28/01/2018

Entre Santos, Machado de Assis


  Quando eu era capelão de S. Francisco de Paula (contava um padre velho)
aconteceu-me uma aventura extraordinária.
    Morava ao pé da igreja, e recolhi-me tarde, uma noite. Nunca me recolhi tarde
que não fosse ver primeiro se as portas do templo estavam bem fechadas.
 Achei as bem fechadas, mas lobriguei luz por baixo delas. Corri assustado à procura da
ronda; não a achei, tornei atrás e fiquei no adro, sem saber que fizesse. A luz,
sem ser muito intensa, era-o demais para ladrões; além disso notei que era fixa e
igual, não andava de um lado para outro, como seria a das velas ou lanternas de
pessoas que estivessem roubando. O mistério arrastou-me; fui a casa buscar as
chaves da sacristia (o sacristão tinha ido passar a noite em Niterói), benzi-me
primeiro, abri a porta e entrei.

  O corredor estava escuro. Levava comigo uma lanterna e caminhava devagarinho,

calando o mais que podia o rumor dos sapatos. A primeira e a segunda porta que
comunicam com a igreja estavam fechadas; mas via-se a mesma luz e,
porventura, mais intensa que do lado da rua. Fui andando, até que dei com a
terceira porta aberta. Pus a um canto a lanterna, com o meu lenço por cima, para
que me não vissem de dentro, e aproximei-me a espiar o que era.
Detive-me logo. Com efeito, só então adverti que viera inteiramente desarmado e
que ia correr grande risco aparecendo na igreja sem mais defesa que as duas
mãos. Correram ainda alguns minutos. Na igreja a luz era a mesma, igual e geral,
e de uma cor de leite que não tinha a luz das velas. Ouvi também vozes, que
ainda mais me atrapalharam, não cochichadas nem confusas, mas regulares,
claras e tranqüilas, à maneira de conversação. Não pude entender logo o que
diziam. No meio disto, assaltou-me uma idéia que me fez recuar. Como naquele
tempo os cadáveres eram sepultados nas igrejas, imaginei que a conversação
podia ser de defuntos. Recuei espavorido, e só passado algum tempo, é que pude
reagir e chegar outra vez à porta, dizendo a mim mesmo que semelhante idéia era
um disparate. A realidade ia dar-me coisa mais assombrosa que um diálogo de
mortos. Encomendei-me a Deus, benzi-me outra vez e fui andando,
sorrateiramente, encostadinho à parede, até entrar. Vi então uma coisa
extraordinária.

  Dois dos três santos do outro lado, S. José e S. Miguel (à direita de quem entra na
igreja pela porta da frente), tinham descido dos nichos e estavam sentados nos
seus altares. As dimensões não eram as das próprias imagens, mas de homens.
Falavam para o lado de cá, onde estão os altares de S. João Batista e S. Francisco
de Sales. Não posso descrever o que senti. Durante algum tempo, que não chego
a calcular, fiquei sem ir para diante nem para trás, arrepiado e trêmulo. Com
certeza, andei beirando o abismo da loucura, e não caí nele por misericórdia
divina. Que perdi a consciência de mim mesmo e de toda outra realidade que não
fosse aquela, tão nova e tão única, posso afirmá-lo; só assim se explica a
temeridade com que, dali a algum tempo, entrei mais pela igreja, a fim de olhar
também para o lado oposto. Vi aí a mesma coisa: S. Francisco de Sales e S. João,
descidos dos nichos, sentados nos altares e falando com os outros santos.

    Tinha sido tal a minha estupefação que eles continuaram a falar, creio eu, sem
que eu sequer ouvisse o rumor das vozes. Pouco a pouco, adquiri a percepção
delas e pude compreender que não tinham interrompido a conversação; distinguias, ouvi claramente as palavras, mas não pude colher desde logo o sentido. Um
dos santos, falando para o lado do altar-mor, fez-me voltar a cabeça, e vi então
que S. Francisco de Paula, o orago da igreja, fizera a mesma coisa que os outros e
falava para eles, como eles falavam entre si. As vozes não subiam do tom médio
e, contudo, ouviam-se bem, como se as ondas sonoras tivessem recebido um
poder maior de transmissão. Mas, se tudo isso era espantoso, não menos o era a
luz, que não vinha de parte nenhuma, porque os lustres e castiçais estavam todos
apagados; era como um luar, que ali penetrasse, sem que os olhos pudessem ver
a lua; comparação tanto mais exata quanto que, se fosse realmente luar, teria
deixado alguns lugares escuros, como ali acontecia, e foi num desses recantos que
me refugiei.

      Já então procedia automaticamente. A vida que vivi durante esse tempo todo, não
se pareceu com a outra vida anterior e posterior. Basta considerar que, diante de
tão estranho espetáculo, fiquei absolutamente sem medo; perdi a reflexão, apenas
sabia ouvir e contemplar.
   Compreendi, no fim de alguns instantes, que eles inventariavam e comentavam as
orações e implorações daquele dia. Cada um notava alguma coisa. Todos eles,
terríveis psicólogos, tinham penetrado a alma e a vida dos fiéis, e desfibravam os
sentimentos de cada um, como os anatomistas escalpelam um cadáver. S. João
Batista e S. Francisco de Paula, duros ascetas, mostravam-se às vezes enfadados
e absolutos. Não era assim S. Francisco de Sales; esse ouvia ou contava as coisas

com a mesma indulgência que presidira ao seu famoso livro da Introdução à Vida
Devota.
   Era assim, segundo o temperamento de cada um, que eles iam narrando e
comentando. Tinham já contado casos de fé sincera e castiça, outros de
indiferença, dissimulação e versatilidade; os dois ascetas estavam a mais e mais
anojados, mas S. Francisco de Sales recordava-lhes o texto da Escritura: muitos
são os chamados e poucos os escolhidos, significando assim que nem todos os que
ali iam à igreja levavam o coração puro. S. João abanava a cabeça.

— Francisco de Sales, digo-te que vou criando um sentimento singular em santo:
começo a descrer dos homens.

— Exageras tudo, João Batista, atalhou o santo bispo, não exageremos nada. Olha
— ainda hoje aconteceu aqui uma coisa que me fez sorrir, e pode ser, entretanto,
que te indignasse. Os homens não são piores do que eram em outros séculos;
descontemos o que há neles ruim, e ficará muita coisa boa. Crê isto e hás de
sorrir ouvindo o meu caso.

— Eu?

— Tu, João Batista, e tu também, Francisco de Paula, e todos vós haveis de sorrir
comigo: e, pela minha parte, posso fazê-lo, pois já intercedi e alcancei do Senhor
aquilo mesmo que me veio pedir esta pessoa.

— Que pessoa?
— Uma pessoa mais interessante que o teu escrivão, José, e que o teu lojista,
Miguel...

— Pode ser, atalhou S. José, mas não há de ser mais interessante que a adúltera
que aqui veio hoje prostrar-se a meus pés. Vinha pedir-me que lhe limpasse o
coração da lepra da luxúria. Brigara ontem mesmo com o namorado, que a
injuriou torpemente, e passou a noite em lágrimas. De manhã, determinou
abandoná-lo e veio buscar aqui a força precisa para sair das garras do demônio.
Começou rezando bem, cordialmente; mas pouco a pouco vi que o pensamento a
ia deixando para remontar aos primeiros deleites. As palavras paralelamente, iam
ficando sem vida. Já a oração era morna, depois fria, depois inconsciente; os
lábios, afeitos à reza, iam rezando; mas a alma, que eu espiava cá de cima, essa
já não estava aqui, estava com o outro. Afinal persignou-se, levantou-se e saiu
sem pedir nada.

— Melhor é o meu caso.
— Melhor que isto? perguntou S. José curioso.

— Muito melhor, respondeu S. Francisco de Sales, e não é triste como o dessa
pobre alma ferida do mal da terra, que a graça do Senhor ainda pode salvar. E por
que não salvará também a esta outra? Lá vai o que é.

  Calaram-se todos, inclinaram-se os bustos, atentos, esperando. Aqui fiquei com
medo; lembrou-me que eles, que vêem tudo o que se passa no interior da gente,
como se fôssemos de vidro, pensamentos recônditos, intenções torcidas, ódios
secretos, bem podiam ter-me lido já algum pecado ou gérmen de pecado. Mas não
tive tempo de refletir muito; S. Francisco de Sales começou a falar.

— Tem cinqüenta anos o meu homem, disse ele, a mulher está de cama, doente
de uma erisipela na perna esquerda. Há cinco dias vive aflito porque o mal
agrava-se e a ciência não responde pela cura. Vede, porém, até onde pode ir um
preconceito público. Ninguém acredita na dor do Sales (ele tem o meu nome),

ninguém acredita que ele ame outra coisa que não seja dinheiro, e logo que houve
notícia da sua aflição desabou em todo o bairro um aguaceiro de motes e
dichotes; nem faltou quem acreditasse que ele gemia antecipadamente pelos
gastos da sepultura.

— Bem podia ser que sim, ponderou S. João.

— Mas não era. Que ele é usurário e avaro não o nego; usurário, como a vida, e
avaro, como a morte. Ninguém extraiu nunca tão implacavelmente da algibeira
dos outros o ouro, a prata, o papel e o cobre; ninguém os amuou com mais zelo e
prontidão. Moeda que lhe cai na mão dificilmente torna a sair; e tudo o que lhe
sobra das casas mora dentro de um armário de ferro, fechado a sete chaves.
Abre-o às vezes, por horas mortas, contempla o dinheiro alguns minutos, e fechao outra vez depressa; mas nessas noites não dorme, ou dorme mal. Não tem
filhos. A vida que leva é sórdida; come para não morrer, pouco e ruim. A família
compõe-se da mulher e de uma preta escrava, comprada com outra, há muitos
anos, e às escondidas, por serem de contrabando. Dizem até que nem as pagou,
porque o vendedor faleceu logo sem deixar nada escrito. A outra preta morreu há
pouco tempo; e aqui vereis se este homem tem ou não o gênio da economia;
Sales libertou o cadáver...

E o santo bispo calou-se para saborear o espanto dos outros.
— O cadáver?

