta! Não é política; é um
bom título de ocasião.

   Pestana compôs a primeira obra do contrato. Apesar do longo tempo de silêncio,
não perdera a originalidade nem a inspiração. Trazia a mesma nota genial. As
outras polcas vieram vindo, regularmente. Conservara os retratos e os
repertórios; mas fugia de gastar todas as noites ao piano, para não cair em novas
tentativas. Já agora pedia uma entrada de graça, sempre que havia alguma boa
ópera ou concerto de artista, ia, metia-se a um canto, gozando aquela porção de
coisas que nunca lhe haviam de brotar do cérebro. Uma ou outra vez, ao tornar
para casa, cheio de música, despertava nele o maestro inédito; então, sentava-se
ao piano, e, sem idéia, tirava algumas notas, até que ia dormir, vinte ou trinta
minutos depois.

   Assim foram passando os anos, até 1885. A fama do Pestana dera-lhe
definitivamente o primeiro lugar entre os compositores de polcas; mas o primeiro
lugar da aldeia não contentava a este César, que continuava a preferir-lhe, não o
segundo, mas o centésimo em Roma. Tinha ainda as alternativas de outro tempo,
acerca de suas composições; a diferença é que eram menos violentas. Nem
entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum
prazer e certo fastio.

    Naquele ano, apanhou uma febre de nada, que em poucos dias cresceu, até virar
perniciosa. Já estava em perigo, quando lhe apareceu o editor, que não sabia da
doença, e ia dar-lhe notícia da subida dos conservadores, e pedir-lhe uma polca
de ocasião. O enfermeiro, pobre clarineta de teatro, referiu-lhe o estado do
Pestana, de modo que o editor entendeu calar-se. O doente é que instou para que
lhe dissesse o que era; o editor obedeceu.

— Mas há de ser quando estiver bom de todo, concluiu.

— Logo que a febre decline um pouco, disse o Pestana.

Seguiu-se uma pausa de alguns segundos. O clarineta foi pé ante pé preparar o
remédio; o editor levantou-se e despediu-se.

— Adeus.

— Olhe, disse o Pestana, como é provável que eu morra por estes dias, faço-lhe
logo duas polcas; a outra servirá para quando subirem os liberais.
Foi a única pilhéria que disse em toda a vida, e era tempo, porque expirou na
madrugada seguinte, às quatro horas e cinco minutos, bem com os homens e mal
consigo mesmo.
 
 


UM HOMEM CÉLEBRE, Machado de Assis, Contos Fluminenses

10/02/2018

Nenhum Vento pode Apagar, Nelson Rodrigues

NENHUM VENTO PODE APAGARQuando ando de táxi, sinto uma euforia absurda e terrível. Isso vem
de longe, vem de minha infância profunda. Bem me lembro dos meus seis,
sete anos. Meu pai deu um passeio de táxi, com toda a família; e eu, na
frente, ao lado do chauffeur, teci toda uma fantasia de onipotência. Repito: o
táxi ainda me compensa de velhas e santas humilhações.
O ônibus, não. Quando ando de ônibus (e, às vezes, só tenho o
dinheiro contadinho do ônibus), viajo como um ofendido e sou, realmente,
um desfeiteado. É uma promiscuidade tão abjeta, que eu diria: o ônibus
apinhado é o túmulo do pudor. “Exagero”, dirão. Paciência. Mas quando eu
passava fome, queria ser rico, e não para ter palácios ou andar de Mercedes.
A minha obsessão nunca foi a Mercedes, nunca foi o palácio. Simplesmente,
queria andar de táxi e nada mais.
Fiz a introdução para referir certa viagem de ônibus. Precisava ir à rua
Mariz e Barros. Como tinha pouco dinheiro no bolso, apanhei um ônibus e lá
vim eu, em pé, pendurado numa argola. Enguiçamos na praça Onze. Ao
lado, estava o edifício da Última Hora. No meio de pardieiros, e com a favela
por fundo, o edifício da Última Hora era um pavão enfático. Salto e vejo, mais
adiante, uma aglomeração.
O brasileiro é um fascinado por qualquer ajuntamento. Também fui
espiar. Lá estava ele, o cadáver. “De cor parda”, diria o repórter de polícia.
Acabara de ser atropelado e era um defunto desfolhado, despetalado ou que
outro nome tenha. E, ao lado, alguém acendera uma vela. Disse “alguém” e
já retifico: — ninguém. Eis o mistério dos nossos atropelados. Sem que
ninguém a ponha, sempre aparece uma chama que nenhuma chuva,
nenhum vento, consegue apagar.
E, por todo um dia, por toda uma noite, fica ardendo a estrela do
atropelado. Essa piedade de rua, de esquina, de meio-fio, só existe no Brasil.

