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Morte acidental

Enquanto ele falava, eu arrumava a churrasqueira até que todos viessem. Era uma típica festa de firma, onde as pessoas vão para encher a cara e esquecer os problemas. Comer alguma coisa e ir embora. O almoço estava marcado para uma hora da tarde, eu cheguei mais cedo para ajudar nos preparativos, porque era minha tarefa já que era o mais novo no trabalho. Ele já tinha tomado alguns copos de whisky, sua esposa estava dentro da casa preparando os outros itens da festa. Já bêbado, ele entrou na piscina, aí começou a pedir para eu contar quanto tempo ele ficava sem respirar debaixo d’agua. 30 segundos, 25 segundos, 10 segundos. 
- Você é muito ruim nisso. Disse eu. 
Ele então me desafiou, pegou um relógio desses com cronômetro e começou a contar. Meu melhor tempo foi um minuto e quinze segundos. Ele disse que conseguia isso, mas que eu teria que baixar a cabeça dele, para que não voltasse antes do tempo. Ele era alto, branco, magro, chamavam-no de boneco de Olinda, quando não estava por …
Postagens recentes

A Desejada Das Gentes, Machado de Assis

— Ah! conselheiro, aí começa a falar em verso.
— Todos os homens devem ter uma lira no coração, — ou não sejam homens. Que
a lira ressoe a toda a hora, nem por qualquer motivo, não o digo eu, mas de longe
em longe, e por algumas reminiscências particulares... Sabe por que é que lhe
pareço poeta, apesar das Ordenações do Reino e dos cabelos grisalhos? é porque
vamos por esta Glória adiante, costeando aqui a Secretaria de Estrangeiros... Lá
está o outeiro célebre... Adiante há uma casa...
— Vamos andando.
— Vamos... Divina Quintília! Todas essas caras que aí passam são outras, mas
falam-me daquele tempo, como se fossem as mesmas de outrora; é a lira que
ressoa, e a imaginação faz o resto. Divina Quintília!
— Chamava-se Quintília? Conheci de vista, quando andava na Escola de Medicina,
uma linda moça com esse nome. Diziam que era a mais bela da cidade.
— Há de ser a mesma, porque tinha essa fama. Magra e alta?
— Isso. Que fim levou?
— Morreu em 1859. Vinte de abril. Nunca me há de esquecer esse dia. Vou

O Grande Homem, Nelson Rodrigues

Sou um obsessivo e volto a falar de Guimarães Rosa. O que me feriu,
na morte do ficcionista, foi a aridez do seu velório. Sei, evidente, que a
visitação não parou. Como se saía e como se entrava! E, coisa curiosa: não
senti, nas caras presentes, nenhum sentimento maior. Fora a família, só vi
duas pessoas marcadas pelo espanto da morte: — Franklin de Oliveira e
Gustavo Corção.
(Parece uma perversidade pôr, lado a lado, e chorando o mesmo
morto, duas figuras tão dessemelhantes.) Passei na Academia uns dez,
quinze minutos; e saí de lá certo de que o grande homem é o menos amado
dos seres. O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já
o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato
de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não
entranhas vivas.
Vou concluir: — o velório de Guimarães Rosa teria de ser fatalmente
frio por se tratar de um grande morto. Fosse ele um Lemos qualquer, e teria,
não uma apoteose crítica, mas lágrimas inumeráve…

Um Homem Célebre, Machado de Assis

— Ah! o senhor é que é o Pestana? perguntou Sinhazinha Mota, fazendo um largo
gesto admirativo. E logo depois, corrigindo a familiaridade: — Desculpe meu
modo, mas... é mesmo o senhor?
       Vexado, aborrecido, Pestana respondeu que sim, que era ele. Vinha do piano,
enxugando a testa com o lenço, e ia a chegar à janela, quando a moça o fez
parar. Não era baile; apenas um sarau íntimo, pouca gente, vinte pessoas ao
todo, que tinham ido jantar com a viúva Camargo, Rua do Areal, naquele dia dos
anos dela, cinco de novembro de 1875... Boa e patusca viúva! Amava o riso e a
folga, apesar dos sessenta anos em que entrava, e foi a última vez que folgou e
riu, pois faleceu nos primeiros dias de 1876. Boa e patusca viúva! Com que alma e
diligência arranjou ali umas danças, logo depois do jantar, pedindo ao Pestana que
tocasse uma quadrilha! Nem foi preciso acabar o pedido; Pestana curvou-se
gentilmente, e correu ao piano. Finda a quadrilha, mal teriam descansado uns dez
minutos, a viúva correu novamente ao…