— Sim, o cadáver. Fez enterrar a escrava como pessoa livre e miserável, para não
acudir às despesas da sepultura. Pouco embora, era alguma coisa. E para ele não
há pouco; com pingos d'água é que se alagam as ruas. Nenhum desejo de
representação, nenhum gosto nobiliário; tudo isso custa dinheiro, e ele diz que o
dinheiro não lhe cai do céu. Pouca sociedade, nenhuma recreação de família. Ouve
e conta anedotas da vida alheia, que é regalo gratuito.

— Compreende-se a incredulidade pública, ponderou S. Miguel.

— Não digo que não, porque o mundo não vai além da superfície das coisas. O
mundo não vê que, além de caseira eminente educada por ele, e sua confidente
de mais de vinte anos, a mulher deste Sales é amada deveras pelo marido. Não te
espantes, Miguel; naquele muro aspérrimo brotou uma flor descorada e sem
cheiro mas flor. A botânica sentimental tem dessas anomalias. Sales ama a
esposa; está abatido e desvairado com a idéia de a perder. Hoje de manhã, muito
cedo, não tendo dormido mais de duas horas entrou a cogitar no desastre
próximo. Desesperando da terra, voltou-se para Deus; pensou em nós, e
especialmente em mim que sou o santo do seu nome. Só um milagre podia salvá-
la; determinou vir aqui. Mora perto, e veio correndo. Quando entrou trazia o olhar
brilhante e esperançado; podia ser a luz da fé, mas era outra coisa muito
particular, que vou dizer. Aqui peço-vos que redobreis de atenção.
     Vi os bustos inclinarem-se ainda mais; eu próprio não pude esquivar-me ao
movimento e dei um passo para diante. A narração do santo foi tão longa e
miúda, a análise tão complicada, que não as ponho aqui integralmente, mas em
substância.

— Quando pensou em vir pedir-me que intercedesse pela vida da esposa, Sales
teve uma idéia específica de usurário, a de prometer-me uma perna de cera. Não
foi o crente, que simboliza desta maneira a lembrança do benefício; foi o usurário
que pensou em forçar a graça divina pela expectação do lucro. E não foi só a
usura que falou, mas também a avareza; porque em verdade, dispondo-se à
promessa, mostrava ele querer deveras a vida da mulher — intuição de avaro; —
despender é documentar: só se quer de coração aquilo que se paga a dinheiro,
disse-lho a consciência pela mesma boca escura. Sabeis que pensamentos tais não

se formulam como outros, nascem das entranhas do caráter e ficam na penumbra
da consciência. Mas eu li tudo nele logo que aqui entrou alvoroçado, com o olhar
fúlgido de esperança; li tudo e esperei que acabasse de benzer-se e rezar.

— Ao menos, tem alguma religião, ponderou S. José.

— Alguma tem, mas vaga e econômica. Não entrou nunca em irmandades e
ordens terceiras, porque nelas se rouba o que pertence ao Senhor; é o que ele diz
para conciliar a devoção com a algibeira. Mas não se pode ter tudo; é certo que
ele teme a Deus e crê na doutrina.

— Bem, ajoelhou-se e rezou.

— Rezou. Enquanto rezava, via eu a pobre alma, que padecia deveras, conquanto
a esperança começasse a trocar-se em certeza intuitiva. Deus tinha de salvar a
doente, por força, graças à minha intervenção, e eu ia interceder; é o que ele
pensava, enquanto os lábios repetiam as palavras da oração. Acabando a oração,
ficou Sales algum tempo olhando, com as mãos postas; afinal falou a boca do
homem, falou para confessar a dor, para jurar que nenhuma outra mão, além da
do Senhor, podia atalhar o golpe. A mulher ia morrer... ia morrer... ia morrer... E
repetia a palavra, sem sair dela. A mulher ia morrer. Não passava adiante. Prestes
a formular o pedido e a promessa não achava palavras idôneas, nem
aproximativas, nem sequer dúbias, não achava nada, tão longo era o descostume
de dar alguma coisa. Afinal saiu o pedido; a mulher ia morrer, ele rogava-me que
a salvasse, que pedisse por ela ao Senhor. A promessa, porém, é que não
acabava de sair. No momento em que a boca ia articular a primeira palavra, a
garra da avareza mordia-lhe as entranhas e não deixava sair nada. Que a
salvasse... que intercedesse por ela...

   No ar, diante dos olhos, recortava-se-lhe a perna de cera, e logo a moeda que ela
havia de custar. A perna desapareceu, mas ficou a moeda, redonda, luzidia,
amarela, ouro puro, completamente ouro, melhor que o dos castiçais do meu
altar, apenas dourados. Para onde quer que virasse os olhos, via a moeda,
girando, girando, girando. E os olhos a apalpavam, de longe, e transmitiam-lhe a
sensação fria do metal e até a do relevo do cunho. Era ela mesma, velha amiga de
longos anos, companheira do dia e da noite, era ela que ali estava no ar, girando,
às tontas; era ela que descia do teto, ou subia do chão, ou rolava no altar, indo da
Epístola ao Evangelho, ou tilintava nos pingentes do lustre.

    Agora a súplica dos olhos e a melancolia deles eram mais intensas e puramente
voluntárias. Vi-os alongarem-se para mim, cheios de contrição, de humilhação, de
desamparo; e a boca ia dizendo algumas coisas soltas, — Deus, — os anjos do
Senhor, — as bentas chagas, — palavras lacrimosas e trêmulas, como para pintar
por elas a sinceridade da fé e a imensidade da dor. Só a promessa da perna é que
não saía. Às vezes, a alma, como pessoa que recolhe as forças, a fim de saltar um
valo, fitava longamente a morte da mulher e rebolcava-se no desespero que ela
lhe havia de trazer; mas, à beira do valo, quando ia a dar o salto, recuava. A
moeda emergia dele e a promessa ficava no coração do homem.

    O tempo ia passando. A alucinação crescia, porque a moeda, acelerando e
multiplicando os saltos, multiplicava-se a si mesma e parecia uma infinidade
delas; e o conflito era cada vez mais trágico. De repente, o receio de que a mulher
podia estar expirando, gelou o sangue ao pobre homem e ele quis precipitar-se.
Podia estar expirando... Pedia-me que intercedesse por ela, que a salvasse...
Aqui o demônio da avareza sugeria-lhe uma transação nova, uma troca de
espécie, dizendo-lhe que o valor da oração era superfino e muito mais excelso que
o das obras terrenas. E o Sales, curvo, contrito, com as mãos postas, o olhar
submisso, desamparado, resignado, pedia-me que lhe salvasse a mulher. Que lhe
salvasse a mulher, e prometia-me trezentos, — não menos, — trezentos padre-

nossos e trezentas ave-marias. E repetia enfático: trezentos, trezentas,
trezentos... Foi subindo, chegou a quinhentos, a mil padre-nossos e mil avemarias. Não via esta soma escrita por letras do alfabeto, mas em algarismos,
como se ficasse assim mais viva, mais exata, e a obrigação maior, e maior
também a sedução. Mil padre-nossos, mil ave-marias. E voltaram as palavras
lacrimosas e trêmulas, as bentas chagas, os anjos do Senhor... 1.000 — 1.000 —
1.000. Os quatro algarismos foram crescendo tanto, que encheram a igreja de alto
a baixo, e com eles, crescia o esforço do homem, e a confiança também; a
palavra saía-lhe mais rápida, impetuosa, já falada, mil, mil, mil, mil ... Vamos lá,
podeis rir à vontade, concluiu S. Francisco de Sales.
E os outros santos riram efetivamente, não daquele grande riso descomposto dos
deuses de Homero, quando viram o coxo Vulcano servir à mesa, mas de um riso
modesto, tranqüilo, beato e católico.

   Depois, não pude ouvir mais nada. Caí redondamente no chão. Quando dei por
mim era dia claro... Corri a abrir todas as portas e janelas da igreja e da sacristia,
para deixar entrar o sol, inimigo dos maus sonhos.
  



ENTRE SANTOS, Machado de Assis

23/01/2018

A Igreja do Diabo, Machado de Assis



Capítulo I
De uma idéia mirífica

    Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de
fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado
com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones,
sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e
obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja
do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

     — Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra
breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas
e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a
minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se
dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero.
Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
  Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto
magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia,
e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: —
Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias
do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

Capítulo II

Entre Deus e o Diabo

    Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que
engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada
com os olhos no Senhor.

— Que me queres tu? perguntou este.

— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os
Faustos do século e dos séculos.

— Explica-te.

— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse
bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam
com os mais divinos coros...

— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito
que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar
uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha
desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e
completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de
dissimulação... Boa idéia, não vos parece?

— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.
— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos
mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal
exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.

— Vai.

— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?

— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da
tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.

   O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no
espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve
instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus.
 Mas recolheu o riso, e disse:
— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as
virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo
rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazêlas
todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...

— Velho retórico! murmurou o Senhor.

— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo,
trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram
aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o
bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro
põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas,
ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que
me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de
irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda...
Vou a negócios mais altos...

  Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram
no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.

— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie,
replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do
mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto
gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os
sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele
fez?

— Já vos disse que não.

— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio,
ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já
com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a
água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?

— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.

— Negas esta morte?

— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos
outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...

— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as
virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!

    Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os
serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo
sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Capítulo III

A boa nova aos homens

   Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula
beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e
extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus
discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava
que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e
desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.

— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos
soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza,
a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso.
Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro,
fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...

   Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes,
congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo
passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de
negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras
cínica e deslavada.

   Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as
naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a
avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe
era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero;
sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de
Peleu..." O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos
bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de
Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de
lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela
virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares,
em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo
prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução
direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do
mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de
propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio
talento.

    As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes
de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as
perversas e detestar as sãs.

    Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude.
Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos
homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era
exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não
fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um
casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade,
disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender
a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e
legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o
teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria
consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há
mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue
para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um
privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o
princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou
pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o
exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a
hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.

      E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o
perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente
a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra
espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa,
e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração.
Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um
certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma
exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito
em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

  Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a
solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova
instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes
insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou
desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava
esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das
marquesas do antigo regime: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese
em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias,
porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o
amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação,
por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: —
Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não
cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo
foi incluído no livro da sabedoria.

