16/01/2018
A Chave, Machado de Assis
Não sei se lhes diga simplesmente que era de madrugada, ou se comece num tom mais
poético: aurora, com seus róseos dedos... A maneira simples é o que melhor me conviria
a mim, ao leitor, aos banhistas que estão agora na Praia do Flamengo — agora, isto é, no
dia 7 de outubro de 1861, que é quando tem princípio este caso que lhes vou contar.
Convinha-nos isto; mas há lá um certo velho, que me não leria, se eu me limitasse a dizer
que vinha nascendo a madrugada, um velho que... degamos quem era o velho.
Imaginem os leitores um sujeito gordo, não muito gordo — calvo, de óculos, tranqüilo,
tardo, meditativo. Tem sessenta anos: nasceu com o século. Traja asseadamente um
vestuário da manhã; vê-se que é abastado ou exerce algum alto emprego na
administração. Saúde de ferro. Disse já que era calvo; equivale a dizer que não usava
cabeleira. Incidente sem valor, observará a leitora, que tem pressa. Ao que lhe replico que
o incidente é grave, muito grave, extraordinariamente grave. A cabeleira devia ser o
natural apêndice da cabeça do major Caldas, porque cabeleira traz ele no espírito, que
também é calvo.
Calvo é o espírito. O major Caldas cultivou as letras, desde 1821 até 1840 com um ardor
verdadeiramente deplorável. Era poeta; compunha versos com presteza, retumbantes,
cheios de adjetivos, cada qual mais calvo do que ele tinha de ficar em 1861. A primeira
poesia foi dedicada a não sei que outro poeta, e continha em germe todas as odes e
glosas que ele havia de produzir. Não compreendeu nunca o major Caldas que se
pudesse fazer outra cousa que não glosas e odes de toda a casta, pindáricas ou
horacianas, e também idílios piscatóricos, obras perfeitamente legítimas na aurora literária
do major. Nunca para ele houve poesia que pudesse competir com a de um Dinis ou
Pimentel Maldonado; era a sua cabeleira do espírito.
Ora, é certo que o major Caldas, se eu dissesse que era de madrugada, dar-me-ia um
muxoxo ou franziria a testa com desdém. — Madrugada! era de madrugada! murmuraria
ele. Isto diz aí qualquer preta: — "nhanhã, era de madrugada..." Os jornais não dizem de
outro modo; mas numa novela...
Vá pois! A aurora, com seus dedos cor-de-rosa, vinha rompendo as cortinas do oriente,
quando Marcelina levantou a cortina da barraca. A porta da barraca olhava justamente
para o oriente, de modo que não há inverossimilhança em lhes dizer que essas duas
auroras se contemplaram por um minuto. Um poeta arcádico chegaria a insinuar que a
aurora celeste enrubesceu de despeito e raiva. Seria porém levar a poesia muito longe.
Deixemos a do céu e venhamos à da terra. Lá está ela, à porta da barraca com as mãos
cruzadas no peito, como quem tem frio; traja a roupa usual das banhistas, roupa que só
dá elegância a quem já a tiver em subido grau. É o nosso caso.
Assim, à meia-luz da manhã nascente, não sei se poderíamos vê-la de modo claro. Não;
é impossível. Quem lhe examinaria agora aqueles olhos úmidos, como as conchas da
praia, aquela boca pequenina, que parece um beijo perpétuo? Vede, porém, o talhe, a
curva amorosa das cadeiras, o trecho de perna que aparece entre a barra da calça de
flanela e o tornozelo; digo o tornozelo e não o sapato porque Marcelina não calça sapatos
de banho. Costume ou vaidade? Pode ser costume; se for vaidade é explicável porque o
sapato esconderia e mal os pés mais graciosos de todo o Flamengo, um par de pés finos,
esguios, ligeiros. A cabeça também não leva coifa; tem os cabelos atados em parte, em
parte trançados — tudo desleixadamente, mas de um desleixo voluntário e casquilho.
Agora, que a luz está mais clara, podemos ver bem a expressão do rosto, É uma
expressão singular de pomba e gato, de mimo e desconfiança. Há olhares dela que
atraem, outros que distanciam — uns que inundam a gente, como um bálsamo, outros
que penetram como uma lâmina. É desta última maneira que ela olha para um grupo de
duas moças, que estão à porta de outra barraca, a falar com um sujeito.
