21/12/2016

Morte acidental

       
  Enquanto ele falava, eu arrumava a churrasqueira até que todos viessem. Era uma típica festa de firma, onde as pessoas vão para encher a cara e esquecer os problemas. Comer alguma coisa e ir embora. O almoço estava marcado para uma hora da tarde, eu cheguei mais cedo para ajudar nos preparativos, porque era minha tarefa já que era o mais novo no trabalho. Ele já tinha tomado alguns copos de whisky, sua esposa estava dentro da casa preparando os outros itens da festa. Já bêbado, ele entrou na piscina, aí começou a pedir para eu contar quanto tempo ele ficava sem respirar debaixo d’agua. 30 segundos, 25 segundos, 10 segundos. 
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- Você é muito ruim nisso. Disse eu. 

Ele então me desafiou, pegou um relógio desses com cronômetro e começou a contar. Meu melhor tempo foi um minuto e quinze segundos. Ele disse que conseguia isso, mas que eu teria que baixar a cabeça dele, para que não voltasse antes do tempo. Ele era alto, branco, magro, chamavam-no de boneco de Olinda, quando não estava por perto é claro. Fiquei com o cronômetro na mão, apertei o botão e empurrei a cabeça dele até ficar completamente submerso. 30 segundos, 45 segundos, 1 min e meio. Como ele não me deu nenhum sinal, continuei a contagem e a manter sua cabeça debaixo d’água. Não sei como ou porque, me distraí, pensei em alguma outra coisa, agora não vou lembrar. Quando puxei a cabeça dele vi que não tinha resistência. Ele já não estava mais vivo, tinha morrido ali na piscina, da forma mais estúpida possível. Quando parei, o relógio marcava cinco minutos. Cinco minutos. Cinco minutos. Disseram que a água tinha entrado nos pulmões dele. É obvio que não disse que estava segurando sua cabeça. Apenas disse que estávamos brincando e como ele não subiu de volta, resolvi puxar ele, mas já estava morto.



este conto faz parte de uma série, que será postada em breve
possivelmente em formato e-book gratuitamente. 

28/11/2016

Aquilo que não fiz

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Aí me vêm á cabeça, milhares de arrependimentos, de escolhas mal feitas, lutas perdidas, batalhas não enfrentadas. A culpa pelos erros cometidos é angustiante, mas pior é a sensação de não ter vivido. Talvez algum religioso, possa dizer que o “céu” deva ser construído aqui na Terra e que as “escadarias para o paraíso” são feitas diariamente.  Não lhes tiro sua razão, e ainda lhes dou a minha. Afigura-se, infelizmente o uso da palavra me é um cacoete invencível, então irei utilizar esta mesmo, e que o leitor não se aporrinhe pela frase desnecessária que acabou de ler. Afigura-se, que arrepender-se de algo que fizemos é um traço comum a todos, por mais celibatários que possamos ser, e aqui me refiro ao sentido de regrar-se não apenas de modo sexual. Por mais íntegros e retos que consigamos ser, sempre vai haver aquele grão de culpa ou remorso por algo que você fez.
tumulos cronicas da cidade
Procura em tua cachola desmemoriado leitor, algum arrependimento que cometeste algum pecado ou erro que, se tivesse a oportunidade não teria feito daquela forma. Alguma coisa deve ter lhe passado na cabeça, pois bem. Essas coisas, por mais terríveis que possam ter sido, por mais deploráveis moralmente, são parte daquilo que você é ou foi ou estava predestinado a ser. Se o ato que você praticou, o fez por livre e espontânea vontade, ainda que tenha te dado consequências ruins ou inesperadas (que às vezes podem ser boas), a ação por ti praticada é tua, é algo da tua vivência, algo que você deverá prestar contas, caso o bendito juízo final chegue. Aliás, o que estão fazendo nossos administradores celestiais que não mandam logo o apocalipse começar? É bom, tem quem diga que já começou e nós estamos tão alienados que não vemos, mas deixemos as teorias de lado e vamos a conclusão desse imbróglio narrativo, que se já não enfadei o leitor, vai achar no fim o mesmo que achou no começo.
Cronicas Da cidade
 Alonguei-me no texto para dar prova do que escrevi. Melhor arrepender-se do feito (mal feito) do que do não feito. Melhor será meu pobre e desenganado amigo, prestar contas dos teus atos inglórios, que das tuas faltas sábias. Melhor pecar pelo excesso que pela omissão. Posso passar o dia a citar provérbios populares que asseguram o que estou a dizer. Mas que sabem os ditos populares? Nada, mas novamente, há um que diz que o sábio aprende pelo erro dos outros, o médio pelos próprios erros e o burro, ainda que erre, permanece sem aprender nada. Creio que não existam sábios nesse mundo. Ainda que a frase venha a calhar e faça todo o sentido, a sensação que a experiência traz é única e extasiante. Dar de cara com o muro apenas para poder se curar do baque depois. Sentir a inefável dor de um amor não correspondido, sabendo assim como é não corresponder ao amor de outra pessoa.
cronicas-da-cidade-epitafio-tumulo
Creiam amigas, amigos, e inimigos de ambos os sexos. O ser humano é um ser de experiências. Nada que você lê, ouve ou presencia é tão poderoso quanto a própria experiência pessoal. Os sentidos, a bagagem do know-how, a perícia, o treino, a prática, o conhecimento. Ensaio, tentativa e erro, a prova o teste, a tese, o saber, o traquejo ou a tarimba, que segundo mestre Aurélio significa “preparação ou conhecimento decorrentes de larga experiência em alguma área ou função”.  Daí a expressão “já estou tarimbado”. Mas que dizia? Não te lembras? Deixaste o texto para ler a mensagem do seu grupo no whats? Pacato e desatencioso leitor, dizia eu: que terminaria o texto com o mesmo que o senhor viu no começo, neste caso a letra A. Mas vou ignorar a regra gramatical e não colocar o ponto, porque iniciei sem ponto e assim termino. A