Capítulo IV

Franjas e franjas

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava
em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham
alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição.
A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a
conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou
brados de triunfo.

    Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às
escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente,
mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer
frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos
avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário
restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o
coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam
embaçando os outros.

    A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e
viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista
do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas,
socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a
cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o
procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o,
com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá.
         
           O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que
desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês,
varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na
campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se
na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo,
como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia
todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe
desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao
levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso
era verdadeiro.

      Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e
concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu,
trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus
ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou,
sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:
 
— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda,
como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição
humana.


A Igreja do Diabo, de Machado de Assis
Fonte:
ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Edição eletrônica produzida pela Costa Flosi Ltda.
Revisão: Sandra Flosi/Edição: Edson Costa Flosi e Nancy Costa
Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as
informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para
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16/01/2018

A Chave, Machado de Assis


    Não sei se lhes diga simplesmente que era de madrugada, ou se comece num tom mais
poético: aurora, com seus róseos dedos... A maneira simples é o que melhor me conviria
a mim, ao leitor, aos banhistas que estão agora na Praia do Flamengo — agora, isto é, no
dia 7 de outubro de 1861, que é quando tem princípio este caso que lhes vou contar.
Convinha-nos isto; mas há lá um certo velho, que me não leria, se eu me limitasse a dizer
que vinha nascendo a madrugada, um velho que... degamos quem era o velho.
Imaginem os leitores um sujeito gordo, não muito gordo — calvo, de óculos, tranqüilo,
tardo, meditativo. Tem sessenta anos: nasceu com o século. Traja asseadamente um
vestuário da manhã; vê-se que é abastado ou exerce algum alto emprego na
administração. Saúde de ferro. Disse já que era calvo; equivale a dizer que não usava
cabeleira. Incidente sem valor, observará a leitora, que tem pressa. Ao que lhe replico que
o incidente é grave, muito grave, extraordinariamente grave. A cabeleira devia ser o
natural apêndice da cabeça do major Caldas, porque cabeleira traz ele no espírito, que
também é calvo.

      Calvo é o espírito. O major Caldas cultivou as letras, desde 1821 até 1840 com um ardor
verdadeiramente deplorável. Era poeta; compunha versos com presteza, retumbantes,
cheios de adjetivos, cada qual mais calvo do que ele tinha de ficar em 1861. A primeira
poesia foi dedicada a não sei que outro poeta, e continha em germe todas as odes e
glosas que ele havia de produzir. Não compreendeu nunca o major Caldas que se
pudesse fazer outra cousa que não glosas e odes de toda a casta, pindáricas ou
horacianas, e também idílios piscatóricos, obras perfeitamente legítimas na aurora literária
do major. Nunca para ele houve poesia que pudesse competir com a de um Dinis ou
Pimentel Maldonado; era a sua cabeleira do espírito.

   Ora, é certo que o major Caldas, se eu dissesse que era de madrugada, dar-me-ia um
muxoxo ou franziria a testa com desdém. — Madrugada! era de madrugada! murmuraria
ele. Isto diz aí qualquer preta: — "nhanhã, era de madrugada..." Os jornais não dizem de
outro modo; mas numa novela...

   Vá pois! A aurora, com seus dedos cor-de-rosa, vinha rompendo as cortinas do oriente,
quando Marcelina levantou a cortina da barraca. A porta da barraca olhava justamente
para o oriente, de modo que não há inverossimilhança em lhes dizer que essas duas
auroras se contemplaram por um minuto. Um poeta arcádico chegaria a insinuar que a
aurora celeste enrubesceu de despeito e raiva. Seria porém levar a poesia muito longe.
Deixemos a do céu e venhamos à da terra. Lá está ela, à porta da barraca com as mãos
cruzadas no peito, como quem tem frio; traja a roupa usual das banhistas, roupa que só
dá elegância a quem já a tiver em subido grau. É o nosso caso.

     Assim, à meia-luz da manhã nascente, não sei se poderíamos vê-la de modo claro. Não;
é impossível. Quem lhe examinaria agora aqueles olhos úmidos, como as conchas da
praia, aquela boca pequenina, que parece um beijo perpétuo? Vede, porém, o talhe, a
curva amorosa das cadeiras, o trecho de perna que aparece entre a barra da calça de
flanela e o tornozelo; digo o tornozelo e não o sapato porque Marcelina não calça sapatos
de banho. Costume ou vaidade? Pode ser costume; se for vaidade é explicável porque o
sapato esconderia e mal os pés mais graciosos de todo o Flamengo, um par de pés finos,
esguios, ligeiros. A cabeça também não leva coifa; tem os cabelos atados em parte, em
parte trançados — tudo desleixadamente, mas de um desleixo voluntário e casquilho.
   Agora, que a luz está mais clara, podemos ver bem a expressão do rosto, É uma
expressão singular de pomba e gato, de mimo e desconfiança. Há olhares dela que
atraem, outros que distanciam — uns que inundam a gente, como um bálsamo, outros
que penetram como uma lâmina. É desta última maneira que ela olha para um grupo de
duas moças, que estão à porta de outra barraca, a falar com um sujeito.

— Lambisgóias! murmura entre dentes.

— Que é? pergunta o pai de Marcelina, o major Caldas, sentado ao pé da barraca, numa
cadeira que o moleque lhe leva todas as manhãs.
— Que é o quê? diz a moça.

— Tu falaste alguma cousa.
— Nada.

— Estás com frio?
— Algum.

— Pois olha, a manhã está quente.
— Onde está o José?

      O José apareceu logo; era o moleque que a acompanhava ao mar. Aparecido o José,
Marcelina caminhou para o mar, com um desgarro de moça bonita e superior. Da outra
barraca tinham já saído as duas moças, que lhe mereceram tão desdenhosa
classificação; o rapaz que estava com elas também entrara no mar. Outras cabeças e
bustos surgiram da água, como um grupo de delfins. Da praia alguns olhos, puramente
curiosos, se estendiam aos banhistas ou cismavam puramente contemplando o petáculo
das ondas que se dobravam e desdobravam — ou, como diria o major Caldas — as
convulsões de Anfitrite.

    O major ficou sentado a ver a filha, com o Jornal do Commercio aberto sobre os joelhos;
tinha já luz bastante para ler as notícias; mas não o fazia nunca antes de voltar a filha do
banho. Isto por duas razões. Era a primeira a própria afeição de pai; apesar da confiança
na destreza da filha, receava algum desastre. Era a segunda o gosto que lhe dava
contemplar a graça e a habilidade com que Marcelina mergulhava, bracejava ou
simplesmente boiava "como uma náiade", acrescentava ele se falava disso a algum
amigo.

   Acresce que o mar naquela manhã estava muito mais bravio que de costume; a ressaca
era forte; os buracos da praia mais fundos; o medo afastava vários banhistas habituais.
— Não te demores muito, disse o major, quando a filha entrou; toma cuidado.

  Marcelina era destemida; galgou a linha em que se dava a arrebentação, e surdiu fora
muito naturalmente. O moleque, aliás bom nadador, não rematou a façanha com igual
placidez; mas galgou também e foi surgir ao lado da sinhá-moça.

— Hoje o bicho não está bom, ponderou um banhista ao lado de
Marcelina, um homem maduro, de suíças, ar aposentado.

— Parece que não, disse a moça; mas para mim é o mesmo.

— O major continua a não gostar d’água salgada? perguntou uma senhora.

— Diz que é militar de terra e não do mar, replicou Marcelina, mas eu creio que papai o
que quer é ler o Jornal à vontade.

— Podia vir lê-lo aqui, insinuou um rapaz de bigodes, dando uma grande risada de
aplauso a si mesmo.

      Marcelina nem olhou para ele; mergulhou diante de uma onda, surdiu fora, com as mãos
sacudiu os cabelos. O sol, que já então aparecera, alumiava-a nessa ocasião, ao passo
que a onda, seguindo para a praia, deixava-lhe todo o busto fora de água. Foi assim que
a viu, pela primeira vez, com os cabelos úmidos, e a flanela grudada ao busto — ao mais
correto e virginal busto daquelas praias —, foi assim que pela primeira vez a viu o
Bastinhos — o Luís Bastinhos —, que acabava de entrar no mar, para tomar o primeiro
banho no Flamengo.

CAPÍTULO II

   A ocasião é a menos própria para apresentar-lhes o sr. Luís Bastinhos; a ocasião e o
lugar. O vestuário então é impropriíssimo. Ao vê-lo agora, a meio-busto, nem se pode
dizer que tenha vestuário de nenhuma espécie. Emerge-lhe a parte superior do corpo,
boa musculatura, pele alva, mal coberta de alguma penugem. A cabeça é que não precisa
dos arrebiques da civilização para dizer-se bonita. Não há cabeleireiro, nem óleo, nem
pente, nem ferro que no-la ponham mais graciosa. Ao contrário, a pressão fisionômica de
Luís Bastinhos acomoda-se melhor a esse desalinho agreste e marítimo. Talvez perca,
quando se pentear. Quanto ao bigode, fino e curto, os pingos d’água que ora lhe
escorrem não chegam a diminuí-lo; não chegam sequer a ver-se. O bigode persiste como
dantes.

   Não o viu Marcelina, ou não reparou nele. O Luís Bastinhos é que a viu, e mal pôde
disfarçar a admiração. O major Caldas, se os observasse, era capaz de casá-los, só para
ter o gosto de dizer que unia uma náiade a um tritão. Nesse momento a náiade repara
que o tritão tem os olhos fitos nela, e mergulha, depois mergulha outra vez, nada e bóia.
Mas o tritão é teimoso, e não lhe tira os olhos de cima.
"Que importuno!" diz ela consigo.

— Olhem uma onda grande, brada um dos conhecidos de Marcelina.

 Todos se puseram em guarda, a onda enrolou alguns, mas passou sem maior dano.
Outra veio e foi recebida com um alarido alegre; enfim veio uma mais forte, e assustou
algumas senhoras. Marcelina riu-se delas.

— Nada, dizia uma; salvemos o pêlo; o mar está ficando zangado.