— Lambisgóias! murmura entre dentes.
— Que é? pergunta o pai de Marcelina, o major Caldas, sentado ao pé da barraca, numa
cadeira que o moleque lhe leva todas as manhãs.
— Que é o quê? diz a moça.
— Tu falaste alguma cousa.
— Nada.
— Estás com frio?
— Algum.
— Pois olha, a manhã está quente.
— Onde está o José?
O José apareceu logo; era o moleque que a acompanhava ao mar. Aparecido o José,
Marcelina caminhou para o mar, com um desgarro de moça bonita e superior. Da outra
barraca tinham já saído as duas moças, que lhe mereceram tão desdenhosa
classificação; o rapaz que estava com elas também entrara no mar. Outras cabeças e
bustos surgiram da água, como um grupo de delfins. Da praia alguns olhos, puramente
curiosos, se estendiam aos banhistas ou cismavam puramente contemplando o petáculo
das ondas que se dobravam e desdobravam — ou, como diria o major Caldas — as
convulsões de Anfitrite.
O major ficou sentado a ver a filha, com o Jornal do Commercio aberto sobre os joelhos;
tinha já luz bastante para ler as notícias; mas não o fazia nunca antes de voltar a filha do
banho. Isto por duas razões. Era a primeira a própria afeição de pai; apesar da confiança
na destreza da filha, receava algum desastre. Era a segunda o gosto que lhe dava
contemplar a graça e a habilidade com que Marcelina mergulhava, bracejava ou
simplesmente boiava "como uma náiade", acrescentava ele se falava disso a algum
amigo.
Acresce que o mar naquela manhã estava muito mais bravio que de costume; a ressaca
era forte; os buracos da praia mais fundos; o medo afastava vários banhistas habituais.
— Não te demores muito, disse o major, quando a filha entrou; toma cuidado.
Marcelina era destemida; galgou a linha em que se dava a arrebentação, e surdiu fora
muito naturalmente. O moleque, aliás bom nadador, não rematou a façanha com igual
placidez; mas galgou também e foi surgir ao lado da sinhá-moça.
— Hoje o bicho não está bom, ponderou um banhista ao lado de
Marcelina, um homem maduro, de suíças, ar aposentado.
— Parece que não, disse a moça; mas para mim é o mesmo.
— O major continua a não gostar d’água salgada? perguntou uma senhora.
— Diz que é militar de terra e não do mar, replicou Marcelina, mas eu creio que papai o
que quer é ler o Jornal à vontade.
— Podia vir lê-lo aqui, insinuou um rapaz de bigodes, dando uma grande risada de
aplauso a si mesmo.
Marcelina nem olhou para ele; mergulhou diante de uma onda, surdiu fora, com as mãos
sacudiu os cabelos. O sol, que já então aparecera, alumiava-a nessa ocasião, ao passo
que a onda, seguindo para a praia, deixava-lhe todo o busto fora de água. Foi assim que
a viu, pela primeira vez, com os cabelos úmidos, e a flanela grudada ao busto — ao mais
correto e virginal busto daquelas praias —, foi assim que pela primeira vez a viu o
Bastinhos — o Luís Bastinhos —, que acabava de entrar no mar, para tomar o primeiro
banho no Flamengo.
CAPÍTULO II
A ocasião é a menos própria para apresentar-lhes o sr. Luís Bastinhos; a ocasião e o
lugar. O vestuário então é impropriíssimo. Ao vê-lo agora, a meio-busto, nem se pode
dizer que tenha vestuário de nenhuma espécie. Emerge-lhe a parte superior do corpo,
boa musculatura, pele alva, mal coberta de alguma penugem. A cabeça é que não precisa
dos arrebiques da civilização para dizer-se bonita. Não há cabeleireiro, nem óleo, nem
pente, nem ferro que no-la ponham mais graciosa. Ao contrário, a pressão fisionômica de
Luís Bastinhos acomoda-se melhor a esse desalinho agreste e marítimo. Talvez perca,
quando se pentear. Quanto ao bigode, fino e curto, os pingos d’água que ora lhe
escorrem não chegam a diminuí-lo; não chegam sequer a ver-se. O bigode persiste como
dantes.
