15/01/2018

A Herança, Machado de Assis


      Venância tinha dois sobrinhos, Emílio e Marcos; o primeiro de vinte e oito, o segundo de
trinta e quatro anos. Marcos era o seu mordomo, esposo, pai, filho, médico e capelão. Ele
cuidava-lhe da casa e das contas, aturava os seus reumatismos e arrufos, ralhava-lhe às
vezes, brandamente, obedecia-lhe sem murmúrio, cuidava-lhe da saúde e dava-lhe bons
conselhos. Era um rapaz tranqüilo, medido, geralmente silencioso, pacato, avesso a
mulheres, indiferente a teatros, a saraus. Não se irritava nunca, não teimava, parecia não
ter opiniões nem simpatias. O único sentimento manifesto era a dedicação a D. Venância.
Emílio era em muitos pontos o contraste de Marcos, seu irmão. Primeiramente, era um
dândi, turbulento, frívolo, sedento de diversões, vivendo na rua e na casa dos outros,
dans le monde. Tinha cóleras, que duravam o tempo das opiniões; minutos apenas. Era
alegre, falador, expansivo, como um namorado de primeira mão. Gastava às mãos largas.
Vivia duas horas por dia em casa do alfaiate, uma hora em casa do cabeleireiro, o resto
do tempo na Rua do Ouvidor; salvo o tempo em que dormia em casa, que não era a
mesma casa de D. Venância, e o pouco em que ia visitar a tia. Exteriormente era um
elegante; interiormente era um bom rapaz, mas um verdadeiro bom rapaz.

      Não tinham pai nem mãe; Marcos era advogado; Emílio formara-se em medicina. Por um
alto sentimento de humanidade, Emílio não exercia a profissão; o obituário conservava o
termo médio usual. Mas, tendo um e outro herdado alguma coisa dos pais, Emílio mordia
razoavelmente a parte da herança, que aliás o irmão administrava com muito zelo.
Moravam juntos, mas tinham a casa dividida de maneira que não podiam tolher a
liberdade um do outro. Às vezes passavam-se três ou quatro dias sem se verem; e é justo
dizer que as saudades primeiro feriam Emílio do que ao irmão. Ao menos era ele quem,
depois de larga ausência, se assim podemos chamar-lhe, entrava mais cedo para casa a
esperar que Marcos viesse da casa de D. Venância.

— Por que não foste à casa de titia? perguntava Marcos, logo que ele dizia estar a
esperá-lo durante muito tempo.

      Emílio erguia os ombros, como rejeitando a idéia desse sacrifício voluntário. Depois,
conversavam, riam um pouco; Emílio referia anedotas, fumava dois charutos, e só se
levantava quando o outro confessava estar a cair de sono. Emílio, que não dormia antes
das três ou quatro, nunca tinha sono; lançava mão de um romance francês e ia devorá-lo
na cama até a hora habitual. Mas esse frívolo tinha ocasiões de seriedade; numa doença
do irmão, velou-lhe longos dias à cabeceira, com uma dedicação verdadeiramente
materna. Marcos sabia que ele o amava.

    Não amava, entretanto, a tia; se fosse mau, podia detestá-la; mas se não a detestava,
confessava intimamente que ela o aborrecia. Marcos, quando o irmão repetia isso, tratava
de o reduzir a melhor sentimento; e com tão boas razões que Emílio, não se atrevendo a
contestá-lo e não querendo sair de sua opinião, recolhia-se a um eloqüente silêncio. Ora, D. Venância encontrava essa repulsa, talvez pelo excesso mesmo de seu afeto. Emílio era o predileto de seus sobrinhos; ela adorava-o. A melhor hora do dia era a queele lhe destinava a ela. Na ausência falava de Emílio a propósito de qualquer coisa.
Geralmente o rapaz ia à casa da tia, entre as duas e três horas; raras vezes à noite. Que
alegria quando ele entrava! que afagos! que intermináveis carinhos!

— Vem cá, ingrato, senta-te aqui ao pé da velha. Como passaste de ontem?

— Bem, respondia Emílio sorrindo contrafeito.

— Bem, arremedava a tia; diz aquilo como se não fosse verdade. E quem sabe mesmo?

Tiveste alguma coisa?

— Nada, não tive nada.

— Pensei.