— Medrosa! acudiu Marcelina.

— Pois sim...

— Querem ver? continuou a filha do major. Vou mandar embora o moleque.

— Não faça isso, D. Marcelina, acudiu o banhista de ar aposentado.

— Não faço outra cousa. José, vai-te embora.

— Mas, nhanhã...

— Vai-te embora!

     O José ainda esteve alguns segundos, sem saber o que fizesse; mas, parece que entre
desagradar ao pai ou à filha, achou mais arriscado desagradar à filha, e caminhou para
terra. Os outros banhistas tentaram persuadir à moça que devia vir também, mas era
tempo baldado. Marcelina tinha a obstinação de um enfant gâté. Lembraram alguns que
ela nadava como um peixe, e resistira muita vez ao mar.

— Mas o mar do Flamengo é o diabo, ponderou uma senhora. Os banhistas pouco a
pouco foram deixando o mar. Do lado de terra, o major Caldas, de pé, ouvia impaciente a
explicação do moleque, sem saber se o devolveria à água ou se cumpriria a vontade da
filha; limitou-se a soltar palavras de enfado.

— Santa Maria! exclamou de repente o José.

— Que foi? disse o major.

   O José não lhe respondeu; atirou-se à água. O major olhou e não viu a filha.
Efetivamente, a moça, vendo que no mar só ficava o desconhecido, nadou para terra,
mas as ondas tinham-se sucedido com freqüência e impetuosidade. No lugar da
arrebentação foi envolvida por uma; nesse momento é que o moleque a viu.

— Minha filha! bradou o major.

     E corria desatinado pela areia, enquanto o moleque conscienciosamente buscava
penetrar no mar. Mas era já empresa escabrosa; as ondas estavam altas, fortes e a
arrebentação terrível. Outros banhistas acudiram também a salvar a filha do major; mas a
dificuldade era só uma para todos. Caldas, ora implorava, ora ordenava ao moleque que
lhe restituísse a filha. Enfim, José conseguiu entrar no mar. Mas já então lutava ali, junto
ao funesto lugar, o desconhecido banhista que tanto aborrecera a filha do major. Este
estremeceu de alegria, de esperança, quando viu que alguém forcejava por arrancar a
moça da morte. Na verdade, o vulto de Marcelina apareceu nos braços do Luís Bastinhos;
mas uma onda veio e os enrolou a ambos. Nova luta, novo esforço e desta vez definitivo
triunfo. Luís Bastinhos chegou à praia arrastando consigo a moça.

— Morta! exclamou o pai correndo a vê-la.

Examinaram-na.

— Não, desmaiada, apenas.

      Com efeito, Marcelina perdera os sentidos, mas não morrera. Deram-lhe os socorros
médicos; ela voltou a si. O pai, singelamente alegre, apertou Luís Bastinhos ao coração.

— Devo-lhe tudo! disse ele.
— A sua felicidade me paga de sobra, tornou o moço.

      O major fitou-o alguns instantes; impressionara-o a resposta. Depois apertou-lhe a mão e
ofereceu-lhe a casa. Luís Bastinhos retirou-se antes que Marcelina pudesse vê-lo.

CAPÍTULO III

     Na verdade, se a leitora gosta de lances romanescos, aí fica um, com todo o valor das
antigas novelas, e pode ser também que dos dramalhões antigos. Nada falta: o mar, o
perigo, uma dama que se afoga, um desconhecido que a salva, um pai que passa da
extrema aflição ao mais doce prazer da vida; eis aí com que marchar cerradamente a
cinco atos maçudos e sangrentos, rematando tudo com a morte ou a loucura da heroína.
Não temos cá nem uma cousa nem outra. A nossa Marcelina não morreu nem morre;
douda pode ser que já fosse, mas de uma doidice branda, a doidice das moças em flor.
Ao menos pareceu que tinha alguma cousa disso, quando naquele mesmo dia soube que
fora salva pelo desconhecido.

— Impossível! exclamou.
— Por quê?
— Foi ele deveras?

— Pois então! Salvou-te com perigo da vida própria; houve um momento, em que eu
cuidei que ambos vocês morriam enrolados na onda.

— É a cousa mais natural do mundo, interveio a mãe; e não sei de que te espantas...

     Marcelina não podia, na verdade, explicar a causa do espanto; ela mesma não a sabia.
Custava-lhe a crer que Luís Bastinhos a tivesse salvo, e isso só porque "embirrara com
ele". Ao mesmo tempo, pesava-lhe o obséquio. Não quisera ter morrido; mas era melhor
que outro a houvesse arrancado ao mar, não aquele homem, que afinal era um grande
metediço. Marcelina esteve inclinada a crer que Luís Bastinhos encomendara o desastre
para ter ocasião de a servir.

     Dous dias depois, Marcelina voltou ao mar, já pacificado dos seus furores de encomenda.
Ao olhar para ele, teve uns ímpetos de Xerxes; fá-lo-ia castigar, se dispusesse de um bom
e grande vergalho. Não tendo o vergalho, preferiu flagelá-lo com os seus próprios braços,
e nadou nesse dia mais tempo e mais fora do que era costume, não obstante as
recomendações do major. Levava naquilo um pouco, ou antes, muito amor-próprio: o
desastre envergonhara-a.

     O Luís Bastinhos, que já lá estava no mar, travou conversação com a filha do major. Era a
segunda vez que se viam, e a primeira que se falavam.

— Soube que foi o senhor quem me ajudou... a levantar anteontem, disse Marcelina.
O Luís Bastinhos sorriu mentalmente; e ia responder por uma simples afirmativa, quando
Marcelina continuou:

— Ajudou, não sei; eu creio que cheguei a perder os sentidos, e o senhor... sim... o
senhor foi quem me salvou. Permite-me que lhe agradeça? concluiu ela, estendendo a
mão.

Luís Bastinhos estendeu a sua; e ali, entre duas ondas, tocaram-se os dedos do tritão e
da náiade.

— Hoje o mar está mais manso, disse ele.
— Está.
— A senhora nada bem.
— Parece-lhe?
— Perfeitamente.
— Menos mal.

   E como para mostrar a sua arte, Marcelina entrou a nadar para fora, deixando Luís
Bastinhos. Este, porém, ou por mostrar que também sabia a arte e que era destemido —
ou por não privar a moça de pronto socorro, caso houvesse necessidade —, ou enfim (e
este motivo pode ter sido o principal, se não único) — para vê-la sempre de mais perto —,
lá foi na mesma esteira; dentro de pouco era uma espécie de aposta entre os dous.

— Marcelina, disse-lhe o pai, quando ela voltou a terra, você hoje foi mais longe do que
nunca. Não quero isso, ouviu?

   Marcelina levantou os ombros, mas obedeceu ao pai, cujo tom nessa ocasião era
desusadamente ríspido. No dia seguinte, não foi tão longe a nadar; a conversar, porém,
foi muito mais longe do que na véspera. Ela confessou ao Luís Bastinhos, ambos com a
água até o pescoço, confessou que gostava muito de café com leite, que tinha vinte e
um anos, que possuía reminiscências do Tamberlick, e que o banho do mar seria
excelente, se não a obrigassem a acordar cedo.

— Deita-se tarde, não é? perguntou o Luís Bastinhos.
— Perto de meia-noite.
— Oh! dorme pouco!
— Muito pouco.
— De dia dorme?
— Às vezes.

   Luís Bastinhos confessou, pela sua parte, que se deitava cedo, muito cedo, desde que
estava a banhos de mar.

— Mas quando for ao teatro?
— Nunca vou ao teatro.
— Pois eu gosto muito.
— Também eu; mas enquanto estiver a banhos...

   Foi neste ponto que entraram as reminiscências do Tamberlick, que Marcelina ouviu,
quando criança; e daí ao João Caetano, e do João Caetano a não sei que outras
reminiscências, que a um e a outro fez esquecer a higiene e a situação.

CAPÍTULO IV

   Saiamos do mar que é tempo. A leitora pode desconfiar que o intento do autor é fazer um
conto marítimo, a ponto de casar os dous heróis nos próprios "paços de Anfitrite", como
diria o major Caldas. Não; saiamos do mar. Já tens muita água, boa Marcelina. Too much
of water hast thou, poor Ophelia! A diferença é que a pobre Ofélia lá ficou, ao passo que
tu sais sã e salva, com a roupa de banho pegada ao corpo, um corpo grego, por Deus! e
entras na barraca, e se alguma cousa ouves, não são as lágrimas dos teus, são os
resmungos do major. Saiamos do mar.

   Um mês depois do último banho a que o leitor assistiu, já o Luís Bastinhos freqüentava a
casa do major Caldas. O major afeiçoara-se-lhe deveras depois que ele lhe salvara a
filha. Indagou quem era; soube que estava empregado numa repartição de Marinha, que
seu pai, já agora morto, fora capitão-de-fragata e figurara na guerra contra Rosas. Soube
mais que era moço bem reputado e decente. Tudo isto realçou a ação generosa e
corajosa de Luís Bastinhos, e a intimidade começou, sem oposição da parte de Marcelina,
que antes contribuiu para ela, com as suas melhores maneiras.

    Um mês era de sobra para arraigar no coração de Luís Bastinhos a planta do amor que
havia germinado entre duas vagas do Flamengo. A planta cresceu, copou, bracejou
ramos a um e outro lado, tomou o coração todo do rapaz, que não se lembrava jamais de
haver gostado tanto de uma moça. Era o que ele dizia a um amigo de infância, seu atual
confidente.

— E ela? disse-lhe o amigo.
— Ela... não sei.
— Não sabes?
— Não; creio que não gosta de mim, isto é, não digo que se aborreça comigo; trata-me
muito bem, ri muito, mas não gosta... entendes?

— Não te dá corda em suma, concluiu o Pimentel, que assim se chamava o amigo
confidente. Já lhe disseste alguma cousa?

— Não.
— Por que não lhe falas?
— Tenho receio... Ela pode zangar-se e fico obrigado a não voltar lá ou a freqüentar
menos, e isso para mim seria o diabo.

     O Pimentel era uma espécie de filósofo prático, incapaz de suspirar dous minutos pela
mais bela mulher do mundo, e menos ainda de compreender uma paixão como a do Luís
Bastinhos. Sorriu, estendeu-lhe a mão em despedida, mas o Luís Bastinhos não
consentiu na separação. Puxou-o, deu-lhe o braço, levou-o a um café.