Não o viu Marcelina, ou não reparou nele. O Luís Bastinhos é que a viu, e mal pôde
disfarçar a admiração. O major Caldas, se os observasse, era capaz de casá-los, só para
ter o gosto de dizer que unia uma náiade a um tritão. Nesse momento a náiade repara
que o tritão tem os olhos fitos nela, e mergulha, depois mergulha outra vez, nada e bóia.
Mas o tritão é teimoso, e não lhe tira os olhos de cima.
"Que importuno!" diz ela consigo.
— Olhem uma onda grande, brada um dos conhecidos de Marcelina.
Todos se puseram em guarda, a onda enrolou alguns, mas passou sem maior dano.
Outra veio e foi recebida com um alarido alegre; enfim veio uma mais forte, e assustou
algumas senhoras. Marcelina riu-se delas.
— Nada, dizia uma; salvemos o pêlo; o mar está ficando zangado.
— Medrosa! acudiu Marcelina.
— Pois sim...
— Querem ver? continuou a filha do major. Vou mandar embora o moleque.
— Não faça isso, D. Marcelina, acudiu o banhista de ar aposentado.
— Não faço outra cousa. José, vai-te embora.
— Mas, nhanhã...
— Vai-te embora!
O José ainda esteve alguns segundos, sem saber o que fizesse; mas, parece que entre
desagradar ao pai ou à filha, achou mais arriscado desagradar à filha, e caminhou para
terra. Os outros banhistas tentaram persuadir à moça que devia vir também, mas era
tempo baldado. Marcelina tinha a obstinação de um enfant gâté. Lembraram alguns que
ela nadava como um peixe, e resistira muita vez ao mar.
— Mas o mar do Flamengo é o diabo, ponderou uma senhora. Os banhistas pouco a
pouco foram deixando o mar. Do lado de terra, o major Caldas, de pé, ouvia impaciente a
explicação do moleque, sem saber se o devolveria à água ou se cumpriria a vontade da
filha; limitou-se a soltar palavras de enfado.
— Santa Maria! exclamou de repente o José.
— Que foi? disse o major.
O José não lhe respondeu; atirou-se à água. O major olhou e não viu a filha.
Efetivamente, a moça, vendo que no mar só ficava o desconhecido, nadou para terra,
mas as ondas tinham-se sucedido com freqüência e impetuosidade. No lugar da
arrebentação foi envolvida por uma; nesse momento é que o moleque a viu.
— Minha filha! bradou o major.
E corria desatinado pela areia, enquanto o moleque conscienciosamente buscava
penetrar no mar. Mas era já empresa escabrosa; as ondas estavam altas, fortes e a
arrebentação terrível. Outros banhistas acudiram também a salvar a filha do major; mas a
dificuldade era só uma para todos. Caldas, ora implorava, ora ordenava ao moleque que
lhe restituísse a filha. Enfim, José conseguiu entrar no mar. Mas já então lutava ali, junto
ao funesto lugar, o desconhecido banhista que tanto aborrecera a filha do major. Este
estremeceu de alegria, de esperança, quando viu que alguém forcejava por arrancar a
moça da morte. Na verdade, o vulto de Marcelina apareceu nos braços do Luís Bastinhos;
mas uma onda veio e os enrolou a ambos. Nova luta, novo esforço e desta vez definitivo
triunfo. Luís Bastinhos chegou à praia arrastando consigo a moça.
— Morta! exclamou o pai correndo a vê-la.
Examinaram-na.
— Não, desmaiada, apenas.
Com efeito, Marcelina perdera os sentidos, mas não morrera. Deram-lhe os socorros
médicos; ela voltou a si. O pai, singelamente alegre, apertou Luís Bastinhos ao coração.
— Devo-lhe tudo! disse ele.
— A sua felicidade me paga de sobra, tornou o moço.
O major fitou-o alguns instantes; impressionara-o a resposta. Depois apertou-lhe a mão e
ofereceu-lhe a casa. Luís Bastinhos retirou-se antes que Marcelina pudesse vê-lo.
CAPÍTULO III
Na verdade, se a leitora gosta de lances romanescos, aí fica um, com todo o valor das
antigas novelas, e pode ser também que dos dramalhões antigos. Nada falta: o mar, o
perigo, uma dama que se afoga, um desconhecido que a salva, um pai que passa da
extrema aflição ao mais doce prazer da vida; eis aí com que marchar cerradamente a
cinco atos maçudos e sangrentos, rematando tudo com a morte ou a loucura da heroína.
