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Nenhum Vento pode Apagar, Nelson Rodrigues

NENHUM VENTO PODE APAGARQuando ando de táxi, sinto uma euforia absurda e terrível. Isso vem
de longe, vem de minha infância profunda. Bem me lembro dos meus seis,
sete anos. Meu pai deu um passeio de táxi, com toda a família; e eu, na
frente, ao lado do chauffeur, teci toda uma fantasia de onipotência. Repito: o
táxi ainda me compensa de velhas e santas humilhações.
O ônibus, não. Quando ando de ônibus (e, às vezes, só tenho o
dinheiro contadinho do ônibus), viajo como um ofendido e sou, realmente,
um desfeiteado. É uma promiscuidade tão abjeta, que eu diria: o ônibus
apinhado é o túmulo do pudor. “Exagero”, dirão. Paciência. Mas quando eu
passava fome, queria ser rico, e não para ter palácios ou andar de Mercedes.
A minha obsessão nunca foi a Mercedes, nunca foi o palácio. Simplesmente,
queria andar de táxi e nada mais.
Fiz a introdução para referir certa viagem de ônibus. Precisava ir à rua
Mariz e Barros. Como tinha pouco dinheiro no bolso, apanhei um ônibus e lá
vim eu, em pé, pendurado numa argola. Enguiçamos na praça Onze. Ao
lado, estava o edifício da Última Hora. No meio de pardieiros, e com a favela
por fundo, o edifício da Última Hora era um pavão enfático. Salto e vejo, mais
adiante, uma aglomeração.
O brasileiro é um fascinado por qualquer ajuntamento. Também fui
espiar. Lá estava ele, o cadáver. “De cor parda”, diria o repórter de polícia.
Acabara de ser atropelado e era um defunto desfolhado, despetalado ou que
outro nome tenha. E, ao lado, alguém acendera uma vela. Disse “alguém” e
já retifico: — ninguém. Eis o mistério dos nossos atropelados. Sem que
ninguém a ponha, sempre aparece uma chama que nenhuma chuva,
nenhum vento, consegue apagar.
E, por todo um dia, por toda uma noite, fica ardendo a estrela do
atropelado. Essa piedade de rua, de esquina, de meio-fio, só existe no Brasil.

Nos outros povos, mão nenhuma se lembraria de acender uma vela pelo
defunto desconhecido.
Eis o que eu queria dizer: — quando entrei na Academia, e vi a
miséria dos círios elétricos, comecei a pensar no morto da praça Onze. Eu
teria preferido, em vez de quatro lâmpadas estúpidas, a vela solitária do
atropelado. Não me demorei. Eis a verdade: — tenho medo do morto ilustre.
A visitação, que não pára, é tão sem amor! Olho a curiosidade frívola dos
que vão espiar o morto. Vejo o Franklin de Oliveira. Esse podia estar ali.
Andava de um lado para outro, errante na própria solidão. Fala comigo. Mas
a sua voz é inaudível como o hálito. Descubro, num canto, Gustavo Corção.
Corção, já com setenta anos feitos, tem um coração atormentado e
puro de menino. Conversamos num canto; e, baixinho, contou-me a morte
de Guimarães Rosa. O autor estava só em casa quando começou a passar
mal. Liga para uma senhora conhecida: — “Fulana, estou-me sentindo mal.
Ouviu? Estou-me sentindo mal. Chame o médico”. Repetia: — “Chame o
médico. O médico”. Desatinada, a senhora pede: — “Espera, que eu vou
chamar”. Sem desligar, corre para alguém, manda chamar o médico.
Quando apanha de novo o telefone, ouve o amigo: — “Socorro. Socorro”.
Mas era um apelo sem ponto de exclamação.
(Não acredito no medo da morte que, a meu ver, ninguém tem. Há
inversamente, em todos nós, a nostalgia da morte. Também não acredito no
medo de Guimarães Rosa. Nem a morte foi uma visita. Há muito tempo que
os dois se entendiam. E o escritor chegou a datá-la. Pode-se dizer que havia
uma convivência e que ele se tornara íntimo da própria morte.)
Quando estive na Academia, senti que, fora a família, só Franklin de
Oliveira e Gustavo Corção podiam estar ali. As estagiárias, não. As
estagiárias formam a nova classe da imprensa. Invadiram o velório;
atropelavam todos os que não fossem solidamente desconhecidos. Eu
conversava com o Corção quando uma delas me interpelou: — “O que é que
o senhor acha do Guimarães Rosa?”. Estava com um bloco, um lápis e
esperava o meu juízo final. Para ela, Corção, o reacionário, não existia. Só
queria a minha opinião. Sentindo-me irremediavelmente imbecil, comecei:
— “Guimarães Rosa é o renovador”. Paro, numa brusca vergonha da
trivialidade. Renovador e que mais? Concluo: “Renovador do romance
brasileiro”.

Só três dias depois comecei a ter pena de Guimarães Rosa, amor por
Guimarães Rosa Fui com o Carlos Heitor Cony ao Garoto do Papai, um
boteco que fica, ali, na primeira esquina. A pretexto de tomar uma média,
nós vamos fazer literatura. Conversamos sobre Guimarães Rosa. O Cony foi
o primeiro a chamar o autor de Grande sertão de “o novo Coelho Neto”. Mas
nem sempre a opinião da véspera é a mesma do dia seguinte. Quem sabe se
o Cony não seria, como o Hélio Pellegrino, um ex-restritivo? Foi nessa
esperança que o interroguei.
E, então, para o meu horror, ele deixou de lado o Coelho Neto e pôs-se
a falar no Conselheiro Acácio. O amigo negava até o célebre “viver é muito
perigoso”. Gaguejei: — “Escuta. Mas Conselheiro Acácio?”. Comecei a
repassar os tipos de Eça. Via o Pacheco falando: — “Enquanto Vossa
Excelência faz berreiro, eu, aqui, no meu canto, faço luz”. Com uma certeza
jucunda, o Cony insistia: — “Aquele ‘o sujeito morre para provar que viveu’
é Acácio. Tem santa paciência. Mas é Acácio”. No meu escândalo, balbuciei:
— “E o ‘A terceira margem’ também é Acácio?”.
O outro fez a concessão: — “‘Terceira margem’ é bom!”. Ainda insisti:
— “E o resto? Que diabo! A linguagem!”. Cony retruca: — “A linguagem
quem faz é o povo”. Primeiro, foi uma revisão crítica de calçada. Por fim,
talvez por cansaço físico, o Cony admitiu que Guimarães Rosa era um
grande escritor, mas com algum Acácio. Entramos no Garoto do Papai.
Estava, lá, o Reynaldo Jardim. Viro-me e faço-lhe a pergunta, à queimaroupa: — “O que é que você acha do Guimarães Rosa?”.
A resposta, fulminante, veio num berro: — “Um bolha!”. Desta feita, a
gíria tornava a desfeita maior. Exaltei-me também. Mas, quando falei da
linguagem, do idioma fundado, o Jardim dava pulos de indignação: — “Um
falsário! Um falsário!”. Por um momento, eu não sabia mais o que dizer, o
que pensar. O Reynaldo repetia, na fúria polêmica: “Falsário da linguagem”.
Comecei a beber o meu copo de leite (a úlcera tinha contrações de víbora
moribunda). E, súbito, fui varado por uma dessas certezas inapeláveis,
fatais: — Guimarães Rosa era o único gênio de nossa literatura.
[7/12/1967]
  

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