— Mas que diabo queres tu que te faça? perguntou o Pimentel sentando-se à mesa com
ele.

— Que me aconselhes.
— O quê?

— Não sei o quê, mas dize-me alguma cousa, replicou o namorado. Talvez convenha
falar ao pai; que te parece?

— Sem saber se ela gosta de ti?

— Na verdade era imprudência, concordou o outro, coçando o queixo com a ponta do
dedo índice; mas talvez goste...

— Pois então...

— Porque, eu te digo, ela não me trata mal; ao contrário, às vezes tem uns modos, umas
cousas... mas não sei... O major esse gosta de mim.

— Ah!
— Gosta.
— Pois aí tens, casa-te com o major.
— Falemos sério.

— Sério? repetiu o Pimentel debruçando-se sobre a mesa e encarando o outro. Aqui vai o
mais sério que há no mundo; tu és um... digo?

— Dize.
— Tu és um bolas.

Repetiam-se essas cenas regularmente, uma ou duas vezes, por semana. No fim delas o
Luís Bastinhos prometia duas cousas a si mesmo: não dizermais nada ao Pimentel e ir
fazer imediatamente a sua confissão a Marcelina; poucos dias depois ia confessar ao
Pimentel que ainda não dissera nada a Marcelina. E o Pimentel abanava a cabeça e
repetia o estribilho:

— Tu és um bolas.

CAPÍTULO V

    Um dia assentou Luís Bastinhos que era vergonha dilatar por mais tempo a declaração de
seus afetos; urgia clarear a situação. Ou era amado ou não; no primeiro caso, o silêncio
era tolice; no segundo a tolice era a assiduidade. Tal foi a reflexão do namorado; tal foi a
sua resolução.
A ocasião era na verdade propícia. O pai ia passar a noite fora; a moça ficara com uma tia
surda e sonolenta. Era o sol de Austerlitz; o nosso Bonaparte preparou a sua melhor
tática. A fortuna deu-lhe até um grande auxiliar na própria moça, que estava triste; a
tristeza podia dispor o coração a sentimentos benévolos, principalmente quando outro
coração lhe dissesse que não duvidava beber na mesma taça da melancolia. Esta foi a
primeira reflexão de Luís Bastinhos; a segunda foi diferente.

— Por que estará ela triste? perguntou ele a si mesmo.

    E eis o dente do ciúme a trincar-lhe o coração, e o sangue a esfriar-lhe nas veias, e uma
nuvem a cobrir-lhe os olhos. Não era para menos o caso. Ninguém adivinharia nessa
moça quieta e sombria, sentada a um canto do sofá, a ler as páginas de um romance,
ninguém adivinharia nela a borboleta ágil e volúvel de todos os dias. Alguma cousa devia
ser; talvez a mordesse algum besouro. E esse besouro não era decerto o Luís Bastinhos;
foi o que este pensou e foi o que o entristeceu.

Marcelina ergueu os ombros.
— Alguma cousa que a incomoda, continuou ele.
Um silêncio.
— Não?
— Talvez.
— Pois bem, disse Luís Bastinhos com calor e animado por aquela meia confidência; pois
bem, diga-me tudo, eu saberei ouvi-la e terei palavras de consolação para as suas dores.

    Marcelina olhou um pouco espantada para ele, mas a tristeza dominou outra vez e
deixou-se estar calada alguns instantes: finalmente pôs-lhe a mão no braço, e disse que
lhe agradecia muito o interesse que mostrava, mas que o motivo de tristeza era-o só para
ela e não valia a pena contá-lo. Como Luís Bastinhos teimasse para saber o que era,
contou a moça que lhe morrera, nessa manhã, o mico.

   Luís Bastinhos respirou à larga. Um mico! um simples mico! Era pueril o objeto, mas para
quem o esperava terrível, antes assim. Ele entregou-se depois a toda a sorte de
considerações próprias do caso, disse-lhe que não valia o bicho a pureza dos belos olhos
da moça; e daí a escorregar uma insinuação de amor era um quase nada. Ia a fazê-lo:
chegou o major.

    Oito dias depois houve em casa do major um sarau — "uma brincadeira" como disse o
próprio major. Luís Bastinhos foi; estava porém arrufado com a moça: deixou-se ficar a
um canto; não se falaram durante a noite inteira.

— Marcelina, disse-lhe no dia seguinte o pai; acho que tratas às vezes mal o Bastinhos.
Um homem que te salvou da morte.

— Que morte?
— Da morte na Praia do Flamengo.
— Mas, papai, se a gente fosse a morrer de amores por todas as pessoas que nos
salvam da morte...

— Mas quem te fala nisso? digo que o tratas mal às vezes...
— Às vezes, é possível.
— Mas por quê? ele parece-me um bom rapaz.

    Nada mais lhe respondendo a filha, entrou o major a bater com a ponta do pé no chão,
um pouco enfadado. Um pouco? talvez muito. Marcelina destruía-lhe as esperanças,
reduzia-lhe a nada o projeto que ele acalentava desde algum tempo, — que era casar os
dous; — casá-los ou uni-los pelos "doces laços do himeneu", que todas foram as suas
próprias expressões mentais. E vai a moça e destrói-lho. O major sentia-se velho, podia
morrer, e quisera deixar a filha casada e bem casada. Onde achar melhor marido que o
Luís Bastinhos?
— Uma pérola, dizia ele a si mesmo.

     E enquanto ele ia forjando e desforjando esses projetos, Marcelina suspirava consigo
mesma, e sem saber por que; mas suspirava. Também esta pensava na conveniência de
casar e casar bem; mas nenhum homem lhe abrira deveras o coração. Quem sabe se a
fechadura não servia a nenhuma chave? Quem teria a verdadeira chave do coração de
Marcelina? Ela chegou a supor que fosse um bacharel da vizinhança, mas esse casou
dentro de algum tempo; depois desconfiara que a chave estivesse em poder de um oficial
de Marinha. Erro: o oficial não trazia chave consigo. Assim andou de ilusão em ilusão, e
chegou à mesma tristeza do pai. Era fácil acabar com ela: era casar com o Bastinhos.
Mas se o Bastinhos, o circunspecto, o melancólico, o taciturno Bastinhos não tinha a
chave! Equivalia a recebê-lo à porta sem lhe dar entrada no coração.

CAPÍTULO VI

    Cerca de mês e meio depois fazia anos o major, que, animado pelo sarau precedente,
quis comemorar com outro aquele dia. "Outra brincadeira, mas desta vez rija", foram os
próprios termos em que ele anunciou o caso ao Luís Bastinhos, alguns dias antes.
Pode-se dizer e acreditar que a filha do major não teve outro pensamento desde que o pai
lho comunicou também. Começou por encomendar um rico vestido, elegeu costureira,
adotou corte, coligiu adornos, presidiu a toda essa grande obra doméstica. Jóias, flores,
fitas, leques, rendas, tudo lhe passou pelas mãos, e pela memória e pelos sonhos. Sim, a
primeira quadrilha foi dançada em sonhos, com um belo cavalheiro húngaro, vestido à
moda nacional, cópia de uma gravura da Ilustração Francesa, que ela vira de manhã.

   Acordada, lastimou sinceramente que não fosse possível ao pai encomendar, de envolta
com os perus da ceia, um ou dous cavalheiros húngaros — entre outros motivos porque
eram valsadores intermináveis. E depois tão bonitos!

— Sabem que eu pretendo dançar no dia 20? disse o major uma noite, em casa.
— Você? retorquiu-lhe um amigo velho.
— Eu.
— Por que não? assentiu timidamente o Luís Bastinhos.
— Justamente, continuou o major voltando-se para o salvador da filha. E o senhor há de
ser o meu vis-à-vis...

— Eu?

— Não dança?

— Um pouco, retorquiu modestamente o moço.

— Pois há de ser o meu vis-à-vis.
 
      Luís Bastinhos curvou-se como quem obedece a uma opressão; com a flexibilidade
passiva do fatalismo. Se era necessário dançar, ele o faria, porque dançava como
poucos, e obedecer ao velho era uma maneira de amar a moça. Ai dele! Marcelina olhou-o
com tamanho desprezo, que se ele lhe apanha o olhar, não é impossível que de uma
vez para sempre ali deixasse de pôr os pés. Mas não o viu; continuou a arredá-los dali
bem poucas vezes.

     Os convites foram profusamente espalhados. O major Caldas fez o inventário de todas as
suas relações, antigas e modernas, e não quis que nenhum camarão lhe escapasse pelas
malhas: lançou uma rede fina e instante. Se ele não pensava em outra cousa o velho
major! Era feliz; sentia-se poupado da adversidade, quando muitos outros companheiros
vira cair, uns mortos, outros extenuados somente. A comemoração de seu aniversário
tinha, portanto, uma significação mui alta e especial; e foi isso mesmo o que ele disse à
filha e aos demais parentes.

O Pimentel, que também fora convidado, sugeriu a Luís Bastinhos a idéia de dar um
presente de anos ao major.

— Já pensei nisso, retorquiu o amigo; mas não sei o que lhe dê.
— Eu te digo.
— Dize.
— Dá-lhe um genro.
— Um genro?
— Sim, um noivo à filha; declara o teu amor e pede-a. Verás que, de todas as dádivas
desse dia, essa será a melhor.

Luís Bastinhos bateu palmas ao conselho do Pimentel.
— É isso mesmo, disse ele; eu andava com a idéia em alguma jóia, mas...
— Mas a melhor jóia és tu mesmo, concluiu o Pimentel.
— Não digo tanto.
— Mas pensas.
— Pimentel!

— E eu não penso outra cousa. Olha, se eu tivesse intimidade na casa, há muito tempo
que estarias amarrado à pequena. Pode ser que ela não goste de ti; mas também é difícil
a uma moça alegre e travessa gostar de um casmurro, como tu — que te sentas, defronte
dela, com um ar solene e dramático, a dizer em todos os teus gestos: minha senhora, fui
eu que a salvei da morte; deve rigorosamente entregar-me a sua vida... Ela pensa decerto
que estás fazendo um calembour de mau gosto e fecha-te a porta...