Não temos cá nem uma cousa nem outra. A nossa Marcelina não morreu nem morre;
douda pode ser que já fosse, mas de uma doidice branda, a doidice das moças em flor.
Ao menos pareceu que tinha alguma cousa disso, quando naquele mesmo dia soube que
fora salva pelo desconhecido.
— Impossível! exclamou.
— Por quê?
— Foi ele deveras?
— Pois então! Salvou-te com perigo da vida própria; houve um momento, em que eu
cuidei que ambos vocês morriam enrolados na onda.
— É a cousa mais natural do mundo, interveio a mãe; e não sei de que te espantas...
Marcelina não podia, na verdade, explicar a causa do espanto; ela mesma não a sabia.
Custava-lhe a crer que Luís Bastinhos a tivesse salvo, e isso só porque "embirrara com
ele". Ao mesmo tempo, pesava-lhe o obséquio. Não quisera ter morrido; mas era melhor
que outro a houvesse arrancado ao mar, não aquele homem, que afinal era um grande
metediço. Marcelina esteve inclinada a crer que Luís Bastinhos encomendara o desastre
para ter ocasião de a servir.
Dous dias depois, Marcelina voltou ao mar, já pacificado dos seus furores de encomenda.
Ao olhar para ele, teve uns ímpetos de Xerxes; fá-lo-ia castigar, se dispusesse de um bom
e grande vergalho. Não tendo o vergalho, preferiu flagelá-lo com os seus próprios braços,
e nadou nesse dia mais tempo e mais fora do que era costume, não obstante as
recomendações do major. Levava naquilo um pouco, ou antes, muito amor-próprio: o
desastre envergonhara-a.
O Luís Bastinhos, que já lá estava no mar, travou conversação com a filha do major. Era a
segunda vez que se viam, e a primeira que se falavam.
— Soube que foi o senhor quem me ajudou... a levantar anteontem, disse Marcelina.
O Luís Bastinhos sorriu mentalmente; e ia responder por uma simples afirmativa, quando
Marcelina continuou:
— Ajudou, não sei; eu creio que cheguei a perder os sentidos, e o senhor... sim... o
senhor foi quem me salvou. Permite-me que lhe agradeça? concluiu ela, estendendo a
mão.
Luís Bastinhos estendeu a sua; e ali, entre duas ondas, tocaram-se os dedos do tritão e
da náiade.
— Hoje o mar está mais manso, disse ele.
— Está.
— A senhora nada bem.
— Parece-lhe?
— Perfeitamente.
— Menos mal.
E como para mostrar a sua arte, Marcelina entrou a nadar para fora, deixando Luís
Bastinhos. Este, porém, ou por mostrar que também sabia a arte e que era destemido —
ou por não privar a moça de pronto socorro, caso houvesse necessidade —, ou enfim (e
este motivo pode ter sido o principal, se não único) — para vê-la sempre de mais perto —,
lá foi na mesma esteira; dentro de pouco era uma espécie de aposta entre os dous.
— Marcelina, disse-lhe o pai, quando ela voltou a terra, você hoje foi mais longe do que
nunca. Não quero isso, ouviu?
Marcelina levantou os ombros, mas obedeceu ao pai, cujo tom nessa ocasião era
desusadamente ríspido. No dia seguinte, não foi tão longe a nadar; a conversar, porém,
foi muito mais longe do que na véspera. Ela confessou ao Luís Bastinhos, ambos com a
água até o pescoço, confessou que gostava muito de café com leite, que tinha vinte e
um anos, que possuía reminiscências do Tamberlick, e que o banho do mar seria
excelente, se não a obrigassem a acordar cedo.
— Deita-se tarde, não é? perguntou o Luís Bastinhos.
— Perto de meia-noite.
— Oh! dorme pouco!
— Muito pouco.
— De dia dorme?
— Às vezes.
Luís Bastinhos confessou, pela sua parte, que se deitava cedo, muito cedo, desde que
estava a banhos de mar.
— Mas quando for ao teatro?
— Nunca vou ao teatro.
— Pois eu gosto muito.
— Também eu; mas enquanto estiver a banhos...