Nos outros povos, mão nenhuma se lembraria de acender uma vela pelo
defunto desconhecido.
Eis o que eu queria dizer: — quando entrei na Academia, e vi a
miséria dos círios elétricos, comecei a pensar no morto da praça Onze. Eu
teria preferido, em vez de quatro lâmpadas estúpidas, a vela solitária do
atropelado. Não me demorei. Eis a verdade: — tenho medo do morto ilustre.
A visitação, que não pára, é tão sem amor! Olho a curiosidade frívola dos
que vão espiar o morto. Vejo o Franklin de Oliveira. Esse podia estar ali.
Andava de um lado para outro, errante na própria solidão. Fala comigo. Mas
a sua voz é inaudível como o hálito. Descubro, num canto, Gustavo Corção.
Corção, já com setenta anos feitos, tem um coração atormentado e
puro de menino. Conversamos num canto; e, baixinho, contou-me a morte
de Guimarães Rosa. O autor estava só em casa quando começou a passar
mal. Liga para uma senhora conhecida: — “Fulana, estou-me sentindo mal.
Ouviu? Estou-me sentindo mal. Chame o médico”. Repetia: — “Chame o
médico. O médico”. Desatinada, a senhora pede: — “Espera, que eu vou
chamar”. Sem desligar, corre para alguém, manda chamar o médico.
Quando apanha de novo o telefone, ouve o amigo: — “Socorro. Socorro”.
Mas era um apelo sem ponto de exclamação.
(Não acredito no medo da morte que, a meu ver, ninguém tem. Há
inversamente, em todos nós, a nostalgia da morte. Também não acredito no
medo de Guimarães Rosa. Nem a morte foi uma visita. Há muito tempo que
os dois se entendiam. E o escritor chegou a datá-la. Pode-se dizer que havia
uma convivência e que ele se tornara íntimo da própria morte.)
Quando estive na Academia, senti que, fora a família, só Franklin de
Oliveira e Gustavo Corção podiam estar ali. As estagiárias, não. As
estagiárias formam a nova classe da imprensa. Invadiram o velório;
atropelavam todos os que não fossem solidamente desconhecidos. Eu
conversava com o Corção quando uma delas me interpelou: — “O que é que
o senhor acha do Guimarães Rosa?”. Estava com um bloco, um lápis e
esperava o meu juízo final. Para ela, Corção, o reacionário, não existia. Só
queria a minha opinião. Sentindo-me irremediavelmente imbecil, comecei:
— “Guimarães Rosa é o renovador”. Paro, numa brusca vergonha da
trivialidade. Renovador e que mais? Concluo: “Renovador do romance
brasileiro”.

Só três dias depois comecei a ter pena de Guimarães Rosa, amor por
Guimarães Rosa Fui com o Carlos Heitor Cony ao Garoto do Papai, um
boteco que fica, ali, na primeira esquina. A pretexto de tomar uma média,
nós vamos fazer literatura. Conversamos sobre Guimarães Rosa. O Cony foi
o primeiro a chamar o autor de Grande sertão de “o novo Coelho Neto”. Mas
nem sempre a opinião da véspera é a mesma do dia seguinte. Quem sabe se
o Cony não seria, como o Hélio Pellegrino, um ex-restritivo? Foi nessa
esperança que o interroguei.
E, então, para o meu horror, ele deixou de lado o Coelho Neto e pôs-se
a falar no Conselheiro Acácio. O amigo negava até o célebre “viver é muito
perigoso”. Gaguejei: — “Escuta. Mas Conselheiro Acácio?”. Comecei a
repassar os tipos de Eça. Via o Pacheco falando: — “Enquanto Vossa
Excelência faz berreiro, eu, aqui, no meu canto, faço luz”. Com uma certeza
jucunda, o Cony insistia: — “Aquele ‘o sujeito morre para provar que viveu’
é Acácio. Tem santa paciência. Mas é Acácio”. No meu escândalo, balbuciei:
— “E o ‘A terceira margem’ também é Acácio?”.
O outro fez a concessão: — “‘Terceira margem’ é bom!”. Ainda insisti:
— “E o resto? Que diabo! A linguagem!”. Cony retruca: — “A linguagem
quem faz é o povo”. Primeiro, foi uma revisão crítica de calçada. Por fim,
talvez por cansaço físico, o Cony admitiu que Guimarães Rosa era um
grande escritor, mas com algum Acácio. Entramos no Garoto do Papai.
Estava, lá, o Reynaldo Jardim. Viro-me e faço-lhe a pergunta, à queimaroupa: — “O que é que você acha do Guimarães Rosa?”.
A resposta, fulminante, veio num berro: — “Um bolha!”. Desta feita, a
gíria tornava a desfeita maior. Exaltei-me também. Mas, quando falei da
linguagem, do idioma fundado, o Jardim dava pulos de indignação: — “Um
falsário! Um falsário!”. Por um momento, eu não sabia mais o que dizer, o
que pensar. O Reynaldo repetia, na fúria polêmica: “Falsário da linguagem”.
Comecei a beber o meu copo de leite (a úlcera tinha contrações de víbora
moribunda). E, súbito, fui varado por uma dessas certezas inapeláveis,
fatais: — Guimarães Rosa era o único gênio de nossa literatura.
[7/12/1967]
  

04/02/2018

Uns Braços, Machado de Assis


   Inácio estremeceu, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe
apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro,
cabeça de vento, estúpido, maluco.

— Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para
que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau;
sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!

— Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se para D.
Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, há anos. Confunde-me os
papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de ir a outro, troca os
advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e contínuo. De manhã é o que se vê;
primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos... Deixe; amanhã hei de
acordá-lo a pau de vassoura!

