Pular para o conteúdo principal

Morte acidental

       
  Enquanto ele falava, eu arrumava a churrasqueira até que todos viessem. Era uma típica festa de firma, onde as pessoas vão para encher a cara e esquecer os problemas. Comer alguma coisa e ir embora. O almoço estava marcado para uma hora da tarde, eu cheguei mais cedo para ajudar nos preparativos, porque era minha tarefa já que era o mais novo no trabalho. Ele já tinha tomado alguns copos de whisky, sua esposa estava dentro da casa preparando os outros itens da festa. Já bêbado, ele entrou na piscina, aí começou a pedir para eu contar quanto tempo ele ficava sem respirar debaixo d’agua. 30 segundos, 25 segundos, 10 segundos. 
morte-acidente-cronica-da-cidade-@cronicasdacity-cronicas-da-cidade

- Você é muito ruim nisso. Disse eu. 

Ele então me desafiou, pegou um relógio desses com cronômetro e começou a contar. Meu melhor tempo foi um minuto e quinze segundos. Ele disse que conseguia isso, mas que eu teria que baixar a cabeça dele, para que não voltasse antes do tempo. Ele era alto, branco, magro, chamavam-no de boneco de Olinda, quando não estava por perto é claro. Fiquei com o cronômetro na mão, apertei o botão e empurrei a cabeça dele até ficar completamente submerso. 30 segundos, 45 segundos, 1 min e meio. Como ele não me deu nenhum sinal, continuei a contagem e a manter sua cabeça debaixo d’água. Não sei como ou porque, me distraí, pensei em alguma outra coisa, agora não vou lembrar. Quando puxei a cabeça dele vi que não tinha resistência. Ele já não estava mais vivo, tinha morrido ali na piscina, da forma mais estúpida possível. Quando parei, o relógio marcava cinco minutos. Cinco minutos. Cinco minutos. Disseram que a água tinha entrado nos pulmões dele. É obvio que não disse que estava segurando sua cabeça. Apenas disse que estávamos brincando e como ele não subiu de volta, resolvi puxar ele, mas já estava morto.



este conto faz parte de uma série, que será postada em breve
possivelmente em formato e-book gratuitamente. 
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A Coxinha Estragada

Acordei tarde hoje e desobedecendo meu costume não fiz almoço, então fui á lanchonete da quadra comer um salgado. Não que eu seja do tipo que se satisfaz fácil (as "primas" da zona que o digam), mas ordinariamente não como muito no almoço, prefiro comer mais na janta, assim posso dormir de "bucho cheio" como diria seu "Maneu".

 Quando cheguei havia apenas uma coxinha na estufa, e estava exuberantemente convidativa, talvez pela minha fome, ou por ser a última, o aspecto geral me agradou. Também me agradou a moça que estava atendendo, bastante simpática, bonita a bicha ó, dessas de tirar o fôlego. Aparentemente estava em treinamento, porque tinha uma senhora de mal-humor e um cigarro, inapropriadamente perto da comida, na boca, que lhe dizia tudo o que ela tinha que fazer.

 Peguei a coxinha, paguei e fui andando e comendo, pouco depois da segunda mordida, quando chegamos na parte do recheio, para minha decepção o frango estava azedo e quase vomito ali mesmo.…

Para Gostar de Ler, Vol. 5

Carlos Drumond de Andrade
Fernando Sabino
Paulo Mendes Campos
Rubem Braga
PARA GOSTAR DE LER
Volume 5
editora ática
Crônicas
Edição de texto
Jiro Takahashi
Edição de arte
Ary Almeida Normanha
Antônio do Amaral Rocha
Mario Cafiero/ilustração da capa
Aderbal Moura/ilustrações internas
René Etiene Ardanuy e
Mara Patrícia Seixas/arte final
Colaboração na seleção
de textos
Edson Lima Gonçalves
Francisco Marto de Moura
Icléa Mello Gonçalves
Ilka Brunhildo Laurito
Irene Uematsu
José Inaldo Godoy
José Luiz Pieroni Rodrigues
Laiz Barbosa de Carvalho
Sara Ortiz Capellari
EDITORA AFILIADA
Impressão e acabamento
GEOGRÁFICA
Fone (011)716-0533
ISBN 85 08 00123 1
1998
Todos os direitos reservados pela Editora Ática
Rua Barão de Iguape, 110- CEP 01507-900
Caixa Postal 2937 — CEP 01065-970
São Paulo - SP
Tel.: (011) 278-9322 - Fax: (011) 277-4146
Internet: http://www.atíca.com.br
e-mail: editora@atica.com.br
5
A crônica não é um"gênero maior". Não se imagina uma literatura
feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal…

Nenhum Vento pode Apagar, Nelson Rodrigues

NENHUM VENTO PODE APAGARQuando ando de táxi, sinto uma euforia absurda e terrível. Isso vem
de longe, vem de minha infância profunda. Bem me lembro dos meus seis,
sete anos. Meu pai deu um passeio de táxi, com toda a família; e eu, na
frente, ao lado do chauffeur, teci toda uma fantasia de onipotência. Repito: o
táxi ainda me compensa de velhas e santas humilhações.
O ônibus, não. Quando ando de ônibus (e, às vezes, só tenho o
dinheiro contadinho do ônibus), viajo como um ofendido e sou, realmente,
um desfeiteado. É uma promiscuidade tão abjeta, que eu diria: o ônibus
apinhado é o túmulo do pudor. “Exagero”, dirão. Paciência. Mas quando eu
passava fome, queria ser rico, e não para ter palácios ou andar de Mercedes.
A minha obsessão nunca foi a Mercedes, nunca foi o palácio. Simplesmente,
queria andar de táxi e nada mais.
Fiz a introdução para referir certa viagem de ônibus. Precisava ir à rua
Mariz e Barros. Como tinha pouco dinheiro no bolso, apanhei um ônibus e lá
vim eu, em pé, pendurado numa ar…