Foi neste ponto que entraram as reminiscências do Tamberlick, que Marcelina ouviu,
quando criança; e daí ao João Caetano, e do João Caetano a não sei que outras
reminiscências, que a um e a outro fez esquecer a higiene e a situação.
CAPÍTULO IV
Saiamos do mar que é tempo. A leitora pode desconfiar que o intento do autor é fazer um
conto marítimo, a ponto de casar os dous heróis nos próprios "paços de Anfitrite", como
diria o major Caldas. Não; saiamos do mar. Já tens muita água, boa Marcelina. Too much
of water hast thou, poor Ophelia! A diferença é que a pobre Ofélia lá ficou, ao passo que
tu sais sã e salva, com a roupa de banho pegada ao corpo, um corpo grego, por Deus! e
entras na barraca, e se alguma cousa ouves, não são as lágrimas dos teus, são os
resmungos do major. Saiamos do mar.
Um mês depois do último banho a que o leitor assistiu, já o Luís Bastinhos freqüentava a
casa do major Caldas. O major afeiçoara-se-lhe deveras depois que ele lhe salvara a
filha. Indagou quem era; soube que estava empregado numa repartição de Marinha, que
seu pai, já agora morto, fora capitão-de-fragata e figurara na guerra contra Rosas. Soube
mais que era moço bem reputado e decente. Tudo isto realçou a ação generosa e
corajosa de Luís Bastinhos, e a intimidade começou, sem oposição da parte de Marcelina,
que antes contribuiu para ela, com as suas melhores maneiras.
Um mês era de sobra para arraigar no coração de Luís Bastinhos a planta do amor que
havia germinado entre duas vagas do Flamengo. A planta cresceu, copou, bracejou
ramos a um e outro lado, tomou o coração todo do rapaz, que não se lembrava jamais de
haver gostado tanto de uma moça. Era o que ele dizia a um amigo de infância, seu atual
confidente.
— E ela? disse-lhe o amigo.
— Ela... não sei.
— Não sabes?
— Não; creio que não gosta de mim, isto é, não digo que se aborreça comigo; trata-me
muito bem, ri muito, mas não gosta... entendes?
— Não te dá corda em suma, concluiu o Pimentel, que assim se chamava o amigo
confidente. Já lhe disseste alguma cousa?
— Não.
— Por que não lhe falas?
— Tenho receio... Ela pode zangar-se e fico obrigado a não voltar lá ou a freqüentar
menos, e isso para mim seria o diabo.
O Pimentel era uma espécie de filósofo prático, incapaz de suspirar dous minutos pela
mais bela mulher do mundo, e menos ainda de compreender uma paixão como a do Luís
Bastinhos. Sorriu, estendeu-lhe a mão em despedida, mas o Luís Bastinhos não
consentiu na separação. Puxou-o, deu-lhe o braço, levou-o a um café.
— Mas que diabo queres tu que te faça? perguntou o Pimentel sentando-se à mesa com
ele.
— Que me aconselhes.
— O quê?
— Não sei o quê, mas dize-me alguma cousa, replicou o namorado. Talvez convenha
falar ao pai; que te parece?
— Sem saber se ela gosta de ti?
— Na verdade era imprudência, concordou o outro, coçando o queixo com a ponta do
dedo índice; mas talvez goste...
— Pois então...
— Porque, eu te digo, ela não me trata mal; ao contrário, às vezes tem uns modos, umas
cousas... mas não sei... O major esse gosta de mim.
— Ah!
— Gosta.
— Pois aí tens, casa-te com o major.
— Falemos sério.
— Sério? repetiu o Pimentel debruçando-se sobre a mesa e encarando o outro. Aqui vai o
mais sério que há no mundo; tu és um... digo?
— Dize.
— Tu és um bolas.
Repetiam-se essas cenas regularmente, uma ou duas vezes, por semana. No fim delas o
Luís Bastinhos prometia duas cousas a si mesmo: não dizermais nada ao Pimentel e ir
fazer imediatamente a sua confissão a Marcelina; poucos dias depois ia confessar ao
Pimentel que ainda não dissera nada a Marcelina. E o Pimentel abanava a cabeça e
repetia o estribilho:
— Tu és um bolas.
CAPÍTULO V
Um dia assentou Luís Bastinhos que era vergonha dilatar por mais tempo a declaração de
seus afetos; urgia clarear a situação. Ou era amado ou não; no primeiro caso, o silêncio
era tolice; no segundo a tolice era a assiduidade. Tal foi a reflexão do namorado; tal foi a
sua resolução.