   D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges expetorou ainda
alguns impropérios, e ficou em paz com Deus e os homens.

    Não digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era
propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabeça inculta, mas
bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer saber e não
acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo não destituído de graça,
ainda que mal vestido. O pai é barbeiro na Cidade Nova, e pô-lo de agente,
escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges, com esperança de vê-lo
no foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam muito.
Passava-se isto na Rua da Lapa, em 1870.

    Durante alguns minutos não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da
mastigação. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se para virgular a
oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.
Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem
para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o
descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos
nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.

    Também a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus,

constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio palmo
abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na verdade,
eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e
não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas é justo explicar que ela
os não trazia assim por faceira, senão porque já gastara todos os vestidos de
mangas compridas. De pé, era muito vistosa; andando, tinha meneios
engraçados; ele, entretanto, quase que só a via à mesa, onde, além dos braços,
mal poderia mirar-lhe o busto. 

   Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia.
 Nenhum adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os
cabelos, apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabeça com o pente de
tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro; nas orelhas, nada.
Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.

     Acabaram de jantar. Borges, vindo o café, tirou quatro charutos da algibeira,
comparou-os, apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os restantes.
Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D. Severina de trinta mil
coisas que não interessavam nada ao nosso Inácio; mas enquanto falava, não o
descompunha e ele podia devanear à larga.

    Inácio demorou o café o mais que pôde. Entre um e outro gole alisava a toalha,
arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos pelos
quadros da sala de jantar, que eram dois, um S. Pedro e um S. João, registros
trazidos de festas encaixilhados em casa. Vá que disfarçasse com S. João, cuja
cabeça moça alegra as imaginações católicas, mas com o austero S. Pedro era
demais. A única defesa do moço Inácio é que ele não via nem um nem outro;
passava os olhos por ali como por nada. Via só os braços de D. Severina, — ou
porque sorrateiramente olhasse para eles, ou porque andasse com eles impressos
na memória.

— Homem, você não acaba mais? bradou de repente o solicitador.
  Não havia remédio; Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se, como de
costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um gesto de zanga
e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas que davam para o
mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas e das montanhas ao longe
restituía-lhe o sentimento confuso, vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem,
alguma coisa que deve sentir a planta, quando abotoa a primeira flor. Tinha
vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era
sempre a mesma, sair de manhã com o Borges, andar por audiências e cartórios,
correndo, levando papéis ao selo, ao distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de
justiça. Voltava à tarde, jantava e recolhia-se ao quarto, até a hora da ceia; ceava
e ia dormir. Borges não lhe dava intimidade na família, que se compunha apenas
de D. Severina, nem Inácio a via mais de três vezes por dia, durante as refeições.
Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe e das irmãs;
cinco semanas de silêncio, porque ele só falava uma ou outra vez na rua; em
casa, nada.
"Deixe estar, — pensou ele um dia — fujo daqui e não volto mais."
      Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira
outros tão bonitos e tão frescos. A educação que tivera não lhe permitia encará-
los logo abertamente, parece até que a princípio afastava os olhos, vexado.
Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os
foi descobrindo, mirando e amando. No fim de três semanas eram eles,
moralmente falando, as suas tendas de repouso. Agüentava toda a trabalheira de
fora, toda a melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela
única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.
Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha ali
outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e,

pela primeira vez, desconfiou alguma coisa. Rejeitou a idéia logo, uma criança!
   
    Mas há idéias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as
sacuda, elas tornam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que
entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que
admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra idéia não foi
rejeitada, antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os
esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram
sintomas, e concluiu que sim.

— Que é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de
alguns minutos de pausa.

— Não tenho nada.

— Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de
um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos...

     E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaças, mas realmente incapaz
de as cumprir, pois era antes grosseiro que mau. D. Severina interrompia-o que
não, que era engano, não estava dormindo, estava pensando na comadre
Fortunata. Não a visitavam desde o Natal; por que não iriam lá uma daquelas
noites? Borges redargüia que andava cansado, trabalhava como um negro, não
estava para visitas de parola, e descompôs a comadre, descompôs o compadre,
descompôs o afilhado, que não ia ao colégio, com dez anos! Ele, Borges, com dez
anos, já sabia ler, escrever e contar, não muito bem, é certo, mas sabia. Dez
anos! Havia de ter um bonito fim: — vadio, e o côvado e meio nas costas. A
tarimba é que viria ensiná-lo.

     D. Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da comadre, o caiporismo do
compadre, e fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais. A noite
caíra de todo; ela ouviu o
tlic do lampião do gás da rua, que acabavam de
acender, e viu o clarão dele nas janelas da casa fronteira. Borges, cansado do dia,
pois era realmente um trabalhador de primeira ordem, foi fechando os olhos e
pegando no sono, e deixou-a só na sala, às escuras, consigo e com a descoberta
que acaba de fazer.