Epitáfio da crônica Aquilo que não Fiz
Epitáfio Cronicas da Cidade

05/01/2016

Os Radares Imaginários

 Começo aqui a primeira crônica das Aventuras de Topogigo na cidade de Thor. Cidadezinha do interior do Brasil, com grande movimentação turística e trajeto de grandes exportadores, faz fronteira com três estados de duas regiões de nosso pacato país.

  Topogigo e seu amigo Chaguinha vivem as mais incríveis aventuras e utilizam suas habilidades para resolver vários casos.(guardarei essa frase pra quando sair nosso filme na Sessão da Tarde ;)

 Hoje, relato aqui o dia em que eu (Topogigo) estive conversando com Amadeus Milhomem, prefeito da Cidade de Thor.

Era o começo do ano de 19-- na Cidade de Thor. A cidade se preparava para o carnaval fora de época, que inclusive ocorria antes e depois do Carnaval em si, eta povo que gosta de carnaval, dirá um gringo desavisado ou algum hater de plantão. Não que eu aprecie tanto assim o carnaval, mas temos que entender que o carnaval, principalmente em cidades pequenas, movimenta a economia. Ocorre porém (há sempre um porém) que com a movimentação de pessoas também aumentam os acidentes de trânsito.

 Como já dito no primeiro parágrafo, e estou repetindo nesse porque estou com deficit de atenção, nossa pacata cidade faz fronteira com três estados, assim sendo, a movimentação de caminhões de carga é muito intensa, mesmo com o pessoal preparando-se para o Carnathor (o nome do evento!) as cargas têm que ser entregues.

cronicas-da-cidade-@cronicasdacity-radar-radares-cidadedethor-carnaval-radio Depois de alguns anos à frente da prefeitura, Amadeus percebeu que o número de acidentes em "sua" cidade crescia exponencialmente e que, como prefeito, deveria tomar alguma medida para diminuí-los e assim fez nosso amigo. Uma semana antes do  Carnathor ele anuncia a instalação de Radares Eletrônicos, popularmente chamados de pardais. Um detalhe, os pardais foram instalados em pontos não informados, ou seja, o camarada não vai saber onde estão os danados.