A ocasião era na verdade propícia. O pai ia passar a noite fora; a moça ficara com uma tia
surda e sonolenta. Era o sol de Austerlitz; o nosso Bonaparte preparou a sua melhor
tática. A fortuna deu-lhe até um grande auxiliar na própria moça, que estava triste; a
tristeza podia dispor o coração a sentimentos benévolos, principalmente quando outro
coração lhe dissesse que não duvidava beber na mesma taça da melancolia. Esta foi a
primeira reflexão de Luís Bastinhos; a segunda foi diferente.
— Por que estará ela triste? perguntou ele a si mesmo.
E eis o dente do ciúme a trincar-lhe o coração, e o sangue a esfriar-lhe nas veias, e uma
nuvem a cobrir-lhe os olhos. Não era para menos o caso. Ninguém adivinharia nessa
moça quieta e sombria, sentada a um canto do sofá, a ler as páginas de um romance,
ninguém adivinharia nela a borboleta ágil e volúvel de todos os dias. Alguma cousa devia
ser; talvez a mordesse algum besouro. E esse besouro não era decerto o Luís Bastinhos;
foi o que este pensou e foi o que o entristeceu.
Marcelina ergueu os ombros.
— Alguma cousa que a incomoda, continuou ele.
Um silêncio.
— Não?
— Talvez.
— Pois bem, disse Luís Bastinhos com calor e animado por aquela meia confidência; pois
bem, diga-me tudo, eu saberei ouvi-la e terei palavras de consolação para as suas dores.
Marcelina olhou um pouco espantada para ele, mas a tristeza dominou outra vez e
deixou-se estar calada alguns instantes: finalmente pôs-lhe a mão no braço, e disse que
lhe agradecia muito o interesse que mostrava, mas que o motivo de tristeza era-o só para
ela e não valia a pena contá-lo. Como Luís Bastinhos teimasse para saber o que era,
contou a moça que lhe morrera, nessa manhã, o mico.
Luís Bastinhos respirou à larga. Um mico! um simples mico! Era pueril o objeto, mas para
quem o esperava terrível, antes assim. Ele entregou-se depois a toda a sorte de
considerações próprias do caso, disse-lhe que não valia o bicho a pureza dos belos olhos
da moça; e daí a escorregar uma insinuação de amor era um quase nada. Ia a fazê-lo:
chegou o major.
Oito dias depois houve em casa do major um sarau — "uma brincadeira" como disse o
próprio major. Luís Bastinhos foi; estava porém arrufado com a moça: deixou-se ficar a
um canto; não se falaram durante a noite inteira.
— Marcelina, disse-lhe no dia seguinte o pai; acho que tratas às vezes mal o Bastinhos.
Um homem que te salvou da morte.
— Que morte?
— Da morte na Praia do Flamengo.
— Mas, papai, se a gente fosse a morrer de amores por todas as pessoas que nos
salvam da morte...
— Mas quem te fala nisso? digo que o tratas mal às vezes...
— Às vezes, é possível.
— Mas por quê? ele parece-me um bom rapaz.
Nada mais lhe respondendo a filha, entrou o major a bater com a ponta do pé no chão,
um pouco enfadado. Um pouco? talvez muito. Marcelina destruía-lhe as esperanças,
reduzia-lhe a nada o projeto que ele acalentava desde algum tempo, — que era casar os
dous; — casá-los ou uni-los pelos "doces laços do himeneu", que todas foram as suas
próprias expressões mentais. E vai a moça e destrói-lho. O major sentia-se velho, podia
morrer, e quisera deixar a filha casada e bem casada. Onde achar melhor marido que o
Luís Bastinhos?
— Uma pérola, dizia ele a si mesmo.
E enquanto ele ia forjando e desforjando esses projetos, Marcelina suspirava consigo
mesma, e sem saber por que; mas suspirava. Também esta pensava na conveniência de
casar e casar bem; mas nenhum homem lhe abrira deveras o coração. Quem sabe se a
fechadura não servia a nenhuma chave? Quem teria a verdadeira chave do coração de
Marcelina? Ela chegou a supor que fosse um bacharel da vizinhança, mas esse casou
dentro de algum tempo; depois desconfiara que a chave estivesse em poder de um oficial
de Marinha. Erro: o oficial não trazia chave consigo. Assim andou de ilusão em ilusão, e
chegou à mesma tristeza do pai. Era fácil acabar com ela: era casar com o Bastinhos.
