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D.Paula, Machado de Assis


    Não era possível chegar mais a ponto. D. Paula entrou na sala exatamente quando
a sobrinha enxugava os olhos cansados de chorar. Compreende-se o assombro da
tia. Entender-se-á também o da sobrinha, em se sabendo que D. Paula vive no
alto da Tijuca, donde raras vezes desce; a última foi pelo Natal passado, e
estamos em maio de 1882.
 
    Desceu ontem, à tarde, e foi para casa da irmã, Rua
do Lavradio. Hoje, tão depressa almoçou, vestiu-se e correu a visitar a sobrinha. A
primeira escrava que a viu, quis ir avisar a senhora, mas D. Paula ordenou-lhe que
não, e foi pé ante pé, muito devagar, para impedir o rumor das saias, abriu a
porta da sala de visitas, e entrou.

— Que é isto? exclamou.

Venancinha atirou-se-lhe aos braços, as lágrimas vieram-lhe de novo. A tia beijoua muito, abraçou-a, disse-lhe palavras de conforto, e pediu, e quis que lhe
contasse o que era, se alguma doença, ou...

— Antes fosse uma doença! antes fosse a morte! interrompeu a moça.

— Não digas tolices; mas que foi? anda, que foi?

     Venancinha enxugou os olhos e começou a falar. Não pôde ir além de cinco ou seis
palavras; as lágrimas tornaram, tão abundantes e impetuosas, que D. Paula achou
de bom aviso deixá-las correr primeiro. Entretanto, foi tirando a capa de rendas
pretas que a envolvia, e descalçando as luvas. Era uma bonita velha, elegante,
dona de um par de olhos grandes, que deviam ter sido infinitos.
 Enquanto a sobrinha chorava, ela foi cerrar cautelosamente a porta da sala, e voltou ao
canapé. No fim de alguns minutos, Venancinha cessou de chorar, e confiou à tia o
que era.

    Era nada menos que uma briga com o marido, tão violenta, que chegaram a falar
de separação. A causa eram ciúmes. Desde muito que o marido embirrava com
um sujeito; mas na véspera à noite, em casa do C..., vendo-a dançar com ele
duas vezes e conversar alguns minutos, concluiu que eram namorados. Voltou
amuado para casa; de manhã, acabado o almoço, a cólera estourou, e ele disselhe coisas duras e amargas, que ela repeliu com outras.

— Onde está teu marido? perguntou a tia.

— Saiu; parece que foi para o escritório.

     D. Paula perguntou-lhe se o escritório era ainda o mesmo, e disse-lhe que

descansasse, que não era nada; dali a duas horas tudo estaria acabado. Calçava
as luvas rapidamente.

— Titia vai lá?

— Vou... Pois então? Vou. Teu marido é bom, são arrufos. 104? Vou lá; espera por
m
im, que as escravas não te vejam.

   Tudo isso era dito com volubilidade, confiança e doçura. Calçadas as luvas, pôs o
mantelete, e a sobrinha ajudou-a, falando também, jurando que, apesar de tudo,
adorava o Conrado. Conrado era o marido, advogado desde 1874. D. Paula saiu,
levando muitos beijos da moça. Na verdade, não podia chegar mais a ponto. De
caminho, parece que ela encarou o incidente, não digo desconfiada, mas curiosa,
um pouco inquieta da realidade positiva; em todo caso ia resoluta a reconstruir a
paz doméstica.

    Chegou, não achou o sobrinho no escritório, mas ele veio logo, e, passado o
primeiro espanto, não foi preciso que D. Paula lhe dissesse o objeto da visita;
Conrado adivinhou tudo. Confessou que fora excessivo em algumas coisas, e, por
outro lado, não atribuía à mulher nenhuma índole perversa ou viciosa. Só isso; no
mais, era uma cabeça de vento, muito amiga de cortesias, de olhos ternos, de
palavrinhas doces, e a leviandade também é uma das portas do vício. Em relação
à pessoa de quem se tratava, não tinha dúvida de que eram namorados.