 Muitos moradores ficaram indignados e alguns chegaram ao cúmulo de dizer que a cidade iria parar, vejam só! A notícia da instalação dos pardais rodou a cidade e em pouco tempo todos os moradores já sabiam. Acontece que, segundo Amadeus, os acidentes não diminuíram, incrivelmente, ocorreu o inverso, eles aumentaram. É que alguns "espertalhões" haviam dito que os pardais só pegam um veículo por vez e só do lado esquerdo, assim alguns motoristas faziam as maiores loucuras para tentarem ir para pista da esquerda e acabavam provocando um acidente. Como não haviam notícias de ninguém recebendo multa por velocidade, os thorinenses (quem é natural da cidade de Thor) acabaram por não dar mais "moral" para os pardais. Lembro aqui que na época em questão, 19-- o sistema eletrônico de monitoramento era uma novidade. Não cito a data exata para que tu não se metas a procurar pelo nosso prefeito e amolar-lhe a vida.

 Então, em um belo dia ensolarado (ops, trecho errado)... Chaguinha, que fazia bico de locutor/radialista na Thor FM (também não adianta pesquisar essa rádio) recebe uma entrevistada em seu programa. Essa senhora alega que recebeu uma multa extratosférica (a mesma dificuldade que você teve pra falar eu tive pra escrever) porque havia dirigido 10 km acima do permitido em uma avenida.
 - Conte para a rapaize em esperta da cidade de Thor, dona Paula, que que aconteceu? -perguntou Chaguinha.
 - Ora essa, me multaram em quase trezentos contos só porque fui a setenta numa pista de sessenta. Achei totalmente desnecessária essa multa, afinal não machuquei ninguém e jamais tive problemas no trânsito.
 - Pra tudo há uma primeira vez dona Paula. (risos forçados do locutor)... mas conte aí pra galera, a senhora não foi pela pista da esquerda? Porque, segundo contam se o motorista pegar a pista da direita o Pardal não pega.
 - Tudo lorota desses feudaputa (sic)! eu andei na pista da esquerda e tinha uns dois carros junto comigo e ainda me pegaram.
 - Dois carros? Mas a senhora estava era fazendo um "pega" então.
 - Olhe, me respeite seu Chaguinha, que eu não sou dessas.

 Chaguinha ainda enrolou a senhora no estúdio por meia hora, falando sobre outras coisas. Quando os thorinenses ouviram a história de Paula ficaram apavorados.
 - Oxe. Trezentos pila, marmoço (sic), eu ando a pé mas não pago uma multa dessas - disse um.
 - Diabo de pardal dos infernos, agora vamos ter que dirigir como crianças - afirmou outro (não sei como criança dirige mas...).

 Depois dessa, todos os motoristas começaram a andar na linha e mais tarde os acidentes haviam diminuído bastante. Muito tempo depois de Amadeus terminar seu mandato, Chaguinha me contou que achava Amadeus um gênio e lhe perguntei o porquê.
 - Rapaz, naquela época nem cidade grande tinha os tais pardais, como você acha que Thor conseguiu pagar por aquilo?- disse-lhe que não tinha idéia.
 - Muito simples, não pagou. Na verdade, não tinha pardal algum na cidade. O prefeito apenas jogou a notícia no ar para que as pessoas dirigissem devagar e assim diminuir os acidentes.
 - Mas e a tal da Paula? - questionei-o.
 - Ora, essa foi paga para dizer aquilo tudo, e cá pra nós, eu também levei o meu.

01/01/2016

Desejos de Ano Novo

 Começo de ano é sempre igual, toda a rapaziada (peço desculpas pela informalidade, mas é ano novo) reunida comendo um peruzinho ou uma leitoinha (sem querer desrespeitar sua sogra). Coisa que me impressiona é que sempre temos mesa farta, boas risadas e conversas, por que não conseguimos isso em dias "normais"? Digo, não que as coisas fiquem tão apertadas que não possamos fazer um pequeno banquete ou coisa do tipo, mas não é a mesma coisa que quando reunimos nossa família e ficamos perto de nossos entes queridos e isso só ocorre em ocasiões festivas ou fúnebres.