Mas se o Bastinhos, o circunspecto, o melancólico, o taciturno Bastinhos não tinha a
chave! Equivalia a recebê-lo à porta sem lhe dar entrada no coração.
CAPÍTULO VI
Cerca de mês e meio depois fazia anos o major, que, animado pelo sarau precedente,
quis comemorar com outro aquele dia. "Outra brincadeira, mas desta vez rija", foram os
próprios termos em que ele anunciou o caso ao Luís Bastinhos, alguns dias antes.
Pode-se dizer e acreditar que a filha do major não teve outro pensamento desde que o pai
lho comunicou também. Começou por encomendar um rico vestido, elegeu costureira,
adotou corte, coligiu adornos, presidiu a toda essa grande obra doméstica. Jóias, flores,
fitas, leques, rendas, tudo lhe passou pelas mãos, e pela memória e pelos sonhos. Sim, a
primeira quadrilha foi dançada em sonhos, com um belo cavalheiro húngaro, vestido à
moda nacional, cópia de uma gravura da Ilustração Francesa, que ela vira de manhã.
Acordada, lastimou sinceramente que não fosse possível ao pai encomendar, de envolta
com os perus da ceia, um ou dous cavalheiros húngaros — entre outros motivos porque
eram valsadores intermináveis. E depois tão bonitos!
— Sabem que eu pretendo dançar no dia 20? disse o major uma noite, em casa.
— Você? retorquiu-lhe um amigo velho.
— Eu.
— Por que não? assentiu timidamente o Luís Bastinhos.
— Justamente, continuou o major voltando-se para o salvador da filha. E o senhor há de
ser o meu vis-à-vis...
— Eu?
— Não dança?
— Um pouco, retorquiu modestamente o moço.
— Pois há de ser o meu vis-à-vis.
Luís Bastinhos curvou-se como quem obedece a uma opressão; com a flexibilidade
passiva do fatalismo. Se era necessário dançar, ele o faria, porque dançava como
poucos, e obedecer ao velho era uma maneira de amar a moça. Ai dele! Marcelina olhou-o
com tamanho desprezo, que se ele lhe apanha o olhar, não é impossível que de uma
vez para sempre ali deixasse de pôr os pés. Mas não o viu; continuou a arredá-los dali
bem poucas vezes.
Os convites foram profusamente espalhados. O major Caldas fez o inventário de todas as
suas relações, antigas e modernas, e não quis que nenhum camarão lhe escapasse pelas
malhas: lançou uma rede fina e instante. Se ele não pensava em outra cousa o velho
major! Era feliz; sentia-se poupado da adversidade, quando muitos outros companheiros
vira cair, uns mortos, outros extenuados somente. A comemoração de seu aniversário
tinha, portanto, uma significação mui alta e especial; e foi isso mesmo o que ele disse à
filha e aos demais parentes.
O Pimentel, que também fora convidado, sugeriu a Luís Bastinhos a idéia de dar um
presente de anos ao major.
— Já pensei nisso, retorquiu o amigo; mas não sei o que lhe dê.
— Eu te digo.
— Dize.
— Dá-lhe um genro.
— Um genro?
— Sim, um noivo à filha; declara o teu amor e pede-a. Verás que, de todas as dádivas
desse dia, essa será a melhor.
Luís Bastinhos bateu palmas ao conselho do Pimentel.
— É isso mesmo, disse ele; eu andava com a idéia em alguma jóia, mas...
— Mas a melhor jóia és tu mesmo, concluiu o Pimentel.
— Não digo tanto.
— Mas pensas.
— Pimentel!
— E eu não penso outra cousa. Olha, se eu tivesse intimidade na casa, há muito tempo
que estarias amarrado à pequena. Pode ser que ela não goste de ti; mas também é difícil
a uma moça alegre e travessa gostar de um casmurro, como tu — que te sentas, defronte
dela, com um ar solene e dramático, a dizer em todos os teus gestos: minha senhora, fui
eu que a salvei da morte; deve rigorosamente entregar-me a sua vida... Ela pensa decerto
que estás fazendo um calembour de mau gosto e fecha-te a porta...