Luís Bastinhos esteve calado alguns instantes.

— Perdôo-te tudo, a troco do conselho que me deste; vou oferecer um genro ao major.

    Dessa vez, como de todas as outras, a promessa era maior do que a realidade; ele lá foi,
lá tornou, nada fez. Iniciou duas ou três vezes uma declaração; chegou a entornar um ou
dous olhares de amor, que não pareceram de todo feios à pequena; e, porque ela sorriu,
ele desconfiou e desesperou. Qual! pensava consigo o rapaz; ela ama a outro com
certeza.

       Veio enfim o dia, o grande dia. O major deu um pequeno jantar, em que figurou Luís
Bastinhos; de noite reuniu uma parte dos convidados, porque nem todos lá puderam ir, e
fizeram bem; a casa não dava para tanto. Ainda assim era muita gente reunida, muita e
brilhante, e alegre, como alegre parecia e deveras estava o major. Não se disse nem se
dirá dos brindes do major, à mesa do jantar; não podem inserir-se aqui todas as
recordações clássicas do velho poeta de outros anos; seria não acabar mais. A única
cousa que verdadeiramente se pode dizer é que o major declarou, à sobremesa, ser esse
o dia mais venturoso de todos os seus longos anos, entre outros motivos, porque tinha
gosto de ver ao pé de si o jovem salvador da filha.

— Que idéia! murmurou a filha; e deu um imperceptível muxoxo. Luís Bastinhos
aproveitou o ensejo. "Magnífico, disse ele consigo; depois do café, peço-lhe duas
palavras em particular, e logo depois a filha."

    Assim fez; tomado o café, pediu ao major uns cinco minutos de atenção. Caldas, um
pouco vermelho de comoção e de champagne, declarou-lhe que até lhe daria cinco mil
minutos, se tantos fossem precisos.
Luís Bastinhos sorriu lisonjeado a essa deslocada insinuação; e, entrando no gabinete
particular do major, foi sem mais preâmbulo ao fim da entrevista; pediu-lhe a filha em
casamento. O major quis resguardar um pouco a dignidade paterna; mas era impossível.
Sua alegria foi uma explosão.

— Minha filha! bradou ele; mas... minha filha... ora essa... pois não!... Minha filha!

    E abria os braços e apertava com eles o jovem candidato, que, um pouco admirado do
próprio atrevimento, chegou a perder o uso da voz. Mas a voz era, aliás, inútil, ao menos
durante o primeiro quarto de hora, em que só falou o ambiciado sogro, com uma
volubilidade sem limites. Cansou enfim, mas de um modo cruel.

— Velhacos! disse ele; com que então... amam-se às escondidas...
— Eu?
— Pois quem?
— Peço-lhe perdão, disse Luís Bastinhos; mas não sei... não tenho certeza...
— Quê! não se correspondem?...
— Não me tenho atrevido...
O major abanou a cabeça com certo ar de irritação e lástima; pegou-lhe das mãos e fitouo
durante alguns segundos.

— Tu és afinal de contas um pandorga, sim, um pandorga — disse ele, largando-lhe as
mãos.

  Mas o gosto de os ver casados era tal, e tal a alegria daquele dia de anos, que o major
sentiu a lástima converter-se em entusiasmo, a irritação em gosto, e tudo acabou em
boas promessas.

— Pois digo-te, que te hás de casar, concluiu ele; Marcelina é um anjo, tu outro, eu outro;
tudo indica que nos devemos ligar por laços mais doces do que as simples relações da
vida. Juro-te que serás o pai de meus netos...

    Jurava mal o major, porque daí a meia hora, quando ele chamou a filha ao gabinete, e lhe
comunicou o pedido, recebeu desta a mais formal recusa; e por que insistisse em querer
concedê-la ao rapaz, disse-lhe a moça que despediria o pretendente em plena sala, se
lhe falassem mais em semelhante absurdo. Caldas que conhecia a filha não disse mais
nada. Quando o pretendente lhe perguntou, daí a pouco, se devia considerar-se feliz, ele
usou um expediente assaz enigmático: piscou-lhe o olho. Luís Bastinhos ficou radiante;
ergueu-se às nuvens nas asas da felicidade.

   Durou pouco a felicidade; Marcelina não correspondia às promessas do major. Três ou
quatro vezes chegara-se a ela Luís Bastinhos, com uma frase piegas na ponta da língua,
e vira-se obrigado a engoli-la outra vez, porque a recepção de Marcelina não animava
mais. Irritado, foi sentar-se ao canto de uma janela, com os olhos na lua, que estava
esplêndida — uma verdadeira nesga de romantismo. Ali fez mil projetos trágicos, o
suicídio, o assassinato, o incêndio, a revolução, a conflagração dos elementos; ali jurou
que se vingaria de um modo exemplar. Como então soprasse uma brisa fresca, e ele a
recebesse em primeira mão, à janela, acalmaram-se-lhe as idéias fúnebres e
sangüíneas, e apenas lhe ficou um desejo de vingança de sala. Qual? Não sabia qual
fosse; mas trouxe-lha enfim uma sobrinha do major.

— Não dança? perguntou ela a Luís Bastinhos.
— Eu?
— O senhor.
— Pois não, minha senhora.

Levantou-se e deu-lhe o braço.

— De maneira que, disse ela, já agora são as moças que tiram os homens para dançar?

— Oh! não! protestou ele. As moças apenas ordenam aos homens o que devem fazer; e o
homem que está no seu papel obedece sem discrepar.

— Mesmo sem vontade? perguntou a prima de Marcelina.

— Quem é que neste mundo pode não ter vontade de obedecer a uma dama? disse Luís
Bastinhos com o seu ar mais piegas.

     Estava em pleno madrigal; iriam longe, porque a moça era das que saboreiam esse
gênero de palestra. Entretanto, tinham dado o braço, e passeavam ao longo da sala, à
espera da valsa, que se ia tocar. Deu sinal a valsa, os pares saíram, e começou o
turbilhão.
   Não tardou muito que a sobrinha do major compreendesse que estava abraçada a um
valsista emérito, a um verdadeiro modelo de valsistas. Que delicadeza! que segurança!
que acerto de passos! Ela, que também valsava com muita regularidade e graça,
entregou-se toda ao parceiro. E ei-los unidos, a voltearem rapidamente, leves como duas
plumas, sem perder um compasso, sem discrepar uma linha. Pouco a pouco, esvaziando-se
a arena, iam sendo os dous objeto exclusivo da atenção de todos. Não tardou que
ficassem sós; e foi então que o sucesso se formou decisivo e lisonjeiro. Eles giravam e
sentiam que eram o alvo da admiração geral; e ao senti-lo, criavam forças novas, e não
cediam o campo a nenhum outro. Pararam com a música

— Quer tomar alguma cousa? perguntou Luís Bastinhos com a mais adocicada de suas
entonações.

A moça aceitou um pouco de água; e enquanto andavam elogiavam um ao outro, com o
maior calor do mundo. Nenhum desses elogios, porém, chegou ao do major, quando daí a
pouco encontrou Luís Bastinhos.

— Pois você estava com isso guardado! disse ele.

— Isso quê?

— Isso... esse talento que Deus concedeu a poucos... a bem raros. Sim, senhor; pode
crer que é o rei da minha festa.

   E apertou-lhe muito as mãos, piscando o olho. Luís Bastinhos tinha já perdido toda a fé
naquele jeito peculiar do major; recebeu-o com frieza. O sucesso entretanto fora grande;
ele o sentiu nos olhares sorrateiros dos outros rapazes, nos gestos de desdém que eles
faziam; foi a consagração última.

— Com que então, só minha prima é que mereceu uma valsa!

     Luís Bastinhos estremeceu, ao ouvir esta palavra; voltou-se; deu com os olhos em
Marcelina. A moça repetiu o dito, batendo-lhe com o leque no braço. Ele murmurou
algumas palavras, que a história não conservou, aliás deviam ser notáveis, porque ele
ficou vermelho como uma pitanga. Essa cor ainda se tornou mais viva, quando a moça,
enfiando-lhe o braço, disse resolutamente:

— Vamos a esta valsa...

Tremia o rapaz de comoção; pareceu-lhe ver nos olhos da moça todas as promessas da
bem-aventurança; entrou a compreender os piscados do major.
— Então? disse Marcelina.

— Vamos.

— Ou está cansado?

— Eu? que idéia. Não, não, não estou cansado.

     A outra valsa fora um primor; esta foi classificada entre os milagres. Os amadores
confessaram francamente que nunca tinham visto um valsador como Luís Bastinhos. Era
o impossível realizado; seria a pura arte dos arcanjos, se os arcanjos valsassem. Os mais
invejosos tiveram de ceder alguma cousa à opinião da sala. O major chegou às raias do
delírio.
— Que me dizem a este rapaz? bradou ele a uma roda de senhoras. Ele faz tudo: nada
como um peixe e valsa como um pião. Salvou-me a filha para valsar com ela.

    Marcelina não ouviu estas palavras do pai, ou perdoou-lhas. Estava toda entregue à
admiração. Luís Bastinhos era até ali o melhor valsista que encontrara. Ela tinha vaidade
e reputação de valsar bem; e achar um parceiro de tal força era a maior fortuna que podia
acontecer a uma valsista. Disse-lho ela mesma, não sei se com a boca, se com os olhos,
e ele repetiu-lhe a mesma idéia, e foram ratificar daí a pouco as suas impressões numa
segunda valsa. Foi outro e maior sucesso.

   Parece que Marcelina valsou ainda uma vez com Luís Bastinhos, mas em sonhos, uma
valsa interminável, numa planície, ao som de uma orquestra de diabos azuis e invisíveis.
Foi assim que ela referiu o sonho, no dia seguinte, ao pai.

— Já sei, disse este; esses diabos azuis e invisíveis deviam ser dous.
— Dous?
— Um padre e um sacristão...
— Ora, papai!
     E foi um protesto tão gracioso, que o Luís Bastinhos, se o ouvisse e visse, mui
provavelmente pediria repetição. Mas nem viu nem soube dele. De noite, indo lá, recebeu
novos louvores, falaram do baile da véspera. O major confessou que era o melhor baile
do ano; e dizendo-lhe a mesma cousa o Luís Bastinhos, declarou o major que o salvador
da filha reunia o bom gosto ao talento coreográfico.