     Venancinha contara só o fato da véspera; não referiu outros, quatro ou cinco, o
penúltimo no teatro, onde chegou a haver tal ou qual escândalo. Não estava
disposto a cobrir com a sua responsabilidade os desazos da mulher. Que
namorasse, mas por conta própria.

     D. Paula ouviu tudo, calada; depois falou também. Concordava que a sobrinha
fosse leviana; era próprio da idade. Moça bonita não sai à rua sem atrair os olhos,
e é natural que a admiração dos outros a lisonjeie. Também é natural que o que
ela fizer de lisonjeada pareça aos outros e ao marido um princípio de namoro: a
fatuidade de uns e o ciúme do outro explicam tudo. 

Pela parte dela, acabava de ver a moça chorar lágrimas sinceras, deixou-a consternada, falando de morrer, abatida com o que ele lhe dissera. E se ele próprio só lhe atribuía leviandade, por
que não proceder com cautela e doçura, por meio de conselho e de observação,
poupando-lhe as ocasiões, apontando-lhe o mal que fazem à reputação de uma
senhora as aparências de acordo, de simpatia, de boa vontade para os homens?

    Não gastou menos de vinte minutos a boa senhora em dizer essas coisas mansas,
com tão boa sombra, que o sobrinho sentiu apaziguar-se-lhe o coração. Resistia, é
verdade; duas ou três vezes, para não resvalar na indulgência, declarou à tia que
entre eles tudo estava acabado. E, para animar-se, evocava mentalmente as
razões que tinha contra a mulher. A tia, porém, abaixava a cabeça para deixar
passar a onda, e surgia outra vez com os seus grandes olhos sagazes e teimosos.
Conrado ia cedendo aos poucos e mal. Foi então que D. Paula propôs um meio termo.

— Você perdoa-lhe, fazem as pazes, e ela vai estar comigo, na Tijuca, um ou dois
meses; uma espécie de desterro. Eu, durante este tempo, encarrego-me de lhe
pôr ordem no espírito. Valeu?

     Conrado aceitou. D. Paula, tão depressa obteve a palavra, despediu-se para levar
a boa nova à outra, Conrado acompanhou-a até à escada. Apertaram as mãos; D.
Paula não soltou a dele sem lhe repetir os conselhos de brandura e prudência;
depois, fez esta reflexão natural:

— E vão ver que o homem de quem se trata nem merece um minuto dos nossos
cuidados...

— É um tal Vasco Maria Portela...

      D. Paula empalideceu. Que Vasco Maria Portela? Um velho, antigo diplomata,
que... Não, esse estava na Europa desde alguns anos, aposentado, e acabava de
receber um título de barão. Era um filho dele, chegado de pouco, um pelintra... D.
Paula apertou-lhe a mão, e desceu rapidamente. No corredor, sem ter necessidade
de ajustar a capa, fê-lo durante alguns minutos, com a mão trêmula e um pouco
de alvoroço na fisionomia.
     Chegou mesmo a olhar para o chão, refletindo. Saiu, foi
ter com a sobrinha, levando a reconciliação e a cláusula. Venancinha aceitou tudo.
Dois dias depois foram para a Tijuca. Venancinha ia menos alegre do que
prometera; provavelmente era o exílio, ou pode ser também que algumas
saudades. Em todo caso, o nome de Vasco subiu a Tijuca, se não em ambas as
cabeças, ao menos na da tia, onde era uma espécie de eco, um som remoto e
brando, alguma coisa que parecia vir do tempo da Stoltz e do ministério Paraná.
Cantora e ministério, coisas frágeis, não o eram menos que a ventura de ser
moça, e onde iam essas três eternidades? 

      Jaziam nas ruínas de trinta anos. Era tudo o que D. Paula tinha em si e diante de si.
Já se entende que o outro Vasco, o antigo, também foi moço e amou. Amaram-se,
fartaram-se um do outro, à sombra do casamento, durante alguns anos, e, como
o vento que passa não guarda a palestra dos homens, não há meio de escrever
aqui o que então se disse da aventura. A aventura acabou; foi uma sucessão de
horas doces e amargas, de delícias, de lágrimas, de cóleras, de arroubos, drogas
várias com que encheram a esta senhora a taça das paixões. D. Paula esgotou-a
inteira e emborcou-a depois para não mais beber. A saciedade trouxe-lhe a
abstinência, e com o tempo foi esta última fase que fez a opinião. Morreu-lhe o
marido e foram vindo os anos. D. Paula era agora uma pessoa austera e pia, cheia
de prestígio e consideração.

