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Uma banana como Merenda, Nelson Rodrigues


Eu e o Hélio Pellegrino temos um amigo que é o que se chama um
erudito. E o pior é que se trata de um caso recente e diria mesmo de
fulminante erudição. A princípio suspeitei de uma deslavada escroqueria
intelectual. E aqui começa o mistério que desafia todo o meu raciocínio e
toda a minha intuição. Do dia para a noite o semi-analfabeto aprendeu não
sei quantos idiomas.
Já não digo francês, que todos falam, menos eu. Não. O rapaz
declamava Goethe em puríssimo alemão. E, certa noite, passei pelo seu
quarto, na praça Onze (ele mora no alto, junto à clarabóia, como no tempo
de Paulo de Koch). Entro e o surpreendo, no meio de três ou quatro, em pé,
recitando o padre-nosso em grego. Saí dali e fui ligar para o Hélio
Pellegrino. Disse-lhe, sinceramente esmagado: — “Hélio, nós somos dois
analfabetos!”.
Eu e o Hélio, cada vez mais inferiorizados, temos seguido pelos
jornais a carreira de tão vasta e súbita erudição. E eu fico a resmungar, na
irritação da minha impotência: “Como sabe! Como lê! Como cita!”. Até que,
de repente, baixou-me uma luz e descobri toda a fragilidade daquela
monstruosa estrutura. Aquilo era uma catedral de pauzinhos de fósforos,
sim, um gótico de palitos.
Certa manhã, fui para a máquina e bati minha primeira carta
anônima. Se bem me lembro, dizia mais ou menos o seguinte: — “Leia
pouco, pelo amor de Deus, leia pouco!”. E assim, nesse tom de salubérrimo
descaro, fui dizendo tudo. Aconselhei-o a voltar ao Dumas pai, a Ponson Du
Terrail, a Michel Zevaco, Eugène Sue e outros folhetinistas de boa cepa.
Acabei a carta, enfiei-a no envelope e tive a desfaçatez de mandá-la
registrada.
Agora, a revelação: — em que pese o evidente traço caricatural, não

estou longe de pensar assim. Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se
ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos
livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É
preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o
leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três
desertos.
Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me:
“O que é que você leu?”. Respondi: “Dostoievski”. Ele queria me atirar na
cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: “Que mais?”. E eu:
“Dostoievski”. Teimou: “Só?”. Repeti: “Dostoievski”. O sujeito, aturdido
pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu
queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma
única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo
livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na
primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais
abismal do que a releitura.
(Divaguei demais e desculpem.) De Dostoievski passo à minha
infância. Há bastante de Dostoievski, bastante de Dickens, na rua Alegre, em
Aldeia Campista. Não será a pura semelhança episódica, Não. É uma
semelhança, digamos assim, de atmosfera. Sinto que parte de minha infância
está inserida, difusa, volatilizada em certas páginas de Dickens ou
Dostoievski. Por exemplo: — eu poderia fazer, com minha passagem pela
escola pública, uma antologia de humilhações. (Está comigo, enterrado em
mim, um perene menino humilhado.)
A escola era bem na esquina da rua Alegre com Maxwell. (Quando
Lili morreu, eu achava absurda a vida sem Lili. Lembro-me de que, depois
do enterro, eu mudava de calçada para não passar pela sua porta.) Comecei
a sofrer no recreio. Já disse que levava para a escola, como merenda, uma
imutável banana. No primeiro dia, bateu a sineta do recreio e lá fui eu. O
pátio se inundou de meninos e meninas. Apanhei a banana e, sem pressa,
comecei a descascá-la. Fazia isso meio solene, como se descascar banana
exigisse uma técnica, uma arte, não sei que virtuosismo.
Descascada a banana, eu não a mastigava imediatamente. Não. Com
delicada paciência, punha-me a chupá-la, como hoje se faz com o Chicabon.
E, ao mesmo tempo, olhava para os outros meninos. Não sei por que, o fato é

que, no primeiro e segundo dias de escola, tive orgulho, vaidade da banana.
Olhava para os garotos, como se dissesse: “Eu tenho uma banana. Estou
comendo uma banana”. Mas já o primeiro dia deu-me para perceber que
havia toda uma fauna de merendas prodigiosas.
Lembro-me de que uma das minhas invejas mortais foi um garoto, já
taludo. (Eu era miúdo e tinha vergonha da minha cabeça grande.) Trouxe a
merenda embrulhada em papel de pão e amarrada com barbante. Desfez o
nó do barbante e abriu o papel: — então, eu a vi. Era um sanduíche de pão
com ovo. Pão com ovo. O menino pôs-se a comer. A gema escorria-lhe da
boca como uma baba amarela. E outros garotos e garotas levavam sanduíches de goiabada, de queijo, de bife; havia uma menina que levava
biscoitos numa latinha.
No terceiro dia, comecei a ter vergonha da banana. Fosse prata, ou
maçã, mas era banana. Nasceu em mim, então, a utopia do sanduíche de
ovo. Se eu levasse um, havia de comê-lo no meio do recreio, com todos
olhando; e deixaria a gema escorrer pelo queixo. Ao mesmo tempo que me
envergonhava da banana, tinha-lhe pena. Pena da banana. De vez em
quando, faltava dinheiro em casa. Banana custava um vintém. E eu ia para a
escola sem merenda. Na hora do recreio, rodava pelo pátio, errante e
perdido de fome.
Já contei o episódio das orelhas sujas. Mas não foi só. De vez em
quando a professora me apontava como um exemplo: — “Não quero
menino sujo na minha classe. Já basta o Nelson”. As meninas me olhavam e
eu tinha de novo o sentimento de nudez pública. Até que, um dia, estava eu
no meu banco, que era o último (eu me sentava embaixo de uma janela). E,
de repente, ouço a voz da professora: — “Menino, não coça a cabeça!”. Eu
devia estar entretido no meu sonho. A professora bate com a régua na mesa:
— “Nelson! Não está me ouvindo? Levante-se! De castigo, já! Ali, fica ali!
Aí!”.
Saí eu, lá do fundo, assombrado, e vim atravessando toda a classe.
Dizia, chorando: — “Eu não ouvi a senhora me chamar!”. E ela: — “Menino
insubordinado!”. Estou de frente para o quadro-negro, de costas para a
classe. E ela: — “Vira, vira! Fica de frente!”. Estou cara a cara com os outros.
Ela ainda continua: “Parece que tem o bicho carpinteiro, esse menino!”. E,
súbito, muda de tom. Pergunta: — “Por que é que você coça tanto a cabeça?

Vem cá. Chega aqui. Pode vir”. Eu me chego. Ela está dizendo, quase doce:
— “Está com medo? Eu não vou te fazer nada, Nelson. Vem, meu filho!”. E
completa, rápida, cortante: — “Quero só examinar tua cabeça”. Paro: —
“Não, não!”. Mas ela vem me buscar; sou arrastado: — “Fica quieto, fica
quieto!”. Imobiliza a minha cabeça. Sinto seus dedos enfiados nos meus
cabelos. E, de repente, o berro: — “Não disse?”. Vira-se para a classe: — “Eu
sabia! Eu sabia! Tem piolhos, lêndeas!”. Levou-me para a sala da diretora: —
“Esse menino não pode ficar com os outros! Pega piolho nos outros!”. A
diretora, de óculos e papada, fez uma boquinha de nojo. Depois da aula,
levei para casa um bilhete da professora. E mudei de calçada para não
passar pela porta de Lili.
[15/12/1967]
  

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