     Tudo parecia dizer à dama que era verdade; mas essa verdade, desfeita a
impressão do assombro, trouxe-lhe uma complicação moral, que ela só conheceu
pelos efeitos, não achando meio de discernir o que era. Não podia entender-se
nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao solicitador, e ele que
mandasse embora o fedelho. Mas que era tudo? Aqui estacou: realmente, não
havia mais que suposição, coincidência e possivelmente ilusão. Não, não, ilusão
não era. E logo recolhia os indícios vagos, as atitudes do mocinho, o
acanhamento, as distrações, para rejeitar a idéia de estar enganada. Daí a pouco,
(capciosa natureza!) refletindo que seria mau acusá-lo sem fundamento, admitiu
que se iludisse, para o único fim de observá-lo melhor e averiguar bem a realidade
das coisas.

      Já nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de Inácio; não
chegou a achar nada, porque o tempo do chá era curto e o rapazinho não tirou os
olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar melhor, e nos outros otimamente.
Percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido
pelos liames sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de
reconhecer-se a si mesmo. D. Severina compreendeu que não havia recear
nenhum desacato, e concluiu que o melhor era não dizer nada ao solicitador;
poupava-lhe um desgosto, e outro à pobre criança. Já se persuadia bem que ele
era criança, e assentou de o tratar tão secamente como até ali, ou ainda mais. E
assim fez; Inácio começou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava áspero,
quase tanto como o próprio Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz
saía brando e até meigo, muito meigo; assim como o olhar geralmente esquivo,

tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabeça dele;
mas tudo isso era curto.

— Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros dias.

       Chegava a casa e não se ia embora. Os braços de D. Severina fechavam-lhe um
parêntesis no meio do longo e fastidioso período da vida que levava, e essa oração
intercalada trazia uma idéia original e profunda, inventada pelo céu unicamente
para ele. Deixava-se estar e ia andando. Afinal, porém, teve de sair, e para nunca
mais; eis aqui como e porquê.

      D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz
parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia
recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água fria depois
do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe, que lhe
lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão. Inácio chegou ao extremo
de confiança de rir um dia à mesa, coisa que jamais fizera; e o solicitador não o
tratou mal dessa vez, porque era ele que contava um caso engraçado, e ninguém
pune a outro pelo aplauso que recebe. Foi então que D. Severina viu que a boca
do mocinho, graciosa estando calada, não o era menos quando ria.
A agitação de Inácio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entenderse. Não estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite, pensando em D.
Severina.
   
      Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito mais que dantes, e
não via mulher, ao longe ou ao perto, que lha não trouxesse à memória. Ao entrar
no corredor da casa, voltando do trabalho, sentia sempre algum alvoroço, às
vezes grande, quando dava com ela no topo da escada, olhando através das
grades de pau da cancela, como tendo acudido a ver quem era.
Um domingo, — nunca ele esqueceu esse domingo, — estava só no quarto, à
janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e nova de
D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes giros no
ar, ou pairavam em cima d'água, ou avoaçavam somente. O dia estava lindíssimo.
Não era só um domingo cristão; era um imenso domingo universal.

      Inácio passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos
que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a tostão, debaixo do
passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde. Estava cansado, dormira
mal a noite, depois de haver andado muito na véspera; estirou-se na rede, pegou
em um dos folhetos, a
Princesa Magalona, e começou a ler. Nunca pôde entender
por que é que todas as heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma cara e
talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo de meia hora,
deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde, cinco minutos depois, viu
sair a dama dos seus cuidados.
   O natural era que se espantasse; mas não se
espantou. Embora com as pálpebras cerradas viu-a desprender-se de todo, parar,
sorrir e andar para a rede. Era ela mesma, eram os seus mesmos braços.
É certo, porém, que D. Severina tanto não podia sair da parede, dado que
houvesse ali porta ou rasgão, que estava justamente na sala da frente ouvindo os
passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi à janela vê-lo sair
e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho da Rua das
Mangueiras. Então entrou e foi sentar-se no canapé. Parecia fora do natural,
inquieta, quase maluca; levantando-se, foi pegar na jarra que estava em cima do
aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois caminhou até à porta, deteve-se e
voltou, ao que parece, sem plano. Sentou-se outra vez, cinco ou dez minutos. De
repente, lembrou-se que Inácio comera pouco ao almoço e tinha o ar abatido, e
advertiu que podia estar doente; podia ser até que estivesse muito mal.

      Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi até o quarto do mocinho,
cuja porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou, deu com ele na rede,

dormindo, com o braço para fora e o folheto caído no chão. A cabeça inclinava-se
um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos fechados, os cabelos revoltos e
um grande ar de riso e de beatitude.

      D. Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou. Sonhara de noite
com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde madrugada que a
figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma tentação diabólica.
Recuou ainda, depois voltou, olhou dois, três, cinco minutos, ou mais. Parece que
o sono dava à adolescência de Inácio uma expressão mais acentuada, quase
feminina, quase pueril. "Uma criança!" disse ela a si mesma, naquela língua sem
palavras que todos trazemos conosco. E esta idéia abateu-lhe o alvoroço do
sangue e dissipou-lhe em parte a turvação dos sentidos.

"Uma criança!"