     A sobrinha é que lhe levou o pensamento ao passado. Foi a presença de uma
situação análoga, de mistura com o nome e o sangue do mesmo homem, que lhe
acordou algumas velhas lembranças. Não esqueçam que elas estavam na Tijuca,
que iam viver juntas algumas semanas, e que uma obedecia à outra; era tentar e
desafiar a memória.

— Mas nós deveras não voltamos à cidade tão cedo? perguntou Venancinha rindo,
no outro dia de manhã.

— Já estás aborrecida?

— Não, não, isso nunca, mas pergunto...

   D. Paula, rindo também, fez com o dedo um gesto negativo; depois, perguntoulhe se tinha saudades cá de baixo. Venancinha respondeu que nenhumas; e para
dar mais força à resposta, acompanhou-a de um descair dos cantos da boca, a
modo de indiferença e desdém. Era pôr demais na carta, D. Paula tinha o bom
costume de não ler às carreiras, como quem vai salvar o pai da forca, mas
devagar, enfiando os olhos entre as sílabas e entre as letras, para ver tudo, e
achou que o gesto da sobrinha era excessivo.

"Eles amam-se!" pensou ela.

      A descoberta avivou o espírito do passado. D. Paula forcejou por sacudir fora
essas memórias importunas; elas, porém, voltavam, ou de manso ou de assalto,
como raparigas que eram, cantando, rindo, fazendo o diabo. D. Paula tornou aos
seus bailes de outro tempo, às suas eternas valsas que faziam pasmar a toda a
gente, às mazurcas, que ela metia à cara das sobrinhas como sendo a mais
graciosa coisa do mundo, e aos teatros, e às cartas, e vagamente, aos beijos; mas
tudo isso — e esta é a situação — tudo isso era como as frias crônicas, esqueleto

da história, sem a alma da história.

  Passava-se tudo na cabeça. D. Paula tentava emparelhar o coração com o cérebro, a ver se sentia alguma coisa além da pura repetição mental, mas, por mais que evocasse as comoções extintas, não lhe voltava nenhuma. Coisas truncadas!

     Se ela conseguisse espiar para dentro do coração da sobrinha, pode ser que
achasse ali a sua imagem, e então... Desde que esta idéia penetrou no espírito de
D. Paula, complicou-lhe um pouco a obra de reparação e cura. Era sincera, tratava
da alma da outra, queria vê-la restituída ao marido. Na constância do pecado é
que se pode desejar que outros pequem também, para descer de companhia ao
purgatório; mas aqui o pecado já não existia. D. Paula mostrava à sobrinha a
superioridade do marido, as suas virtudes e assim também as paixões, que
podiam dar um mau desfecho ao casamento, pior que trágico, o repúdio.
     Conrado, na primeira visita que lhes fez, nove dias depois, confirmou a
advertência da tia; entrou frio e saiu frio. Venancinha ficou aterrada. Esperava que
os nove dias de separação tivessem abrandado o marido, e, em verdade, assim
era; mas ele mascarou-se à entrada e conteve-se para não capitular. E isto foi
mais salutar que tudo o mais. O terror de perder o marido foi o principal elemento
de restauração. O próprio desterro não pôde tanto.

      Vai senão quando, dois dias depois daquela visita, estando ambas ao portão da
chácara, prestes a sair para o passeio do costume, viram vir um cavaleiro.
Venancinha fixou a vista, deu um pequeno grito, e correu a esconder-se atrás do
muro. D. Paula compreendeu e ficou. Quis ver o cavaleiro de mais perto; viu-o dali
a dois ou três minutos, um galhardo rapaz, elegante, com as suas finas botas
lustrosas, muito bem-posto no selim; tinha a mesma cara do outro Vasco, era o
filho; o mesmo jeito da cabeça, um pouco à direita, os mesmos ombros largos, os
mesmos olhos redondos e profundos.

