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Vem Kafka Comigo (segunda parte)




   Como já expus aqui, estive na sede do Tribunal Regional Eleitoral, tentava resolver "pendências" das quais não sabia da existência e seguir uma recomendação que me fora dada por e-mail. Pois bem, meus bens. Resolvi chegar cedo e me dirigi ao "andar" no qual meu processo estava sendo feito, mas por um malfado do destino resolvi que queria um pouco de café. O café em si era fácil de conseguir, haviam duas máquinas no setor, o problema foi conseguir o copo. 
 Na primeira parte desse impropério juridico-sentimental-aglosaxão-semiurbanizado-póscafeinistico estava conversando com Carlos, responsável pelo setor de almoxarifes, que me conseguiria o bendito copo. Depois de uma demora escarnecedora decidi que não queria mais café.  Relembrando, disse ao meu recém-conhecido: 
- Olha, eu estou atrasado. Muito obrigado pela atenção e disposição em ajudar, mas não preciso mais do copo. Vou tomar café quando sair daqui.
 - Espere. O senhor não pode ir...

O senhor não pode ir...

 - Ora, mas essa é boa. Por que diabos eu não posso ir?
 - Bem -disse-me o encarregado do demônio. O senhor assinou um requerimento pedindo os copos. 
 - Mas meu amigo, já lhe disse, não quero mais porcaria de copo nenhum - confessei, já com um pouco de raiva. Que eu esperasse por um copo que eu pedira vá lá, mas me obrigar a ficar em um lugar contra minha vontade, achei um despautério. 
 - Se o senhor sair sem o copo teremos um problema orçamentário gigantesco. Isso pode dar até processo, é melhor o senhor esperar. Ou então... 
 - Ou então oquê? Me diga, não posso esperar mais, já deveria ter saído daqui. 
 - O senhor deve pedir o cancelamento de seu requerimento. 
 - Ok, eu quero o cancelamento de meu requerimento. Muito obrigado. Vou ter que assinar alguma coisa novamente? Tudo bem, me passe os papéis.
 - Bem, mas o setor de cancelamentos é no quarto andar, não é aqui. 
 Creio que naquele instante algumas veias de meu corpo saltaram para fora. Não sou de frequentar muitos órgãos governamentais, esse vai-e-vem não me agradava nada. Mesmo assim achei desmedida a saga que deveria cumprir unicamente porque me achei no direito de beber um pouco de café. Já sem saber o que seria mais apropriado: se esperar o maldito copo ou ir atras do cancelamento. Acabei desistindo da espera, quando já ia saindo para pedir o cancelamento, que devia ser feito no quarto andar, o Carlos chega para mim correndo. 
 - Senhor, senhor! Aqui está o seu copo. 
 - Ora, muito obrigado. 
 Desci ao andar onde devia resolver meu problema, o terceiro, olhei copiosamente para a cafeteira. Tem um ditado chinês que diz que por mais insignificante que seja sua vitória, se lutou muito por isso, ela vai ter um sabor delicioso. 
 Enquanto enchia meu copinho com o café, que era expresso, daqueles com espuma e tudo, olhei ao redor, estranhamente não havia mais ninguém no setor. Pensei que todos deveriam estar dentro das suas salas resolvendo os assuntos administrativos do setor. Ledo engano. 
 Depois de ter saboreado o café fui tentar resolver o meu "assunto" com a justiça... e ... nada! Não tinha uma viva-alma naquele andar. Desci ao térreo e a atendente disse que o terceiro andar estava com um problema administrativo e que todos os funcionários tinham sido dispensados para "resolver o caso". 














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