     E mirou-o lentamente, fartou-se de vê-lo, com a cabeça inclinada, o braço caído;
mas, ao mesmo tempo que o achava criança, achava-o bonito, muito mais bonito
que acordado, e uma dessas idéias corrigia ou corrompia a outra. De repente
estremeceu e recuou assustada: ouvira um ruído ao pé, na saleta do engomado;
foi ver, era um gato que deitara uma tigela ao chão. Voltando devagarinho a
espiá-lo, viu que dormia profundamente. Tinha o sono duro a criança! O rumor
que a abalara tanto, não o fez sequer mudar de posição. E ela continuou a vê-lo
dormir, — dormir e talvez sonhar.

    Que não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si
mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada;
depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito, cruzando ali os braços,
os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela,
que eram lindas, cálidas, principalmente novas, — ou, pelo menos, pertenciam a
algum idioma que ele não conhecia, posto que o entendesse. Duas, três e quatro
vezes a figura esvaía-se, para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre
gaivotas, ou atravessando o corredor, com toda a graça robusta de que era capaz.
E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os
braços, até que, inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os lábios e
deixou-lhe um beijo na boca.

       Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na
imaginação e fora dela. A diferença é que a visão não recuou, e a pessoa real tão
depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e medrosa. Dali
passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada.
Afiava o ouvido, ia até o fim do corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe
dissesse que ele acordara, e só depois de muito tempo é que o medo foi
passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem
os fracassos contíguos, nem os beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o
vexame ficou e cresceu. D. Severina não acabava de crer que fizesse aquilo;
parece que embrulhara os seus desejos na idéia de que era uma criança namorada
que ali estava sem consciência nem imputação; e, meia mãe, meia amiga,
inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa, irritada, aborrecida,
mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia
apontou-lhe na alma e deu-lhe um calafrio.

       Mas a verdade é que dormiu ainda muito, e só acordou para jantar. Sentou-se à
mesa lépido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o solicitador tão
ríspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a severidade da outra
podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda trazia consigo, ou amortecer-lhe a
sensação do beijo. Não reparou que D. Severina tinha um xale que lhe cobria os
braços; reparou depois, na segunda-feira, e na terça-feira, também, e até sábado,
que foi o dia em que Borges mandou dizer ao pai que não podia ficar com ele; e
não o fez zangado, porque o tratou relativamente bem e ainda lhe disse à saída:

— Quando precisar de mim para alguma coisa, procure-me.

— Sim, senhor. A Sra. D. Severina...

— Está lá para o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois
despedir-se dela.

        Inácio saiu sem entender nada. Não entendia a despedida, nem a completa
mudança de D. Severina, em relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava tão
bem! falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente... Tanto pensou que
acabou supondo de sua parte algum olhar indiscreto, alguma distração que a
ofendera; não era outra coisa; e daqui a cara fechada e o xale que cobria os
braços tão bonitos... Não importa; levava consigo o sabor do sonho. E através dos
anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação
achou nunca igual à daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze
anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se engana:

— E foi um sonho! um simples sonho!
  



UNS BRAÇOS, Machado de Assis, Contos Fluminenses

03/02/2018

Reze Menos Por Mim, Nelson Rodrigues


Vou falar de Alceu Amoroso Lima, mas o assunto é ainda Guimarães
Rosa, Eis o que eu queria dizer: — para mim, o amigo é o grande
acontecimento. (Bem me lembro daquela segunda-feira. Entro na redação e
vejo o Franklin de Oliveira. Vagava por entre mesas e cadeiras, e tão órfão
de Guimarães Rosa.) Há cinco ou seis anos, resolvi ser amigo do dr. Alceu.
Era dezembro. No dia 24, ligo para ele. Imaginei que, na espera de Natal, um
católico puro há de estar aberto para o mundo.
Comecei assim: — “Dr. Alceu, aqui fala o Nelson Rodrigues. Como
vai? Vai bem?”. Não havia nenhuma convivência entre nós. Mas ele
respondeu, vivamente: — “Ah, Nelson, tenho pensado tanto em você! Agora
mesmo, estava rezando por você”. Pensando em mim, rezando por mim. Vou
adiante: — “Dr. Alceu, estou-lhe telefonando para desejar todas as
felicidades, a si e aos seus” etc. etc. etc. Por um momento, tive vontade de
contar-lhe o seguinte: — “Dr. Alceu, quando eu era criança, o Tico-Tico
publicava um presépio para armar. O senhor sabe que eu recortava as
figurinhas e colava em papelão?”.
Todavia, não falei do presépio. Um ano depois, no mesmo 24 de
dezembro, disco novamente. E o dr. Alceu responde: — “Ah, Nelson, acabei
de rezar por você”. (Ah, não se esquecia de mim nas suas orações.) Mais
uma vez, não contei que em criança armava os presépios do Tico-Tico. E,
assim, Natal após Natal, não lhe faltei com o meu sofrido telefonema.
Eis o que eu pensava: — um católico, como o dr. Amoroso Lima, há de
ter Deus enterrado em si como um sino. Ele havia de imaginar que eu corria,
arquejante, atrás de um amigo, eternamente atrás de um amigo. E, no
entanto, eu sentia, com uma nitidez cruel, inapelável, que o dr. Alceu rezava
por mim e não era meu amigo. Simplesmente, não era meu amigo.
Até que, um dia, converso com uma senhora que acabava de chegar