   D. Venância tranqüilizava-se; depois vinha um rosário de perguntas e outro de anedotas.
No meio de umas e outras, se via algum gesto de incômodo no sobrinho, interrompia-se
para perguntar se estava incomodado, se queria tomar alguma coisa. Mandava fechar as
janelas de onde supunha que vinha ar; fazia-o trocar de cadeira, se lhe parecia que a que
ele ocupava era menos cômoda. Esse excesso de cautelas e cuidados fatigavam o moço.
Ele obedecia passivamente, falava pouco, ou o menos que lhe era possível. Quando
resolvia sair, tornava-se perfidamente mais alegre e carinhoso, açucarava um
cumprimento, punha-lhe mesmo alguma coisa do coração, e despedia-se. D. Venância,
que ficava com essa impressão última, confirmava-se nos seus sentimentos a respeito de
Emílio, a quem proclamava o primeiro sobrinho deste mundo. Pela sua parte, Emílio
descia as escadas mais aliviado; e no coração, lá no mais fundo do coração, uma voz
secreta sussurrava estas palavras cruéis:

— Quer-me muito bem, mas é muito amoladora.

   A presença de Marcos era uma troca de papéis. A acariciada era ela. D. Venância tinha
seus momentos de enfado e de zanga, gostava de ralhar, de bater no próximo. Sua alma
era uma fonte de duas bicas, vertia mel por uma e vinagre pela outra. Sabia que o melhor
meio de aturar menos, era não imitá-la. Calava-se, sorria, aprovava tudo, com uma
docilidade exemplar. Outra vezes, conforme o assunto e a ocasião, reforçava os
sentimentos pessimistas da tia, e ralhava, não com igual veemência, porque ele estava
incapaz de a fingir, mas na conformidade das idéias dela. Presente a tudo, não esquecia,
no meio de um discurso de D. Venância, de lhe acomodar melhor o banquinho dos pés.
Sabia-lhe os hábitos, e ordenava as coisas de maneira que lhe não faltasse nada. Ele era
a Providência de D. Venância e o seu pára-raios. De mês em mês prestava-lhe contas; e
nessas ocasiões só uma alma forte podia resistir ao suplício. Cada aluguel trazia um
discurso; cada obra nova ou conserto produzia objurgatória. Ao cabo, D. Venância não
ficava com a menor idéia das contas, tão ocupada estava em desabafar o seu
reumatismo; e Marcos, se quisesse afrouxar um pouco a consciência, podia dar às contas
certa elasticidade. Não o fazia; era incapaz de o fazer.

    Quem dissesse que na dedicação de Marcos entrava um pouco de interesse, podia dormir
com a consciência tranqüila, pois não caluniava ninguém. Havia afeto, mas não havia só
isso. D. Venância possuía bons prédios, e tinha só três parentes.
O terceiro parente era uma sobrinha, que morava com ela, moça de vinte anos, graciosa,
doida por música e confeitos. D. Venância também a estimava muito, quase tanto como a
Emílio. Meditava até casá-la antes de morrer; e só tinha dificuldade em achar um noivo
digno da noiva.

Um dia, no meio de uma conversa com Emílio, aconteceu-lhe dizer:
— Quando te casares, adeus tia Venância!
Esta palavra foi um raio de luz.
— Casar! pensou ela, mas por que não com a Eugênia?

     Nessa noite não cuidou mentalmente de outras coisas. Marcos nunca a vira tão taciturna;
chegou a supor que ela estivesse zangada com ele. D. Venância não disse, durante essa
noite, mais de quarenta palavras. Olhava para Eugênia, lembrava-se de Emílio, e dizia
consigo:

— Mas como é que não lembrei disso há mais tempo? Nasceram um para o outro. São
bonitos, bons, jovens. — Só se ela tiver algum namoro; mas quem seria?

      No dia seguinte sondou a moça; Eugênia, que não pensava em ninguém, disse
francamente que trazia o coração como lho haviam dado. D. Venância exultou; riu-se
muito; jantou mais do que de costume. Restava sondar Emílio no dia seguinte.
Emílio respondeu a mesma coisa.
— Deveras! exclamou a tia.
— Pois então!

— Não gostas de nenhuma moça? não tens nada em vista?

— Nada.

— Tanto melhor! tanto melhor!

    Emílio saiu aturdido e um pouco vexado. A pergunta, a insistência, a alegria, tudo aquilo
tinha um ar pouco tranqüilizador para ele.

— Quererá casar comigo?