      Nessa mesma noite, Venancinha contou-lhe tudo, depois da primeira palavra que
ela lhe arrancou. Tinham-se visto nas corridas, uma vez, logo que ele chegou da
Europa. Quinze dias depois, foi-lhe apresentado em um baile, e pareceu-lhe tão
bem, com um ar tão parisiense, que ela falou dele, na manhã seguinte, ao marido.
Conrado franziu o sobrolho, e foi este gesto que lhe deu uma idéia que até então
não tinha. Começou a vê-lo com prazer; daí a pouco com certa ansiedade. Ele
falava-lhe respeitosamente, dizia-lhe coisas amigas, que ela era a mais bonita
moça do Rio, e a mais elegante, que já em Paris ouvira elogiá-la muito, por
algumas senhoras da família Alvarenga. Tinha graça em criticar os outros, e sabia
dizer também umas palavras sentidas, como ninguém.

      Não falava de amor, mas perseguia-a com os olhos, e ela, por mais que afastasse os seus, não podia afastá-los de todo. Começou a pensar nele, amiudadamente, com interesse, e
quando se encontravam, batia-lhe muito o coração; pode ser que ele lhe visse
então, no rosto, a impressão que fazia.

   D. Paula, inclinada para ela, ouvia essa narração, que aí fica apenas resumida e
coordenada. Tinha toda a vida nos olhos; a boca meio aberta, parecia beber as
palavras da sobrinha, ansiosamente, como um cordial. E pedia-lhe mais, que lhe
contasse tudo, tudo. Venancinha criou confiança. O ar da tia era tão jovem, a
exortação tão meiga e cheia de um perdão antecipado, que ela achou ali uma
confidente e amiga, não obstante algumas frases severas que lhe ouviu,
mescladas às outras, por um motivo de inconsciente hipocrisia. Não digo cálculo;
D. Paula enganava-se a si mesma. Podemos compará-la a um general inválido,
que forceja por achar um pouco do antigo ardor na audiência de outras
campanhas.

 — Já vês que teu marido tinha razão, dizia ela; foste imprudente, muito
imprudente...

Venancinha achou que sim, mas jurou que estava tudo acabado.

— Receio que não. Chegaste a amá-lo deveras?

— Titia...
— Tu ainda gostas dele!

— Juro que não. Não gosto; mas confesso... sim... confesso que gostei... Perdoeme tudo; não diga nada a Conrado; estou arrependida... Repito que a princípio um
pouco fascinada... Mas que quer a senhora?

— Ele declarou-te alguma coisa?
—Declarou; foi no teatro, uma noite, no Teatro Lírico, à saída. Tinha costume de ir
buscar-me ao camarote e conduzir-me até o carro, e foi à saída... duas palavras...
D. Paula não perguntou, por pudor, as próprias palavras do namorado, mas
imaginou as circunstâncias, o corredor, os pares que saíam, as luzes, a multidão,
o rumor das vozes, e teve o poder de representar, com o quadro, um pouco das
sensações dela; e pediu-lhas com interesse, astutamente.

— Não sei o que senti, acudiu a moça cuja comoção crescente ia desatando a
língua; não me lembro dos primeiros cinco minutos. Creio que fiquei séria; em
todo o caso, não lhe disse nada. Pareceu-me que toda gente olhava para nós, que
teriam ouvido, e quando alguém me cumprimentava sorrindo, dava-me idéia de
estar caçoando. Desci as escadas não sei como, entrei no carro sem saber o que
fazia; ao apertar-lhe a mão, afrouxei bem os dedos. Juro-lhe que não queria ter
ouvido nada. Conrado disse-me que tinha sono, e encostou-se ao fundo do carro;
foi melhor assim, porque eu não sei que diria, se tivéssemos de ir conversando.