de Roma. Entrara no Vaticano e fora recebida pelo papa. Na hora de se
despedir, o Santo padre baixa a voz e diz, súplice: — “Reze por mim”. Era
um papa, a mendigar uma oração. Tremendo de beleza, a pobre senhora
saiu dali como se fugisse.
No seguinte Natal, vou ligar para o dr. Alceu. Estou cada vez mais
convencido de que o amigo é um momento de eternidade. Antes de discar,
passo um bom quarto de hora sonhando diante do telefone. Eu queria ter,
com o dr. Alceu, uma conversa de lealdade total. Eis o que imaginava dizerlhe: — “Dr. Alceu, reze menos por mim. Se quiser, não reze nada. Mas seja
meu amigo. Apenas isso: — meu amigo. E, se insiste em rezar, vamos fazer
uma permuta: o senhor reza por mim e eu rezo por si”.
Daria tudo para ver o dr. Alceu mendigando as minhas orações, com a
humildade de um papa. Imaginei o velho católico a suplicar, do fundo do
seu desespero: — “Nelson, reze por mim. Eu preciso ser salvo. É a minha
salvação que está em jogo”. Se ele falasse assim, trêmulo de pavor, eu
responderia: — “Dr. Alceu, vou começar agora mesmo. Não desligue. Quero
que o senhor ouça a minha oração”. E assim eu salvaria o dr. Alceu Amoroso
Lima, e seríamos amigos eternamente.
Eu não rezo. Sou cristão e não rezo. A última vez em que rezei foi na
morte do meu irmão Roberto. Na morte, não: ele ainda agonizava e rezei
para salvá-lo. Quando o vi morto, fiz, a mim mesmo, o juramento ressentido:
— não rezar mais, nunca mais. (Roberto foi assassinado; e, morto, era belo
como os suicidas.) Mas rezaria pelo dr. Alceu se ele implorasse uma oração,
assim como um ceguinho pede uma moeda.
Bem me lembro do nosso último 24 de dezembro. Ouço a voz do dr.
Alceu: — “Alô?”. Estou imaginando: — “Vai repetir tudo, igualzinho como
da outra vez”. Digo: — “Dr. Alceu, é o Nelson Rodrigues. Como vai essa
figura?”. Foi de uma larga e cálida efusão: — “Ah, Nelson, acabei de rezar
por você”. Tomo um baque. Ele insiste: — “Tenho pedido muito por você”.
Aproveito uma pausa e dou o meu recado: — “Vim desejar-lhe todas as
felicidades etc. etc.”.
(E eu queria pingar, como no pires de um cego, a moeda da minha
oração.) Baixa em mim o tédio: começo a crer que o amigo é uma
impossibilidade. A conversa continuou e chegava a ser irreal, quase um
pesadelo humorístico. Subitamente, ele suspira: — “Ah, Nelson, você aí

nessa lama!”. Exatamente: — lama. Começo a ter medo do resto. Dr. Alceu
dizia “lama” familiarmente, como se falasse de uma tia minha, bem idosa e
até estimável. Tive a idéia de responder-lhe: — “Minha lama vai bem. E a
sua, dr. Alceu?”.
Acabei com aquilo sumariamente: — “Até logo, até logo. Passar bem”.
Desliguei e confesso: — com um desgosto do Natal e, até, um tédio
retrospectivo do presépio do Tico-Tico. Nunca mais telefonei, nunca mais.
Mas, ao relembrar o episódio, imagino um mundo em que as senhoras se
cumprimentassem assim: — “Como tem passado a sua lama?”. Eis o que o
dr. Alceu, na sua imodéstia de santo, não percebe — qualquer um tem seus
íntimos pântanos, sim, pântanos adormecidos. É preciso não despertá-los.
Mas certos acontecimentos acordam a lama do seu negro sono. Quando isso
acontece, a alma começa a exalar o tifo, a malária, e a paisagem apodrece.
Justamente, a morte de Guimarães Rosa tocou meu íntimo e
inconfesso pântano. Vivo, ele nos agredia e humilhava com a sua
monumental presença literária. Certa vez, ouvi o Otto Lara Resende dizer,
na
TV Globo: — “O genial João Guimarães Rosa”. Além de chamá-lo
“genial”, ainda lhe punha, por extenso, o nome. Eu estava em casa. Detestei
o Otto e pensei, desfeiteado: — “Uma besta, esse Otto”. No dia seguinte
estava eu dizendo, não sei a quem, que o Grande sertão tinha muito de gratuito, de incomunicável; e a linguagem do autor, que ninguém entendia, era
uma audição para surdos. Fiquei, por uns dias, ressentido com o Otto: —
“Nunca me chamou de gênio”, era o meu lamento.
E, súbito, num domingo, morria Guimarães Rosa. A notícia deu-me
um alívio, uma brusca e vil euforia. É fácil admirar, sem ressentimento, um
gênio morto. Já tínhamos um Machado de Assis. Guimarães Rosa seria outro
Machado de Assis. Claro que os demais continuavam vivíssimos,
atropelando. Mas esses não fundaram uma língua, nem escreveram “A
terceira margem do rio” (que o Hélio Pellegrino declamou para mim, ao
telefone).
No dia seguinte, Guimarães Rosa tinha uma imprensa de chefe de
Estado assassinado. Vocês se lembram quando um tiro arrancou o queixo
forte, vital, de Kennedy? Pois Guimarães Rosa subiu às manchetes como o
presidente fuzilado dos Estados Unidos. Pela primeira vez um escritor
aparecia em oito colunas, nas primeiras páginas. No princípio do século,