    Não perdeu muito tempo em conjecturas. D. Venância, que, com os seus sessenta anos,
receava qualquer surpresa da morte, apressara-se a falar diretamente à sobrinha. Era
difícil; mas D. Venância passava por ter um gênio original, que é a coisa mais vantajosa
que pode acontecer à gente, quando quer passar por cima de certas consideraeões.
Perguntou diretamente a Eugênia se estimaria casar com Emílio; Eugênia, que nunca
pensara em tal, respondeu que lhe era indiferente.
— Indiferente só? perguntou D. Venância.


— Posso casar.

— Sem vontade, sem gosto, só por obedecer?...

— Oh! não!

— Velhaca! Confessa que gostas dele.

       Eugênia não se lembrara disso; mas respondeu com um sorriso e baixou os olhos, gesto
que podia dizer muita coisa e nada. D. Venância interpretou-o como uma afirmativa,
talvez porque ela preferia a afirmativa. Quanto a Eugênia, ficou abalada com a proposta
da tia, mas não lhe durou muito o abalo; foi tocar música. De tarde pensou outra vez na
conversa que tivera, começou a lembrar-se de Emílio, foi ver o retrato dele que havia no
álbum. Realmente, entrou a parecer-lhe que gostava do moço. A tia, que o dizia, é porque
o percebera. Que admira? Um rapaz bonito, elegante, distinto. Era isso; devia amá-lo;
devia casar com ele.

     Emílio foi menos fácil de contentar-se. Quando a tia lhe deu a entender que havia uma
pessoa que o amava, teve um sobressalto; quando lhe disse que era uma moça, teve
outro. Céus! um romance! A imaginação de Emílio construiu logo vinte capítulos, cada
qual mais cheio de luas e miosótis. Enfim, soube que se tratava de Eugênia. A noiva não
era de desprezar; mas tinha o defeito de ser um santo de casa.

— E escusas de fazer essa cara, disse D. Venância; eu já percebi que gostas dela.

— Eu?
— Não; hei de ser eu.
— Mas, titia...
— Deixa-te de partes! Já percebi. Não me zango; pelo contrário, aprovo e até desejo.

    Emílio quis recusar de uma só vez; mas era difícil; tomou a resolução de contemporizar.
D. Venância, a muito custo, concedeu-lhe oito dias.

— Oito dias! exclamou o sobrinho.

— Em menos tempo fez Deus o mundo, redargüiu D. Venância sentenciosamente.

  Emílio sentiu que a coisa era um pouco dura de roer assim feita às pressas. Comunicou
suas impressões ao irmão. Marcos aprovou a tia.

— Também tu?

— Também. A Eugênia é bonita, gosta de ti; titia faz gosto. Que mais queres?

— Mas é que nunca pensei em semelhante coisa.

— Pois pensa agora. Em oito dias pensarás nela e talvez acabes por gostar... Acabas
com certeza.

— Que maçada!

— Não acho.

— É porque não é contigo.

— Se fosse era a mesma coisa.

— Casavas?

— No fim de oito dias.

— Admiro-te. Custa-me a crer que um homem se case, assim como faz uma viagem a
Vassouras.

— O casamento é uma viagem a Vassouras; não custa mais nem menos.

   Marcos disse ainda outras coisas mais, no sentido de animar o irmão. Ele aprovava o
casamento, não só porque Eugênia merecia, como porque era muito melhor que tudo
ficasse em casa.
Não interrompeu Emílio as suas visitas cotidianas; mas os dias passavam-se e ele não se
sentia mais disposto ao casamento. No sétimo dia, despediu-se da tia e da prima, com
uma cara lúgubre.

— Qual! dizia Eugênia; ele não casa comigo.

        No oitavo dia, D. Venância recebeu uma carta de Emílio, pedindo-lhe muitos perdões,
fazendo-lhe carícias sem fim, mas acabando por uma negativa franca.
D. Venância ficou desconsolada; tinha feito nascer esperanças no coração da sobrinha, e
não as podia realizar de nenhuma maneira. Chegou a ter um movimento de cólera contra
o rapaz, mas arrependeu-se dele até morrer. Um sobrinho tão amável! que recusava com
tão bons modos! Era pena que não aceitasse, mas se ele não amava, podia ela obrigá-lo
ao casamento?

Suas reflexões foram essas, tanto à sobrinha, que aliás não chorou, posto ficasse um
pouco triste, como ao sobrinho Marcos, que só tarde soubera da recusa do irmão.

— Aquilo é uma cabeça de vento! disse ele.

