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Vem Kafka Comigo (primeira parte)


 Alguns leitores desse mal-falado blog me perguntaram o porquê de minha sumida, sedentos por novos textos eles achavam incompreensível a minha atitude. Como forma de me desculpar e deixar registrado aqui minha saga, começo agora a série "Vem Kafka Comigo". Aqui vou descrever a "via-crusis" que fiz até chegar nesse momento no espaço-tempo.


Outro dia fui chamado pela justiça eleitoral, disseram para mim comparecer ao Tribunal Regional Eleitoral. Nenhuma informação adicional foi exposta pelo órgão. No e-mail encaminhado para mim, havia apenas a inscrição de que "informações adicionais serão dadas pessoalmente". 

 Conjecturei durante algum tempo sobre o que seria essa convocação inesperada, porquê não me ligaram ou ainda se eu teria feito alguma coisa. Deixado de votar, não pago as multas ou qualquer outra coisa concernente á Justiça Eleitoral, não sei. 
  Quando cheguei ao prédio do Tribunal fui logo atendido por uma mocinha que ora falava comigo, ora falava ao celular. Ela perguntou como poderia me ajudar. Disse-lhe.
 - O senhor deve procurar o setor de cobranças e multas no terceiro andar. 
 Logo perdi a descrença. Então era mesmo uma multa! Mas porque não enviaram no próprio e-mail? Qual a necessidade de comparecer pessoalmente para pagar um boleto? Fui atrás do setor.
  O terceiro andar era um lugar movimentado, tinham duas máquinas de café no corredor. Decidi que iria tomar um pouco de café. A máquina estava lá, mas e o copo? Indaguei a um senhor como fazia para tomar o café. 
   - Vou chamar minha assistente para lhe ajudar. 
  - Não é necessário, é só me dizer onde ficam os copos. 
   O homem, sem prestar atenção no que eu dizia, falou a um rapazinho, que parecia ser um estagiário para chamar a  mulher. Este desapareceu antes que eu pudesse lhe dizer que só queria um copo.
 - Olá bom dia! Meu nome é Elisângela. Como posso lhe ajudar- me falou a mulher, eu pensei que estivesse em uma conversa com uma atendente de telemarketing.
 - Olha, não é nada. É que eu estou querendo tomar um café e não há copos aqui.
 - O senhor aguarde um instante que vou chamar alguém do setor de almoxarifado.
 - Moça, não quero dar trabalho. Eu só queria saber onde posso arrumar um copo.
 Já estava desistindo de tomar o café, foi quando uma senhora do almoxarifado apareceu e pediu que eu lhe acompanhasse. Não sei se a forma como ela chamou ou porque já tinha envolvido muita gente no caso, só sei que me senti compelido a ir, e fui.
 Chegando no setor de almoxarifes a moça disse para mim sentar e esperar pelo Carlos, que era o encarregado dos copos. Fiquei me perguntando se o tal Carlos fazia outra coisa além de ser "o encarregado dos copos". O Carlos não demorou muito a chegar, mas veio com um formulário para mim assinar.
 - Precisa assinar isso para podermos liberar os copos.
 - Mas eu não trabalho aqui, só quero "um" copo, só para tomar café e resolver o que tenho para resolver. Tenho que ir para o terceiro andar.
 - Por favor assine para que eu libere o copo para o senhor.
 Mais uma vez relutei em assinar, li o protocolo, lá dizia que eu estava requisitando um copo do setor de almoxarife, constava no documento a hora e a data da solicitação. Aquela situação não era nada habitual para mim, não costumo assinar papéis ou coisas do tipo e honestamente, fico um pouco cabreiro ao ter que colocar meu nome em qualquer tipo de papel.
 Depois de entregar o papel para o senhor dos copos, ele entrou numa sala, de longe eu conseguia ver os copos. Tive uma surpresa quando Carlos voltou de lá sem nenhum. Ele me informou que tinham vários tipos de copos lá: os pequenos, os médios e os grandes e que não poderia abrir sem a autorização de seu superior, que era quem decidia quais copos deveriam ser usados.
 - Olha, eu estou atrasado. Muito obrigado pela atenção e disposição em ajudar, mas não preciso mais do copo. Vou tomar café quando sair daqui.
 - Espere. O senhor não pode ir...


Segunda Parte

















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ISBN 85 08 00123 1
1998
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