— Mas por que não dá outra brincadeira, um pouco mais familiar? disse o Luís Bastinhos.
O major piscou o olho e adotou a idéia. Marcelina exigiu de Luís Bastinhos que dançasse
com ela a primeira valsa.

— Todas, disse ele.
— Todas?
— Juro-lhe que todas.
Marcelina abaixou os olhos e lembrou-se dos diabos azuis e invisíveis. eio a noite da
"brincadeira", e Luís Bastinhos cumpriu a promessa; valsaram ambos todas as valsas. Era
quase um escândalo. A convicção geral é que o casamento estava próximo.

     Alguns dias depois, o major deu com os dous numa sala, ao pé de uma mesa, a
folhearem um livro — um livro ou as mãos, porque as mãos de um e de outro estavam
sobre o livro, juntas, e apertadas. Parece que também folheavam os olhos, com tanta
atenção que não viram o major. O major quis sair, mas preferiu precipitar a situação.
— Então que é isso? Estão valsando sem música?

   Estremeceram os dous e coraram muito, mas o major piscou o olho, e saiu. Luís
Bastinhos aproveitou a circunstância para dizer à moça que o casamento era a verdadeira
valsa social; idéia que ela aprovou e comunicou ao pai.

— Sim, disse este, a melhor Terpsícore é Himeneu.

  Celebrou-se o casamento daí a dous meses. O Pimentel, que serviu de padrinho ao
noivo, disse-lhe na igreja, que em certos casos era melhor valsar que nadar, e que a
verdadeira chave do coração de Marcelina não era a gratidão mas a coreografia. Luís
Bastinhos abanou a cabeça sorrindo; o major, supondo que eles o elogiavam em voz
baixa, piscou o olho.



Núcleo Pesquisas em Informática. Literatura e Lingüística
LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
A Chave, de Machado de Assis
Edição de Referência: Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

15/01/2018

A Herança, Machado de Assis


      Venância tinha dois sobrinhos, Emílio e Marcos; o primeiro de vinte e oito, o segundo de
trinta e quatro anos. Marcos era o seu mordomo, esposo, pai, filho, médico e capelão. Ele
cuidava-lhe da casa e das contas, aturava os seus reumatismos e arrufos, ralhava-lhe às
vezes, brandamente, obedecia-lhe sem murmúrio, cuidava-lhe da saúde e dava-lhe bons
conselhos. Era um rapaz tranqüilo, medido, geralmente silencioso, pacato, avesso a
mulheres, indiferente a teatros, a saraus. Não se irritava nunca, não teimava, parecia não
ter opiniões nem simpatias. O único sentimento manifesto era a dedicação a D. Venância.
Emílio era em muitos pontos o contraste de Marcos, seu irmão. Primeiramente, era um
dândi, turbulento, frívolo, sedento de diversões, vivendo na rua e na casa dos outros,
dans le monde. Tinha cóleras, que duravam o tempo das opiniões; minutos apenas. Era
alegre, falador, expansivo, como um namorado de primeira mão. Gastava às mãos largas.
Vivia duas horas por dia em casa do alfaiate, uma hora em casa do cabeleireiro, o resto
do tempo na Rua do Ouvidor; salvo o tempo em que dormia em casa, que não era a
mesma casa de D. Venância, e o pouco em que ia visitar a tia. Exteriormente era um
elegante; interiormente era um bom rapaz, mas um verdadeiro bom rapaz.

      Não tinham pai nem mãe; Marcos era advogado; Emílio formara-se em medicina. Por um
alto sentimento de humanidade, Emílio não exercia a profissão; o obituário conservava o
termo médio usual. Mas, tendo um e outro herdado alguma coisa dos pais, Emílio mordia
razoavelmente a parte da herança, que aliás o irmão administrava com muito zelo.
Moravam juntos, mas tinham a casa dividida de maneira que não podiam tolher a
liberdade um do outro. Às vezes passavam-se três ou quatro dias sem se verem; e é justo
dizer que as saudades primeiro feriam Emílio do que ao irmão. Ao menos era ele quem,
depois de larga ausência, se assim podemos chamar-lhe, entrava mais cedo para casa a
esperar que Marcos viesse da casa de D. Venância.

— Por que não foste à casa de titia? perguntava Marcos, logo que ele dizia estar a
esperá-lo durante muito tempo.

      Emílio erguia os ombros, como rejeitando a idéia desse sacrifício voluntário. Depois,
conversavam, riam um pouco; Emílio referia anedotas, fumava dois charutos, e só se
levantava quando o outro confessava estar a cair de sono. Emílio, que não dormia antes
das três ou quatro, nunca tinha sono; lançava mão de um romance francês e ia devorá-lo
na cama até a hora habitual. Mas esse frívolo tinha ocasiões de seriedade; numa doença
do irmão, velou-lhe longos dias à cabeceira, com uma dedicação verdadeiramente
materna. Marcos sabia que ele o amava.

    Não amava, entretanto, a tia; se fosse mau, podia detestá-la; mas se não a detestava,
confessava intimamente que ela o aborrecia. Marcos, quando o irmão repetia isso, tratava
de o reduzir a melhor sentimento; e com tão boas razões que Emílio, não se atrevendo a
contestá-lo e não querendo sair de sua opinião, recolhia-se a um eloqüente silêncio. Ora, D. Venância encontrava essa repulsa, talvez pelo excesso mesmo de seu afeto. Emílio era o predileto de seus sobrinhos; ela adorava-o. A melhor hora do dia era a queele lhe destinava a ela. Na ausência falava de Emílio a propósito de qualquer coisa.
Geralmente o rapaz ia à casa da tia, entre as duas e três horas; raras vezes à noite. Que
alegria quando ele entrava! que afagos! que intermináveis carinhos!

— Vem cá, ingrato, senta-te aqui ao pé da velha. Como passaste de ontem?

— Bem, respondia Emílio sorrindo contrafeito.

— Bem, arremedava a tia; diz aquilo como se não fosse verdade. E quem sabe mesmo?

Tiveste alguma coisa?

— Nada, não tive nada.

— Pensei.

   D. Venância tranqüilizava-se; depois vinha um rosário de perguntas e outro de anedotas.
No meio de umas e outras, se via algum gesto de incômodo no sobrinho, interrompia-se
para perguntar se estava incomodado, se queria tomar alguma coisa. Mandava fechar as
janelas de onde supunha que vinha ar; fazia-o trocar de cadeira, se lhe parecia que a que
ele ocupava era menos cômoda. Esse excesso de cautelas e cuidados fatigavam o moço.
Ele obedecia passivamente, falava pouco, ou o menos que lhe era possível. Quando
resolvia sair, tornava-se perfidamente mais alegre e carinhoso, açucarava um
cumprimento, punha-lhe mesmo alguma coisa do coração, e despedia-se. D. Venância,
que ficava com essa impressão última, confirmava-se nos seus sentimentos a respeito de
Emílio, a quem proclamava o primeiro sobrinho deste mundo. Pela sua parte, Emílio
descia as escadas mais aliviado; e no coração, lá no mais fundo do coração, uma voz
secreta sussurrava estas palavras cruéis:

— Quer-me muito bem, mas é muito amoladora.

   A presença de Marcos era uma troca de papéis. A acariciada era ela. D. Venância tinha
seus momentos de enfado e de zanga, gostava de ralhar, de bater no próximo. Sua alma
era uma fonte de duas bicas, vertia mel por uma e vinagre pela outra. Sabia que o melhor
meio de aturar menos, era não imitá-la. Calava-se, sorria, aprovava tudo, com uma
docilidade exemplar. Outra vezes, conforme o assunto e a ocasião, reforçava os
sentimentos pessimistas da tia, e ralhava, não com igual veemência, porque ele estava
incapaz de a fingir, mas na conformidade das idéias dela. Presente a tudo, não esquecia,
no meio de um discurso de D. Venância, de lhe acomodar melhor o banquinho dos pés.
Sabia-lhe os hábitos, e ordenava as coisas de maneira que lhe não faltasse nada. Ele era
a Providência de D. Venância e o seu pára-raios. De mês em mês prestava-lhe contas; e
nessas ocasiões só uma alma forte podia resistir ao suplício. Cada aluguel trazia um
discurso; cada obra nova ou conserto produzia objurgatória. Ao cabo, D. Venância não
ficava com a menor idéia das contas, tão ocupada estava em desabafar o seu
reumatismo; e Marcos, se quisesse afrouxar um pouco a consciência, podia dar às contas
certa elasticidade. Não o fazia; era incapaz de o fazer.

    Quem dissesse que na dedicação de Marcos entrava um pouco de interesse, podia dormir
com a consciência tranqüila, pois não caluniava ninguém. Havia afeto, mas não havia só
isso. D. Venância possuía bons prédios, e tinha só três parentes.
O terceiro parente era uma sobrinha, que morava com ela, moça de vinte anos, graciosa,
doida por música e confeitos. D. Venância também a estimava muito, quase tanto como a
Emílio. Meditava até casá-la antes de morrer; e só tinha dificuldade em achar um noivo
digno da noiva.

Um dia, no meio de uma conversa com Emílio, aconteceu-lhe dizer:
— Quando te casares, adeus tia Venância!
Esta palavra foi um raio de luz.
— Casar! pensou ela, mas por que não com a Eugênia?

     Nessa noite não cuidou mentalmente de outras coisas. Marcos nunca a vira tão taciturna;
chegou a supor que ela estivesse zangada com ele. D. Venância não disse, durante essa
noite, mais de quarenta palavras. Olhava para Eugênia, lembrava-se de Emílio, e dizia
consigo:

— Mas como é que não lembrei disso há mais tempo? Nasceram um para o outro. São
bonitos, bons, jovens. — Só se ela tiver algum namoro; mas quem seria?

      No dia seguinte sondou a moça; Eugênia, que não pensava em ninguém, disse
francamente que trazia o coração como lho haviam dado. D. Venância exultou; riu-se
muito; jantou mais do que de costume. Restava sondar Emílio no dia seguinte.
Emílio respondeu a mesma coisa.
— Deveras! exclamou a tia.
— Pois então!

