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Lili ardeu como uma estrela, Nelson Rodrigues

LILI ARDEU COMO UMA ESTRELANinguém confessa virtudes e repito: — a simples confissão de
virtudes não interessa nem ao padre, nem ao psicanalista e nem ao médium,
depois da morte. No caso particular desta série, não interessaria ao grande
público. Meus leitores, se é que os tenho, acompanham minhas confissões
com a mais cruel das expectativas. Ainda ontem, um colega, tomando
cafezinho comigo, perguntou-me, mexendo a xícara: — “Quando é que vais
confessar tuas abjeções, tuas indignidades?”.
O amigo dizia isso num tom alegre ou, melhor dizendo, falsamente
alegre, frívolo e afetuoso. E, de fato, ou o sujeito confessa uma torpeza ou
não está confessando nada. Por exemplo: — eu ia começar o capítulo de hoje
dizendo o seguinte: — “A pior forma de solidão é a companhia de Flávio
Rangel”. Tive este achado maligno e, ao mesmo tempo, comecei a questionar
comigo mesmo. Por que Flávio Rangel, se provei muito pouco de sua
companhia, muito pouco de sua solidão?
Eis a verdade: — conheço o jovem diretor teatral muito de passagem.
Quase diria que a nossa relação pessoal se faz, escassamente, na base de um
“olá”, de um “como vai?”, de um “tudo
OK?”. Fora esse cumprimento de
café, esquina e bar, não há mais nada entre nós. Minto: — há. Existe algo
mais.
É a irritação. E essa irritação vale como um vínculo mais denso e mais
ativo. (Não sei se também o irrito.) De vez em quando começo a especular:
— por que me irritaria Flávio Rangel? Será a sua simples figura? É um rapaz,
mas tem os cabelos brancos, como se ele próprio os repassasse de alvaiade.
Não seria isso a origem da minha pobre e corrosiva irritação. Já sei: ele opera
na minha área, que é o teatro. Sim, diante de mim, está o teatro, como um
horizonte obsessivo e devorador.
(Mais para a frente contarei as minhas fundas e inconsoláveis

frustrações dramáticas.) Ao mesmo tempo, sei que Flávio Rangel, como o
Carlinhos de Oliveira, é de uma fragilidade crispada, indefesa e — penso,
penso e descubro a palavra — lancinante. O êxito, o brilho, os rompantes, as
poses, tudo, tudo é um disfarce de uma orfandade sem esperança (como a
do Carlinhos de Oliveira).
E eu ia falar da aridez de sua companhia, acrescentando mais ou
menos o seguinte: — Flávio Rangel é diretor, não de teatro, mas de préstito
carnavalesco. Devia fazer o carro-chefe dos Fenianos ou Tenentes e desfilar
de cartola, na terça-feira gorda etc. etc. Eu ia dizer isso e mais, muito mais.
Ocorreu, porém, uma coincidência: — o Cony bate o telefone para mim.
Conversa daqui, dali, e o amigo me conta uma passagem de Flávio Rangel.
Um pequeno incidente que, entretanto, deu uma dimensão inesperada ao
jovem diretor. E, então, descobri que ele tem um coração mais puro e mais
atormentado do que se imagina. Em capítulo posterior direi como o artista
agiu e reagiu no episódio referido.
E assim, às pressas, tive que recriar, que pintar, que vestir, que calçar
um novo Flávio Rangel. Mas tenho um compromisso com o assunto anterior
e volto a Lili. Parei nos seus gritos. Ela gritava e ninguém se espantou. O que
cada um imaginou é que Lili estava apanhando de cinto, como das outras
vezes. Mas nem sempre foi de cinto. Numa das surras o velho deu-lhe uma
moeda e disse: — “Vai comprar uma vara de marmelo”. E, naquele dia, Lili
apanhou com uma vara comprada por ela mesma.
Eu soube, depois, que a menina adorava o pai. Dizia uma tia surda
que fazia o serviço da casa: — “É Deus no céu e o pai na Terra”. Nem se
pense que os vizinhos tinham pena de Lili e raiva do pai. Absolutamente, ou
por outra: — o único ódio da rua contra ele era o meu. O resto achava que o
Fulano estava absolutamente certo. Lembro-me de alguém dizendo, lá em
casa: — “Um pai tem que exemplar”. O homem vinha para a calçada e não
fazia segredo: — “Prefiro ver minha filha morta”. Pausa e continuava: —
“Prefiro ver minha filha no caixão. Com tuberculoso não casa”. Lili,
presente, baixava a vista, no enleio dos seus dezesseis anos.
(Em 1918, não havia família sem surras.) Lembro-me de um garoto, já
taludo, que apanhava de chicote; um outro, de bengala; e as meninas, as
mocinhas, de chinelo ou também de bengala e também de chicote. Duas,
três, quatro gerações já são passadas. E, outro dia, passo na casa de um

amigo que me daria uma carona de carro. O amigo batia boca com o filho,
um morenão, solidamente belo como um havaiano de filme. O rapaz queria
um automóvel. Não trabalhava e queria um Fusca. O pai perdeu a cabeça: —
“Olha que eu te...”. Nem precisou completar. O filho encheu o tórax: —
“Papai, fala mas não me encosta a mão. Se me encostar a mão, te parto a
cara”. Disse isso e abandonou a sala (e, ainda por cima, mascava chiclete). A
mãe, presente, não disse uma palavra. Nem o pai, nem eu. E, súbito, o meu
amigo corre para a janela. Pensei que fosse se matar. As golfadas vinham,
tremendas. Lá do alto, do décimo andar, ele vomitou em cima das crianças
que brincavam cá embaixo.
E Lili que, depois de cada surra, repetia, num gemido manso: —
“Papaizinho, papaizinho”. Mas repito: — naquela noite, Lili começou a
gritar. Paulinho Varanda, na esquina, pensou no velho brabo. Mas o pai
saíra para a sessão espírita. No portão lá de casa, o lábio tremendo, eu tinha
vontade de atirar uma pedra na cabeça do pai. De repente, a tia surda chega
na janela; esganiçou-se: — “Lili está morrendo! Lili está morrendo!”. Foi, por
toda a rua, um corre-corre. E quando os primeiros chegaram, a própria
menina irrompia, em fogo. Ensopara o vestido em querosene, riscara um
fósforo e agora ardia como uma estrela. Viu o Paulinho e correu para ele.
Mas o rapaz, na agilidade do pânico, deu um furioso salto para trás. Alguém
veio, por trás, e abafou as chamas com um cobertor.
Foi levada para o quarto. Do armazém, da farmácia, ligaram para a
Assistência. Mas, quando a ambulância chegou, estava morta. Eu me lembro
do Paulinho Varanda. As espinhas explodiam na sua cara. Vejo também a
entrada do pai no quarto. Posteriormente, toda a rua o chamou de “forte”,
porque não teve uma lágrima. Limitou-se a dizer ou, por outra, a declamar,
de fronte alta: — “Foi Deus, foi Deus”. Na cama, a gordura escorria, varava
o colchão e pingava no soalho. A tia surda percebeu e pôs uma bacia debaixo
da cama. E. por muito tempo, aquela goteira ficou tinindo na bacia. Lili foi
minha primeira paixão. E morreu negra.
[13/12/1967]
  

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