       D. Venância defendeu-o, como confessou que se acostumara à idéia de deixar Eugênia
casada e bem casada. Enfim não se pode forçar os corações. Isso mesmo repetiu ela
quando Emílio a foi ver daí a dias, um tanto envergonhado da recusa. Emílio, que
esperava achá-la no mais agudo de seus reumatismos, achou-a risonha como de
costume.

      Mas a recusa de Emílio não foi aceita tão filosoficamente pelo irmão. Marcos não achara
a recusa, nem bonita nem prudente. Era um erro e uma tolice. Eugênia era uma noiva
digna até de um sacrifício. Sim; tinha qualidades notáveis. Marcos atentou nelas. Viu que
efetivamente a moça não valia o modo por que o irmão a tratara. A resignação com que
aceitava a recusa era na verdade digna de respeito. Marcos simpatizou com esse
proceder. Não menos lhe doeu a dor da tia, que não alcançava realizar o desejo de deixar
Eugênia entregue a um bom marido.

— Que bom marido não podia ser ele?

     Marcos seguiu esta idéia com alma, com afinco, com desejo de acertar. Sua solicitude
dividiu-se entre Eugênia e D. Venância — o que era servir a D. Venância. Um dia
entestou com o assunto...

— Titia, disse ele, oferecendo-lhe torradinhas, eu desejava pedir-lhe um conselho.

— Tu? Pois tu pedes conselhos, Marcos?...

— Às vezes, redargüiu ele sorrindo.

— Que é?

— Se a prima Eugênia me aceitasse por marido, a senhora aprovava o casamento?

D. Venância olhou para Eugênia espantada, Eugênia, não menos espantada do que ela,
olhou para o primo. Este olhava para ambas.

— Aprovava? repetiu ele.

— Que dizes? disse a tia voltando-se para a moça.

— Farei o que titia quiser, respondeu Eugênia olhando para o chão.

— O que eu quiser, não, tornou D. Venância; mas confesso que aprovo, se for do teu
gosto.

— É? perguntou Marcos.

— Não sei, murmurou a moça.

A tia cortou a dificuldade dizendo que ela podia responder daí a quatro, seis ou oito dias.

— Quinze ou trinta, acudiu Marcos; um ou mais meses. Meu desejo é que fosse logo, mas
não desejo surpreender seu coração; prefiro que escolha com tranqüilidade. É assim que
nossa boa tia deseja também...

     D. Venância aprovou as palavras de Marcos, e deu à sobrinha dois meses. Eugênia não
disse sim nem não; mas no fim daquela semana declarou à tia que estava pronta a
receber o primo por esposo.

— Já! exclamou a tia, referindo-se à curteza do prazo da resposta.

— Já! respondeu Eugênia, referindo-se à data do casamento.

  E D. Venância, que o percebeu pelo tom, riu-se muito e deu a notícia ao sobrinho. O
casamento efetuou-se dai a um mês. As testemunhas foram D. Venância, Emílio e um
amigo da casa. O irmão do noivo parecia satisfeito com o resultado.

— Ao menos, dizia ele consigo, ficamos todos satisfeitos.

Marcos ficou morando em casa, de modo que nem retirava a companhia de Eugênia nem
a sua. D. Venância tinha assim uma vantagem mais.

— Agora o que é preciso é casar o Emílio, dizia ela.

— Por quê? perguntava Emílio.

— Porque é preciso. Meteu-se-me isso na cabeça.

       Emílio não ficou mais amigo da casa depois do casamento. Continuava a lá ir o menos
que podia. Com os anos, D. Venância ia ficando de uma ternura mais difícil de suportar,
pensava ele. Para compensar a ausência de Emílio, tinha ela o zelo e a companhia de
Eugênia e Marcos. Este era ainda o seu mestre e guia.
Um dia adoeceu deveras a sra. D. Venância; esteve um mês de cama, durante o qual os
dois sobrinhos casados não lhe saíram da cabeceira. Emílio ia vê-la, mas só fez quarto a
última noite, quando ela ficara delirante. Antes disso ia vê-la, e saía de lá muito contra a
vontade dela.

— Onde está o Emílio? perguntava de quando em quando.
— Já vem, diziam-lhe os outros.

O remédio que Emílio lhe dava era bebido sem hesitação. Sorria até.
— Pobre Emílio! vais perder tua tia.
— Não diga isso. Ainda vamos dançar uma valsa.
— No outro mundo, pode ser.