Euclides da Cunha também teve a mesma glória impressa. Mas não era o
autor de Os sertões, não era o bárbaro estilista. Para ser manchete, Euclides
teve de ser varado de balas.
Há qualquer coisa de árido, ou de vazio, ou de humilhante, na morte
natural do grande homem. Pois Guimarães Rosa, com um puro e
convencional enfarte, mereceu a promoção frenética das tragédias de
sangue. Repito: — pela primeira vez fez-se crítica literária nas manchetes. Os
meus amigos penduravam-se no telefone. O Hélio Pellegrino, na véspera,
restritivo, realizou uma fulminante revisão crítica. Relia o Guimarães Rosa e
tremia de beleza. Ligou para o Mário Pedrosa para arrastá-lo na mesma
admiração. Mas o Mário resmungou: — “É o novo Coelho Neto!”. Muito
antes, eu ouvira do Carlos Heitor Cony o mesmo berro: — “É o novo Coelho
Neto!”. Quanto a mim, fui ao velório na Academia. Entro e paro ante a
indignidade dos círios elétricos.
[6/12/1967]
 

02/02/2018

Pirâmides e Biscoitos, Nelson Rodrigues


Antes de falar de João Guimarães Rosa, quero dizer ainda duas
palavras sobre o velho Rio. (Em nosso idioma, duas palavras são duzentas.)
O brasileiro cospe menos, diria eu. Quanto às nossas mulheres, nem cospem.
Mas, no tempo do fraque e do espartilho, a cidade expectorava muito mais.
Lembro-me de antigas bronquites, de tosses longínquas, asmas nostálgicas.
Nas salas da Belle Époque era obrigatória esta figura ornamental: — a
escarradeira de louça, com flores desenhadas em relevo (e pétalas coloridas).
O curioso é que a ficção brasileira da época não tenha notado o
detalhe. Não há, em todo o Machado, uma vaga e escassa referência, e
repito: — a escarradeira não existia para o autor, para os personagens, nem
para o décor dos ambientes. Mas, em 1915, quando assassinaram Pinheiro
Machado, ou em 1916, quando vim para o Rio, as famílias tinham pigarros,
tosses, que as novas gerações não conhecem. Dos meus amigos atuais, o
único que costuma tossir é o João Saldanha.
Bem me lembro da primeira vez em que fui ao cinema. 1916. Eu era
um garoto de seis anos, e tudo me espantava. Quando apagou a luz, nasceu
na treva uma misteriosa e tristíssima fauna de tosses. Depois do filme,
saímos, eu e meu irmão Milton. Olhei e vi: — lá estava ela, num canto da
sala de espera. Era escarradeira e flor: — subia por um caule fino para se
abrir em lírio. Larguei-me do irmão e fui lá cuspir. Passei a mão na boca e
voltei. Vinha feliz, envaidecido, realizado. Ainda me voltei, da porta, para
vê-la. Linda, linda, imitando um lírio ou um copo-de-leite.
Também me vejo na calçada da rua Alegre. Os mesmos seis anos. Era
pequenino e cabeçudo como um anão de Velásquez. E me fascinava ir de
uma esquina a outra esquina, sempre pelo meio-fio. Eu me equilibrava, no
meio-fio, como se este fosse fino e vibrante como um arame. Mas eis o que
importa dizer: — fazia esse número acrobático, cuspindo sempre. Também