 De uma forma ou de outra, acabamos por nos separarmos de quem amamos, saímos em busca de alguma coisa: instrução, dinheiro, paixão. Sempre nos perguntando: no final das contas, será que valeu a pena? Digo-lhes que não! Você deve buscar novos horizontes, é claro, mas não é preciso ir tão longe, nem permanecer lá tanto tempo. Afinal nossa família é nossa força, você pode ter de tudo, conseguir muito dinheiro, ter saúde e belas companhias, mas de que vale isso tudo?
 Algumas pessoas reclamam dessa época do ano, pelas piadas do tipo "é pavê ou pá come?", mas na verdade, se bem repararmos, esses momentos em família é oque justificam nosso trabalho duro durantes todos os meses. Poder chegar em casa, ver a família reunida, brincar e se divertir com quem amamos, isso é mais que qualquer outra coisa que possamos ter na vida.

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 Percebo desde algum tempo, que a maioria dos conglomerados, companhias, empresas ou corporações são feitas por uma família. Os grandes homens de nosso tempo tiveram sua descendência honrada e perpetua-se até hoje. Hoje as pessoas se individualizam, querem fazer grana para si e para o próprio conforto, no máximo pensam na sua prole direta, não nos seus irmãos, primos, tios. Pois bem, é aí que está o segredo das grandes famílias, seus progenitores não se preocuparam somente com sua descendência direta, mas souberam fazer prosperar todos aqueles que estão à sua volta.

 O importante disso tudo é sabermos que a nossa família é o bem mais precioso que podemos ter, e não importa os defeitos que ela tenha, todas as famílias tem seus altos e baixos. Não importa se você não possui uma família genética ou se seus pais não tem tempo ou não querem ter você por perto. O importante é que em algum momento de sua vida você se dará conta que sua família é um dos bens mais preciosos que você pode ter.

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Breve poema de Ano Novo:


 Uva-passa ano passa
 Tudo passa nos também passamos
 Roupas passadas, carnes assadas
 O que se passa?
 É um novo ano que chega

 Desejo que você realize seus sonhos
 Desejo que você formalize suas decisões
 Desejo que você deseje para mim o que para você eu deseje
 Desejo que você possa ver além do túnel
 Desejo que você possa sentir que possa sonhar que possa sorrir
 Desejo que essas palavras façam sentido para você quanto fazem para mim
 Desejo que para as coisas boas você sempre diga sim.

Desejo-te um Feliz Ano Novo
Mas que seja um ano realmente novo
Com novas amizades, oportunidades, habilidades,
Desejo-te meu caro, minha cara, novas responsabilidades.
Novas escolhas, novos começos
Desejo-te tudo de bom e que todos os seus desejos se realizem esse ano.

21/12/2015

O cão Pidão e o mendigo Fedorento

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Gosto de observar o que acontece ao meu redor e vez ou outra vejo coisas muito impressionantes, situações que aqueles que estão a  minha volta não conseguem perceber. Pois bem, outro dia peguei um ônibus (é meu meio de transporte, fazer oquê?), sentei no banco próximo à janela e pus meus fones de ouvido.

    Algumas ruas depois de minha casa vejo um homem, com a barba até o pescoço e um cachorro seguindo-o de um lado para o outro, percebo que, contrariando o senso comum, o cão é quem procura comida e entrega ao homem. Animais alimentando humanos, essa é a nossa era, o que dizer? Depois de alguns dias passando sempre no mesmo local á noite, entendi o esquema dos dois (do cão e do homem).  Aparentemente há um bar que vende espetinhos nos arredores e cabe ao cão abanar o rabo e pedir comida aos fregueses do estabelecimento. Depois que consegue  o espetinho o cão corre para o dono e este tira uma parte e lhe dá outra. Certo dia, resolvi falar com o camarada pra saber como ele treinou o cão, puxar um papo. Ele me contou que começou pedindo ele próprio aos clientes, mas que estes não lhe davam muita coisa e vez ou outra lhe chamavam de vagabundo e fedorento. Já a essa época ele tinha o Pidão (nome do cachorro) e repartia o que conseguia com ele. Depois de algum tempo ele percebeu que seria mais fácil fazer o cão pedir comida e depois comer o que ele conseguia.
 Um amigo meu, Chaguinha, ouviu essa minha história e decidiu também fazer uma visita aos dois. De posse de um cogumelo "sagrado" da Terra de Mario Bros ele disse que conversou com Pidão. Se ele realmente conversou ou teve uma alucinação não cabe a mim prospectar. O que me disse que disse que disse que disseste que disse que disse... desculpe tenho visto muito o seriado Chaves ultimamente. Enfim, que dizia? ... Ah sim, Chaguinha me disse que o Pidão lhe havia dito que a vida com Fedorento (nome que Pidão dera a ele) era boa, Pidão arranjava a comida e tinha que dividi-la, mas em troca Fedorento arrumava abrigo, o protegia dos outros cães de rua e lhe dava afeto e atenção.