    A moléstia agravou-se; os médicos desenganaram a família. Mas antes do delírio, sua
última palavra foi ainda uma lembrança a Emílio; e quem a ouviu foi Marcos que
cabeceava de sono. Se quase não dormia!
Emílio não estava presente quando ela expirou. Morreu, enfim, sem nada dizer de suas
disposições testamentárias. Não era preciso; todos sabiam que ela tinha o testamento em
poder de um velho amigo de seu marido.

  D. Venância nomeou Emílio seu herdeiro universal. Aos outros sobrinhos deixou um
razoável legado. Marcos contava com uma divisão, em partes iguais, pelos três.
Enganara-se, e filosofou muito sobre o caso. Que havia feito o irmão para merecer
tamanha distinção? Nada; deixara-se amar apenas. D. Venância era a imagem da fortuna.

Publicado originalmente em Jornal das Famílias 1878

A Causa Secreta - Machado de Assis


A Causa Secreta,
de Machado de Assis

    Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço,
olhava para o tecto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha.
Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que
estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa
de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão
agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.


    Tinham falado também de outra cousa, além daquelas três, cousa tão feia e
grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de
saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os
dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia
uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou
foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da
situação.


   Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860,
estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da
Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda
assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois.
Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S.
Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês,
e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam
estender os passos até aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras,
apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele.

14/01/2018

A Cartomante - Machado de Assis

         Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que
sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço
Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na
véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui,
e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que
era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma
pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as,
e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não
era verdade...

— Errou! interrompeu Camilo, rindo.

— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua
causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...

     Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe
queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando
tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a;
disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...

— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.

— Onde é a casa?

— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião.
Descansa; eu não sou maluca.

Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.

     Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que
havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava,
paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é
que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
 
       Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões.
Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro
de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em
que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele,
como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e
logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê?
Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo
mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do
mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

     Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser
amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr
às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se
lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma
comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de
Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem
para a casa da cartomante.
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   Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das
origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a
carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que
queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a
mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da
província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e
veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo,
e foi a bordo recebê-lo.

13/01/2018

A Carteira - Machado de Assis

 A Carteira


...DE REPENTE, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e
guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta
de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:

-- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.

-- É verdade, concordou Honório envergonhado.

   Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar
amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A
dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as
quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser
piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar
à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta
cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou
pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro,
quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um
turbilhão perpétuo, uma voragem.

25/09/2017

Vem Kafka Comigo (segunda parte)




   Como já expus aqui, estive na sede do Tribunal Regional Eleitoral, tentava resolver "pendências" das quais não sabia da existência e seguir uma recomendação que me fora dada por e-mail. Pois bem, meus bens. Resolvi chegar cedo e me dirigi ao "andar" no qual meu processo estava sendo feito, mas por um malfado do destino resolvi que queria um pouco de café. O café em si era fácil de conseguir, haviam duas máquinas no setor, o problema foi conseguir o copo. 
 Na primeira parte desse impropério juridico-sentimental-aglosaxão-semiurbanizado-póscafeinistico estava conversando com Carlos, responsável pelo setor de almoxarifes, que me conseguiria o bendito copo. Depois de uma demora escarnecedora decidi que não queria mais café.  Relembrando, disse ao meu recém-conhecido: 
- Olha, eu estou atrasado. Muito obrigado pela atenção e disposição em ajudar, mas não preciso mais do copo. Vou tomar café quando sair daqui.
 - Espere. O senhor não pode ir...

O senhor não pode ir...