      Encostei-me também, mas por pouco tempo; não podia estar na mesma posição.
Olhava para fora através dos vidros, e via só o clarão dos lampiões, de quando em
quando, e afinal nem isso mesmo; via os corredores do teatro, as escadas, as
pessoas todas, e ele ao pé de mim, cochichando as palavras, duas palavras só, e
não posso dizer o que pensei em todo esse tempo; tinha as idéias baralhadas,
confusas, uma revolução em mim...

— Mas, em casa?

— Em casa, despindo-me, é que pude refletir um pouco, mas muito pouco. Dormi
tarde, e mal. De manhã, tinha a cabeça aturdida. Não posso dizer que estava
alegre nem triste; lembro-me que pensava muito nele, e para arredá-lo prometi a
mim mesma revelar tudo ao Conrado; mas o pensamento voltava outra vez. De
quando em quando, parecia-me escutar a voz dele, e estremecia. Cheguei a
lembrar-me que, à despedida, lhe dera os dedos frouxos, e sentia, não sei como
diga, uma espécie de arrependimento, um medo de o ter ofendido... e depois
vinha o desejo de o ver outra vez... Perdoe-me, titia; a senhora é que quer que
lhe conte tudo.

     A resposta de D. Paula foi apertar-lhe muito a mão e fazer um gesto de cabeça.
Afinal achava alguma coisa de outro tempo, ao contato daquelas sensações
ingenuamente narradas. Tinha os olhos ora meio cerrados, na sonolência da
recordação, — ora aguçados de curiosidade e calor, e ouvia tudo, dia por dia,
encontro por encontro, a própria cena do teatro, que a sobrinha a princípio lhe
ocultara. E vinha tudo o mais, horas de ânsia, de saudade, de medo, de
esperança, desalentos, dissimulações, ímpetos, toda a agitação de uma criatura
em tais circunstâncias, nada dispensava a curiosidade insaciável da tia. Não era
um livro, não era sequer um capítulo de adultério, mas um prólogo, —
interessante e violento.

    Venancinha acabou. A tia não lhe disse nada, deixou-se estar metida em si

mesma; depois acordou, pegou-lhe na mão e puxou-a. Não lhe falou logo; fitou
primeiro, e de perto, toda essa mocidade, inquieta e palpitante, a boca fresca, os
olhos ainda infinitos, e só voltou a si quando a sobrinha lhe pediu outra vez
perdão. D. Paula disse-lhe tudo o que a ternura e a austeridade da mãe lhe
poderia dizer, falou-lhe de castidade, de amor ao marido, de respeito público; foi
tão eloqüente que Venancinha não pôde conter-se, e chorou.

      Veio o chá, mas não há chá possível depois de certas confidências. Venancinha
recolheu-se logo, e, como a luz era agora maior, saiu da sala com os olhos baixos,
para que o criado lhe não visse a comoção. D. Paula ficou diante da mesa e do
criado. Gastou vinte minutos, ou pouco menos, em beber uma xícara de chá e
roer um biscoito, e apenas ficou só, foi encostar-se à janela, que dava para a
chácara.

       Ventava um pouco, as folhas moviam-se sussurrando, e, conquanto não fossem as
mesmas do outro tempo, ainda assim perguntavam-lhe: "Paula, você lembra-se
do outro tempo?" Que esta é a particularidade das folhas, as gerações que passam
contam às que chegam as coisas que viram, e é assim que todas sabem tudo e
perguntam por tudo. Você lembra-se do outro tempo?

      Lembrar, lembrava; mas aquela sensação de há pouco, reflexo apenas, tinha
agora cessado. Em vão repetia as palavras da sobrinha, farejando o ar agreste da
noite: era só na cabeça que achava algum vestígio, reminiscências, coisas
truncadas. 

     O coração empacara de novo, o sangue ia outra vez com a andadura
do costume. Faltava-lhe o contato moral da outra. E continuava, apesar de tudo,
diante da noite, que era igual às outras noites de então, e nada tinha que se
parecesse com as do tempo da Stoltz e do Marquês de Paraná; mas continuava, e
lá dentro as pretas espalhavam o sono contando anedotas, e diziam, uma ou outra
vez, impacientes:
—Sinhá velha hoje deita tarde como diabo!
  



D. PAULA, Contos Fluminenses, Machado de Assis
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