  Pidão conta, segundo Chaguinha (tá parecendo jornal de repartição pública, "segundo fulano tal", mas aqui é essencial ressaltar que as informações possuem uma fonte fidedigna e confiável), ele conta que em um dia estava chovendo muito e tinha sido arrastado para dentro de um bueiro, e que só sobreviveu por causa do homem. Daquele dia em diante ele nunca mais abandonou o homem. 

19/11/2015

A Coxinha Estragada

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 Acordei tarde hoje e desobedecendo meu costume não fiz almoço, então fui á lanchonete da quadra comer um salgado. Não que eu seja do tipo que se satisfaz fácil (as "primas" da zona que o digam), mas ordinariamente não como muito no almoço, prefiro comer mais na janta, assim posso dormir de "bucho cheio" como diria seu "Maneu".

 Quando cheguei havia apenas uma coxinha na estufa, e estava exuberantemente convidativa, talvez pela minha fome, ou por ser a última, o aspecto geral me agradou. Também me agradou a moça que estava atendendo, bastante simpática, bonita a bicha ó, dessas de tirar o fôlego. Aparentemente estava em treinamento, porque tinha uma senhora de mal-humor e um cigarro, inapropriadamente perto da comida, na boca, que lhe dizia tudo o que ela tinha que fazer.

 Peguei a coxinha, paguei e fui andando e comendo, pouco depois da segunda mordida, quando chegamos na parte do recheio, para minha decepção o frango estava azedo e quase vomito ali mesmo. Pensei logo em ir lá reclamar mas aí achei melhor não, talvez isso custasse o emprego da moça bonita e creiam-me, nada me comove mais que uma moça bonita, talvez duas. Enfim, próximo parágrafo.

Se você gosta de histórias de terror, veja nossa outra crônica Morte Acidental

 Andar e comer é coisa que nos remete a reflexões e pensamentos que sentados não teríamos, caro leito, se tiveres a oportunidade faça isso e depois me conte. Ao chegar no meio da rua pensei em jogar fora logo a coxinha e comprar outra coisa, ocorre que acabou me batendo um pensamento que muitas das minhas roupas velhas serviam pra outras pessoas como novas. Talvez o que eu não conseguia comer poderia ser a única refeição de algum mendigo, que provavelmente lha pegaria do lixo.

 Vi um mendigo na minha frente, não estava pedindo dinheiro, apenas comida. Achei interessante a coincidência e já ia lhe entregar a coxinha, quando me bateu outro pensamento: o de que ele poderia adoecer e morrer por causa de uma comida que eu lhe dei. Se ele pega do lixo e come e depois morre é problema dele, mas se morre por causa do que eu lhe dei, sou eu responsável pela sua morte. E se alguém na rua me visse dando a coxinha e logo depois o mendigo morre? Iam pensar que dei a coxinha com veneno pra ele morrer. No final das contas, acabei dando-lhe uma nota de dez e mandei que saísse de perto de mim porque estava fedendo.

 Novamente andando com a coxinha na mão e pensamentos á mil, vi um gato magricelo na rua. Estava desnutrido o coitado e que mal poderia fazer uma porcaria a mais que ele comesse? Além do que ninguém me acusaria de matar um gato de rua, ou ao menos não seria preso por isso. Decidi que daria pro gato o salgado. Novamente, infelizmente, refleti mais um pouco e vi que nem mesmo os animais de rua deveriam comer coisas estragadas e que, se aquela seria sua primeira refeição em dias, achei que o certo seria que fosse uma boa refeição. Entrei num comércio perto da rua comprei-lhe alguns petiscos próprios para gatos e um copo de leite.