me vejo numa sacada, cuspindo na cabeça dos que passavam.
Bem. Preciso agora explicar que toda essa ternura antiga me veio,
outro dia, num boteco. Entrei lá para comprar cigarros e fósforos. Um paud’água está resmungando: — “Não gosto de nortista”. Passou os olhos nos
presentes e repetiu, num riso encharcado: — “Não gosto de nortista”. E
súbito me viu. Vem para mim; disse, cara a cara comigo: — “Eu nasci em
casa e com parteira”. Fala com uma vaidade feroz e jucunda. Mas é
exatamente o meu caso. Também nasci em casa e com parteira.
E assim o pau-d’água anônimo instalou em mim todo o apelo da Belle
Époque. Parto em casa, velório em casa, escarradeira na sala, bronquite das
tias — todo esse conjunto de relações era o Rio de Machado de Assis, de
Pinheiro Machado, de Rui Barbosa. As famílias usavam as bacias em
abundância. Hoje uma simples bacia deflagra em mim todo um movimento
regressivo, todo um processo proustiano.
E já me ocorre um incidente parlamentar que ouvi contar na minha
infância. Era no velho Senado. Pinheiro Machado está na tribuna. Fala, fala
com a nobre insolência gaúcha. Mais adiante está Rui Barbosa, “o maior dos
brasileiros vivos”. De repente Pinheiro Machado diz: — “Se eu me manter”.
Rui cortou, com triunfante crueldade: — “Decerto Vossa Excelência quer
dizer ‘mantiver’”. A lambada doeu na carne e no brio do caudilho. Vacila ou
nem isso; deu a resposta fulminante: — “Vossa Excelência pode me corrigir,
e é bom que o faça. Pois, enquanto Vossa Excelência aprendia a falar certo e
bonito, eu matava e morria na Guerra do Paraguai”.
Chego finalmente a João Guimarães Rosa. O curioso é que o nome,
por extenso, como num cartão de visitas, soa falso. Guimarães Rosa devia
chamar-se apenas, e para sempre, Guimarães Rosa. O João lá não devia
estar. Lembro-me de que no sábado, véspera da morte, fui à casa do Hélio
Pellegrino. E tivemos uma conversa obsessiva sobre o Grande sertão e seu
autor. O Hélio deu a idéia: — “Falo com o Callado para promover um
almoço com o Guimarães Rosa. Você topa?”. Claro, claro. E assim
combinamos o almoço com o morto do dia seguinte.
Coisa curiosa. O Hélio Pellegrino é um admirador nato. Quando não
há quem admirar, sente-se um frustrado e um vencido. Todavia, o seu juízo
final sobre Guimarães Rosa não era um juízo final, mas um ponto de
interrogação. O Hélio não sabia o que pensar, o que dizer. Admitia que o

Grande sertão fosse um esmagador monumento estilístico. O próprio autor já
dissera: — “Faça pirâmide, não faça biscoito”. Pois seu livro era uma
pirâmide indubitável. Mas a linguagem rosiana fazia o Hélio sentir uma
nostalgia cruel de Graciliano, sim, da seca transparência de Graciliano.
Talvez todo o Guimarães Rosa fosse uma inútil obra imortal. Juntei as
minhas dúvidas às do Hélio. Exagerei as minhas.
No domingo, fiz, como sempre, a Grande Resenha Esportiva da
TVGlobo. Em seguida, a fome da madrugada levou-me ao Antonio’s. Comigo
ia o dr. Hílton Gosling. O Guimarães Rosa já estava morto e eu não sabia.
Assim como Paris tem seus cafés literários, temos os nossos cafés, bares,
restaurantes ideológicos. O Antonio’s é um deles. Lá as nossas esquerdas
vão dizer seus palavrões e babar seus pileques. Tomo uma sopa que, aliás,
não foi uma sopa — foi um omelete com presunto de Parma. E ninguém me
falou nada. Não houve um pau-d’água ideológico que me cochichasse: —
“Olha. Morreu o Guimarães Rosa”.
Saio do Antonio’s e venho na carona fraterna do dr. Hílton Gosling.
Quando é o João Saldanha que me traz, depois da Grande Resenha, costumo
dizer: — “Espera que eu entre. Senão me assaltam”. Também o dr. Hílton
esperou, de faróis acesos, que eu abrisse o portão. Grito ao amigo: — “Deus
te abençoe”. O que me pergunto é se, por coincidência, pensei no autor de
Sagarana. Não, não pensei. Minha mulher, Lúcia, só dorme depois que eu
chego. Veio abrir a porta dos fundos (aos domingos subo pelo elevador de
serviço e entro pela cozinha). Beijo-a, de passagem. Ela já sabe, mas ainda
não me diz nada.
Naquele momento, uma coisa não me saía da cabeça — o omelete que
comera no Antonio’s. Era um veneno para a úlcera. Já a caminho de casa,
vim pensando: — “Chego e tomo um copo de leite”. O leite acalmaria as
danações da úlcera. O antiácido tem sido a minha mais recente fé. Bebi o
leite gelado, achei que o omelete estava derrotado e passei para a sala. Foi aí
que Lúcia começou: — “Que coisa horrível aconteceu com o Guimarães
Rosa!”. Eu desfazia o nó da gravata e parei: — “Que foi?”. E ela: — “Não
sabia? Morreu”. Ainda perguntei: — “Desastre?”. Disse: — “Enfarte”.
As más notícias agridem em primeiro lugar a minha úlcera. Sinto os
seus arrancos. O copo de leite não ia adiantar nada. Fiz várias exclamações:
— “Que coisa! Não é possível!”. E só faltei perguntar: — “Morreu como, se

estava vivo?”. Lúcia foi dormir. Fiquei rodando pela sala. Eu tivera, com a
notícia, duas reações: — primeiro, de pusilanimidade. O enfarte alheio é
uma ameaça para qualquer um. A nossa saúde cardíaca é um eterno
mistério, um eterno suspense. Depois do medo, veio algo pior e mais vil: —
uma espécie de satisfação, de euforia. Ninguém me via, só eu me via. Vim
para a janela olhar a noite. Cada um de nós tem seu momento de pulha.
Naquele instante, eu me senti um límpido, translúcido canalha.
[5/12/1967]
 

Morte acidental

          Enquanto ele falava, eu arrumava a churrasqueira até que todos viessem. Era uma típica festa de firma, onde as pessoas vão par...