— Não gostas de nenhuma moça? não tens nada em vista?

— Nada.

— Tanto melhor! tanto melhor!

    Emílio saiu aturdido e um pouco vexado. A pergunta, a insistência, a alegria, tudo aquilo
tinha um ar pouco tranqüilizador para ele.

— Quererá casar comigo?

    Não perdeu muito tempo em conjecturas. D. Venância, que, com os seus sessenta anos,
receava qualquer surpresa da morte, apressara-se a falar diretamente à sobrinha. Era
difícil; mas D. Venância passava por ter um gênio original, que é a coisa mais vantajosa
que pode acontecer à gente, quando quer passar por cima de certas consideraeões.
Perguntou diretamente a Eugênia se estimaria casar com Emílio; Eugênia, que nunca
pensara em tal, respondeu que lhe era indiferente.
— Indiferente só? perguntou D. Venância.


— Posso casar.

— Sem vontade, sem gosto, só por obedecer?...

— Oh! não!

— Velhaca! Confessa que gostas dele.

       Eugênia não se lembrara disso; mas respondeu com um sorriso e baixou os olhos, gesto
que podia dizer muita coisa e nada. D. Venância interpretou-o como uma afirmativa,
talvez porque ela preferia a afirmativa. Quanto a Eugênia, ficou abalada com a proposta
da tia, mas não lhe durou muito o abalo; foi tocar música. De tarde pensou outra vez na
conversa que tivera, começou a lembrar-se de Emílio, foi ver o retrato dele que havia no
álbum. Realmente, entrou a parecer-lhe que gostava do moço. A tia, que o dizia, é porque
o percebera. Que admira? Um rapaz bonito, elegante, distinto. Era isso; devia amá-lo;
devia casar com ele.

     Emílio foi menos fácil de contentar-se. Quando a tia lhe deu a entender que havia uma
pessoa que o amava, teve um sobressalto; quando lhe disse que era uma moça, teve
outro. Céus! um romance! A imaginação de Emílio construiu logo vinte capítulos, cada
qual mais cheio de luas e miosótis. Enfim, soube que se tratava de Eugênia. A noiva não
era de desprezar; mas tinha o defeito de ser um santo de casa.

— E escusas de fazer essa cara, disse D. Venância; eu já percebi que gostas dela.

— Eu?
— Não; hei de ser eu.
— Mas, titia...
— Deixa-te de partes! Já percebi. Não me zango; pelo contrário, aprovo e até desejo.

    Emílio quis recusar de uma só vez; mas era difícil; tomou a resolução de contemporizar.
D. Venância, a muito custo, concedeu-lhe oito dias.

— Oito dias! exclamou o sobrinho.

— Em menos tempo fez Deus o mundo, redargüiu D. Venância sentenciosamente.

  Emílio sentiu que a coisa era um pouco dura de roer assim feita às pressas. Comunicou
suas impressões ao irmão. Marcos aprovou a tia.

— Também tu?

— Também. A Eugênia é bonita, gosta de ti; titia faz gosto. Que mais queres?

— Mas é que nunca pensei em semelhante coisa.

— Pois pensa agora. Em oito dias pensarás nela e talvez acabes por gostar... Acabas
com certeza.

— Que maçada!

— Não acho.

— É porque não é contigo.

— Se fosse era a mesma coisa.

— Casavas?

— No fim de oito dias.

— Admiro-te. Custa-me a crer que um homem se case, assim como faz uma viagem a
Vassouras.

— O casamento é uma viagem a Vassouras; não custa mais nem menos.

   Marcos disse ainda outras coisas mais, no sentido de animar o irmão. Ele aprovava o
casamento, não só porque Eugênia merecia, como porque era muito melhor que tudo
ficasse em casa.
Não interrompeu Emílio as suas visitas cotidianas; mas os dias passavam-se e ele não se
sentia mais disposto ao casamento. No sétimo dia, despediu-se da tia e da prima, com
uma cara lúgubre.

— Qual! dizia Eugênia; ele não casa comigo.

        No oitavo dia, D. Venância recebeu uma carta de Emílio, pedindo-lhe muitos perdões,
fazendo-lhe carícias sem fim, mas acabando por uma negativa franca.
D. Venância ficou desconsolada; tinha feito nascer esperanças no coração da sobrinha, e
não as podia realizar de nenhuma maneira. Chegou a ter um movimento de cólera contra
o rapaz, mas arrependeu-se dele até morrer. Um sobrinho tão amável! que recusava com
tão bons modos! Era pena que não aceitasse, mas se ele não amava, podia ela obrigá-lo
ao casamento?

Suas reflexões foram essas, tanto à sobrinha, que aliás não chorou, posto ficasse um
pouco triste, como ao sobrinho Marcos, que só tarde soubera da recusa do irmão.

— Aquilo é uma cabeça de vento! disse ele.

       D. Venância defendeu-o, como confessou que se acostumara à idéia de deixar Eugênia
casada e bem casada. Enfim não se pode forçar os corações. Isso mesmo repetiu ela
quando Emílio a foi ver daí a dias, um tanto envergonhado da recusa. Emílio, que
esperava achá-la no mais agudo de seus reumatismos, achou-a risonha como de
costume.

      Mas a recusa de Emílio não foi aceita tão filosoficamente pelo irmão. Marcos não achara
a recusa, nem bonita nem prudente. Era um erro e uma tolice. Eugênia era uma noiva
digna até de um sacrifício. Sim; tinha qualidades notáveis. Marcos atentou nelas. Viu que
efetivamente a moça não valia o modo por que o irmão a tratara. A resignação com que
aceitava a recusa era na verdade digna de respeito. Marcos simpatizou com esse
proceder. Não menos lhe doeu a dor da tia, que não alcançava realizar o desejo de deixar
Eugênia entregue a um bom marido.

— Que bom marido não podia ser ele?

     Marcos seguiu esta idéia com alma, com afinco, com desejo de acertar. Sua solicitude
dividiu-se entre Eugênia e D. Venância — o que era servir a D. Venância. Um dia
entestou com o assunto...

— Titia, disse ele, oferecendo-lhe torradinhas, eu desejava pedir-lhe um conselho.

— Tu? Pois tu pedes conselhos, Marcos?...

— Às vezes, redargüiu ele sorrindo.

— Que é?

— Se a prima Eugênia me aceitasse por marido, a senhora aprovava o casamento?

D. Venância olhou para Eugênia espantada, Eugênia, não menos espantada do que ela,
olhou para o primo. Este olhava para ambas.

— Aprovava? repetiu ele.

— Que dizes? disse a tia voltando-se para a moça.

— Farei o que titia quiser, respondeu Eugênia olhando para o chão.

— O que eu quiser, não, tornou D. Venância; mas confesso que aprovo, se for do teu
gosto.

— É? perguntou Marcos.

— Não sei, murmurou a moça.

A tia cortou a dificuldade dizendo que ela podia responder daí a quatro, seis ou oito dias.

— Quinze ou trinta, acudiu Marcos; um ou mais meses. Meu desejo é que fosse logo, mas
não desejo surpreender seu coração; prefiro que escolha com tranqüilidade. É assim que
nossa boa tia deseja também...

     D. Venância aprovou as palavras de Marcos, e deu à sobrinha dois meses. Eugênia não
disse sim nem não; mas no fim daquela semana declarou à tia que estava pronta a
receber o primo por esposo.

— Já! exclamou a tia, referindo-se à curteza do prazo da resposta.

— Já! respondeu Eugênia, referindo-se à data do casamento.

  E D. Venância, que o percebeu pelo tom, riu-se muito e deu a notícia ao sobrinho. O
casamento efetuou-se dai a um mês. As testemunhas foram D. Venância, Emílio e um
amigo da casa. O irmão do noivo parecia satisfeito com o resultado.

— Ao menos, dizia ele consigo, ficamos todos satisfeitos.

Marcos ficou morando em casa, de modo que nem retirava a companhia de Eugênia nem
a sua. D. Venância tinha assim uma vantagem mais.

— Agora o que é preciso é casar o Emílio, dizia ela.

— Por quê? perguntava Emílio.

— Porque é preciso. Meteu-se-me isso na cabeça.

       Emílio não ficou mais amigo da casa depois do casamento. Continuava a lá ir o menos
que podia. Com os anos, D. Venância ia ficando de uma ternura mais difícil de suportar,
pensava ele. Para compensar a ausência de Emílio, tinha ela o zelo e a companhia de
Eugênia e Marcos. Este era ainda o seu mestre e guia.
Um dia adoeceu deveras a sra. D. Venância; esteve um mês de cama, durante o qual os
dois sobrinhos casados não lhe saíram da cabeceira. Emílio ia vê-la, mas só fez quarto a
última noite, quando ela ficara delirante. Antes disso ia vê-la, e saía de lá muito contra a
vontade dela.

— Onde está o Emílio? perguntava de quando em quando.
— Já vem, diziam-lhe os outros.

O remédio que Emílio lhe dava era bebido sem hesitação. Sorria até.
— Pobre Emílio! vais perder tua tia.
— Não diga isso. Ainda vamos dançar uma valsa.
— No outro mundo, pode ser.

    A moléstia agravou-se; os médicos desenganaram a família. Mas antes do delírio, sua
última palavra foi ainda uma lembrança a Emílio; e quem a ouviu foi Marcos que
cabeceava de sono. Se quase não dormia!
Emílio não estava presente quando ela expirou. Morreu, enfim, sem nada dizer de suas
disposições testamentárias. Não era preciso; todos sabiam que ela tinha o testamento em
poder de um velho amigo de seu marido.

  D. Venância nomeou Emílio seu herdeiro universal. Aos outros sobrinhos deixou um
razoável legado. Marcos contava com uma divisão, em partes iguais, pelos três.
Enganara-se, e filosofou muito sobre o caso. Que havia feito o irmão para merecer
tamanha distinção? Nada; deixara-se amar apenas. D. Venância era a imagem da fortuna.

Publicado originalmente em Jornal das Famílias 1878

Morte acidental

          Enquanto ele falava, eu arrumava a churrasqueira até que todos viessem. Era uma típica festa de firma, onde as pessoas vão par...