 Continuei minha jornada, eu, meus pensamentos, e a coxinha estragada. Em alguns momentos pensei até que ela já estava falando comigo, tentando me explicar algo que eu não havia compreendido ainda. Não sou de dar muito papo para salgados, sobretudo os estragados, mas que mal faria? Decidi olhar mais atentamente para ela e só então percebi, que havia gueiroba na danada, daí o gosto azedo. Tirei o palmito amargo da coxinha e comia-a com bastante satisfação.

Ouça a crônica. 

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O dia em que meus fones de ouvido salvaram minha vida


  Essa é uma dessas típicas historietas que nos acontecem apenas uma vez na vida e que, a partir daquele momento, teremos uma visão diferente das coisas. Outros dirão que esta é apenas mais uma história para contar nas festas de ano ou no Natal entre os familiares, do tipo “é pra ver ou pra comer” e essas outras insanidades, que só começam a ter graça depois da décima taça de champanhe.
 Mas que dizia? O sim, a história, vamos a ela. Estava no transporte coletivo, com meus fones de ouvido, coisa que sempre uso, na verdade eu nem ouço coisa nenhuma é apenas pra não ter que, eventualmente, conversar com algum estranho (ou conhecido, não sou muito de conversas públicas). No dia em questão, com os fones nas orelhas, como de costume, sentou-se um senhor, bastante consternado e tremendo um pouco, aparentemente  estava sob efeito de alguma droga.
fones de ouvido salvadores
   Pois bem, esse senhor, sentou-se no banco ao meu lado, percebia que ele queria conversar (se é que isso era possível no estado em que ele estava) porque de vez em quando ele olhava para mim, como que com algum segredo que só contaria para mim  e não queria que ninguém mais soubesse. Ele olhou de novo, de novo e de novo, e percebendo que eu não tiraria meus fones e aparentemente não estava lhe dando a mínima, levantou-se e foi se sentar ao lada de uma senhorinha, dessas religiosas, de terço e tudo sabe?

E aí, está gostando de nossa crônica? 
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Veja também nossa última crônica: MORTE ACIDENTAL

  Em alguns minutos nosso amigo começou. Abriu a boca e falou uma quantidade enorme teorias sobre o que era cada coisa e porque acontecia isso ou aquilo. Uma delas dizia respeito ao porque dos carros terem o teto do mesmo material que o resto, o que, segundo ele, era uma medida do Governo Imperial Secreto para inibir o ataque de extraterrestres. Esse era um dos motivos para os governos não investirem em transportes alternativos como bicicletas ou outros tipos de carros. Para ele apenas os conversíveis não tinham caído na armadilha do Governo Imperial. Bem, as teorias desse doido (embora, estranhamente tudo que ele disse possuia alguma lógica) dariam outra crônica. Talvez conte essas teorias ao meu amigo Chaguinha e ele, sob efeito de algum chá possa escrever-lhes.
  Cabe terminar a crônica, pois o seu tempo não é capim e também tenho mais o que fazer. Então como dizia, esse senhor começou sua narrativa de tramoias e armações que durou algo em torno de meia-hora, eu já estava para descer em meu ponto, felizmente pude ver o desenrolar da história. No meio dos desvaneios do doido a senhorinha começou a falar sobre as bençãos do Senhor para a vida dele e que Deus poderia restaurá-la. Em meio ao falatório, de ambas as  partes, de repente o louco pega a bolsa da senhora e dá-lhe um tiro no meio da testa, dizendo para mulher ir conversar com Deus pessoalmente, pela expressão dele parecia que ele estava fazendo-lhe um favor . Daquele dia em diante sempre ando com um fone a mais na bolsa.


Morte acidental

          Enquanto ele falava, eu arrumava a churrasqueira até que todos viessem. Era uma típica festa de firma, onde as pessoas vão par...