 - Ora, mas essa é boa. Por que diabos eu não posso ir?
 - Bem -disse-me o encarregado do demônio. O senhor assinou um requerimento pedindo os copos. 
 - Mas meu amigo, já lhe disse, não quero mais porcaria de copo nenhum - confessei, já com um pouco de raiva. Que eu esperasse por um copo que eu pedira vá lá, mas me obrigar a ficar em um lugar contra minha vontade, achei um despautério. 
 - Se o senhor sair sem o copo teremos um problema orçamentário gigantesco. Isso pode dar até processo, é melhor o senhor esperar. Ou então... 
 - Ou então oquê? Me diga, não posso esperar mais, já deveria ter saído daqui. 
 - O senhor deve pedir o cancelamento de seu requerimento. 
 - Ok, eu quero o cancelamento de meu requerimento. Muito obrigado. Vou ter que assinar alguma coisa novamente? Tudo bem, me passe os papéis.
 - Bem, mas o setor de cancelamentos é no quarto andar, não é aqui. 
 Creio que naquele instante algumas veias de meu corpo saltaram para fora. Não sou de frequentar muitos órgãos governamentais, esse vai-e-vem não me agradava nada. Mesmo assim achei desmedida a saga que deveria cumprir unicamente porque me achei no direito de beber um pouco de café. Já sem saber o que seria mais apropriado: se esperar o maldito copo ou ir atras do cancelamento. Acabei desistindo da espera, quando já ia saindo para pedir o cancelamento, que devia ser feito no quarto andar, o Carlos chega para mim correndo. 
 - Senhor, senhor! Aqui está o seu copo. 
 - Ora, muito obrigado. 
 Desci ao andar onde devia resolver meu problema, o terceiro, olhei copiosamente para a cafeteira. Tem um ditado chinês que diz que por mais insignificante que seja sua vitória, se lutou muito por isso, ela vai ter um sabor delicioso. 
 Enquanto enchia meu copinho com o café, que era expresso, daqueles com espuma e tudo, olhei ao redor, estranhamente não havia mais ninguém no setor. Pensei que todos deveriam estar dentro das suas salas resolvendo os assuntos administrativos do setor. Ledo engano. 
 Depois de ter saboreado o café fui tentar resolver o meu "assunto" com a justiça... e ... nada! Não tinha uma viva-alma naquele andar. Desci ao térreo e a atendente disse que o terceiro andar estava com um problema administrativo e que todos os funcionários tinham sido dispensados para "resolver o caso". 














16/09/2017

Vem Kafka Comigo (primeira parte)


 Alguns leitores desse mal-falado blog me perguntaram o porquê de minha sumida, sedentos por novos textos eles achavam incompreensível a minha atitude. Como forma de me desculpar e deixar registrado aqui minha saga, começo agora a série "Vem Kafka Comigo". Aqui vou descrever a "via-crusis" que fiz até chegar nesse momento no espaço-tempo.

10/04/2017

Muito Fósforo pra Pouco Governador

cronicas-da-cidade marcelo miranda tocantins palmas conto palito fosforo fogo

Pois então tá então, vamos a mais uma crônica da cidade? Vamos lá, amiguinhos? 


    Admito que hoje não tive muita paciência para os matutinos e preferi ler de bicada no Twitter. É impressionante a quantidade de coisa que a gente lê mas não aprimora, vendo apenas os títulos das matérias e uma fotinha com algum figurão. Esse foi o caso do M.M, ou para os que não são íntimos como eu, Marcelo Miranda.

    Pois bem, a história de M.M é a seguinte, é que na semana passada (dia 03-04-17) o danado publicou no Diário Oficial do Estado a compra de 3 milhões de palitos de fósforo. Um montante que custará aos cofres do Tocantins coisa perto de 45 mil reais. Para mim o valor é irrisório, é o que gasto com a gorjeta do garçom, mas não é que o pessoal resolveu fazer caso com os fósforos.  

   Então, a notícia é antiga, da semana passada, vocês devem  estar se perguntando porque estou contando essa história hoje. A razão é simples, é que somente hoje ela teve a repercussão nacional. Vejam aí, o nosso pacato Tocantins. Ah sim, tinha esquecido de falar que M.M é o governador do estado do Tocantins, e escrevo efetivamente, do estado do Tocantins. Amigos de fora do estado vão dizer que sou um índio, e não pego ar, não, só lembro que as flechas daqui tem veneno. Enfim, que dizia? Vamos dar quebra de linha para seguir as regras interneticas.

  Pois bem, nosso amigo Marcelo Miranda comprou tantos fósforos que daria para colocar fogo em todo o cerrado. Alguns dizem que estão esquentando demais a cabeça com isso, cuidado pra não queimar! 

  Seu Maneu, homem de pouco estudo e muita sabedoria, disse que o M.M anda "pitando demais", ele disse que fósforo mesmo só se for pra pitar. Pra acender fogo ou fazer comida pra ele é mais adequado o bom e velho isqueiro mesmo. O tempo de um palito de fósforo, no entanto, é ideal para acender o cigarrinho. Para Seu Maneu é o melhor para dar combustão no "paiero". 

   Sem muito mais para hoje, me despeço por aqui, dando vivas ao nosso governador que sabe o que é prioridade no orçamento do Estado.




Morte acidental

          Enquanto ele falava, eu arrumava a churrasqueira até que todos viessem. Era uma típica festa de firma, onde as pessoas vão par...