Nenhum Vento pode Apagar, Nelson Rodrigues

NENHUM VENTO PODE APAGARQuando ando de táxi, sinto uma euforia absurda e terrível. Isso vem
de longe, vem de minha infância profunda. Bem me lembro dos meus seis,
sete anos. Meu pai deu um passeio de táxi, com toda a família; e eu, na
frente, ao lado do chauffeur, teci toda uma fantasia de onipotência. Repito: o
táxi ainda me compensa de velhas e santas humilhações.
O ônibus, não. Quando ando de ônibus (e, às vezes, só tenho o
dinheiro contadinho do ônibus), viajo como um ofendido e sou, realmente,
um desfeiteado. É uma promiscuidade tão abjeta, que eu diria: o ônibus
apinhado é o túmulo do pudor. “Exagero”, dirão. Paciência. Mas quando eu
passava fome, queria ser rico, e não para ter palácios ou andar de Mercedes.
A minha obsessão nunca foi a Mercedes, nunca foi o palácio. Simplesmente,
queria andar de táxi e nada mais.
Fiz a introdução para referir certa viagem de ônibus. Precisava ir à rua
Mariz e Barros. Como tinha pouco dinheiro no bolso, apanhei um ônibus e lá
vim eu, em pé, pendurado numa ar…

Uns Braços, Machado de Assis

Inácio estremeceu, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe
apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro,
cabeça de vento, estúpido, maluco.
— Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para
que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau;
sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!
— Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se para D.
Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, há anos. Confunde-me os
papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de ir a outro, troca os
advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e contínuo. De manhã é o que se vê;
primeiro que acorde é preciso quebrar-lhe os ossos... Deixe; amanhã hei de
acordá-lo a pau de vassoura!
   D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges expetorou ainda
alguns impropérios, e ficou em paz com Deus e os homens.
    Não digo que ficou em paz com os meninos, por…

Reze Menos Por Mim, Nelson Rodrigues

Vou falar de Alceu Amoroso Lima, mas o assunto é ainda Guimarães
Rosa, Eis o que eu queria dizer: — para mim, o amigo é o grande
acontecimento. (Bem me lembro daquela segunda-feira. Entro na redação e
vejo o Franklin de Oliveira. Vagava por entre mesas e cadeiras, e tão órfão
de Guimarães Rosa.) Há cinco ou seis anos, resolvi ser amigo do dr. Alceu.
Era dezembro. No dia 24, ligo para ele. Imaginei que, na espera de Natal, um
católico puro há de estar aberto para o mundo.
Comecei assim: — “Dr. Alceu, aqui fala o Nelson Rodrigues. Como
vai? Vai bem?”. Não havia nenhuma convivência entre nós. Mas ele
respondeu, vivamente: — “Ah, Nelson, tenho pensado tanto em você! Agora
mesmo, estava rezando por você”. Pensando em mim, rezando por mim. Vou
adiante: — “Dr. Alceu, estou-lhe telefonando para desejar todas as
felicidades, a si e aos seus” etc. etc. etc. Por um momento, tive vontade de
contar-lhe o seguinte: — “Dr. Alceu, quando eu era criança, o Tico-Tico
publicava um presépio para armar. O senhor sabe q…

Pirâmides e Biscoitos, Nelson Rodrigues

Antes de falar de João Guimarães Rosa, quero dizer ainda duas
palavras sobre o velho Rio. (Em nosso idioma, duas palavras são duzentas.)
O brasileiro cospe menos, diria eu. Quanto às nossas mulheres, nem cospem.
Mas, no tempo do fraque e do espartilho, a cidade expectorava muito mais.
Lembro-me de antigas bronquites, de tosses longínquas, asmas nostálgicas.
Nas salas da Belle Époque era obrigatória esta figura ornamental: — a
escarradeira de louça, com flores desenhadas em relevo (e pétalas coloridas).
O curioso é que a ficção brasileira da época não tenha notado o
detalhe. Não há, em todo o Machado, uma vaga e escassa referência, e
repito: — a escarradeira não existia para o autor, para os personagens, nem
para o décor dos ambientes. Mas, em 1915, quando assassinaram Pinheiro
Machado, ou em 1916, quando vim para o Rio, as famílias tinham pigarros,
tosses, que as novas gerações não conhecem. Dos meus amigos atuais, o
único que costuma tossir é o João Saldanha.
Bem me lembro da primeira vez em que f…