Luís Bastinhos esteve calado alguns instantes.
— Perdôo-te tudo, a troco do conselho que me deste; vou oferecer um genro ao major.
Dessa vez, como de todas as outras, a promessa era maior do que a realidade; ele lá foi,
lá tornou, nada fez. Iniciou duas ou três vezes uma declaração; chegou a entornar um ou
dous olhares de amor, que não pareceram de todo feios à pequena; e, porque ela sorriu,
ele desconfiou e desesperou. Qual! pensava consigo o rapaz; ela ama a outro com
certeza.
Veio enfim o dia, o grande dia. O major deu um pequeno jantar, em que figurou Luís
Bastinhos; de noite reuniu uma parte dos convidados, porque nem todos lá puderam ir, e
fizeram bem; a casa não dava para tanto. Ainda assim era muita gente reunida, muita e
brilhante, e alegre, como alegre parecia e deveras estava o major. Não se disse nem se
dirá dos brindes do major, à mesa do jantar; não podem inserir-se aqui todas as
recordações clássicas do velho poeta de outros anos; seria não acabar mais. A única
cousa que verdadeiramente se pode dizer é que o major declarou, à sobremesa, ser esse
o dia mais venturoso de todos os seus longos anos, entre outros motivos, porque tinha
gosto de ver ao pé de si o jovem salvador da filha.
— Que idéia! murmurou a filha; e deu um imperceptível muxoxo. Luís Bastinhos
aproveitou o ensejo. "Magnífico, disse ele consigo; depois do café, peço-lhe duas
palavras em particular, e logo depois a filha."
Assim fez; tomado o café, pediu ao major uns cinco minutos de atenção. Caldas, um
pouco vermelho de comoção e de champagne, declarou-lhe que até lhe daria cinco mil
minutos, se tantos fossem precisos.
Luís Bastinhos sorriu lisonjeado a essa deslocada insinuação; e, entrando no gabinete
particular do major, foi sem mais preâmbulo ao fim da entrevista; pediu-lhe a filha em
casamento. O major quis resguardar um pouco a dignidade paterna; mas era impossível.
Sua alegria foi uma explosão.
— Minha filha! bradou ele; mas... minha filha... ora essa... pois não!... Minha filha!
E abria os braços e apertava com eles o jovem candidato, que, um pouco admirado do
próprio atrevimento, chegou a perder o uso da voz. Mas a voz era, aliás, inútil, ao menos
durante o primeiro quarto de hora, em que só falou o ambiciado sogro, com uma
volubilidade sem limites. Cansou enfim, mas de um modo cruel.
— Velhacos! disse ele; com que então... amam-se às escondidas...
— Eu?
— Pois quem?
— Peço-lhe perdão, disse Luís Bastinhos; mas não sei... não tenho certeza...
— Quê! não se correspondem?...
— Não me tenho atrevido...
O major abanou a cabeça com certo ar de irritação e lástima; pegou-lhe das mãos e fitouo
durante alguns segundos.
— Tu és afinal de contas um pandorga, sim, um pandorga — disse ele, largando-lhe as
mãos.
Mas o gosto de os ver casados era tal, e tal a alegria daquele dia de anos, que o major
sentiu a lástima converter-se em entusiasmo, a irritação em gosto, e tudo acabou em
boas promessas.
— Pois digo-te, que te hás de casar, concluiu ele; Marcelina é um anjo, tu outro, eu outro;
tudo indica que nos devemos ligar por laços mais doces do que as simples relações da
vida. Juro-te que serás o pai de meus netos...
Jurava mal o major, porque daí a meia hora, quando ele chamou a filha ao gabinete, e lhe
comunicou o pedido, recebeu desta a mais formal recusa; e por que insistisse em querer
concedê-la ao rapaz, disse-lhe a moça que despediria o pretendente em plena sala, se
lhe falassem mais em semelhante absurdo. Caldas que conhecia a filha não disse mais
nada. Quando o pretendente lhe perguntou, daí a pouco, se devia considerar-se feliz, ele
usou um expediente assaz enigmático: piscou-lhe o olho. Luís Bastinhos ficou radiante;
ergueu-se às nuvens nas asas da felicidade.
Durou pouco a felicidade; Marcelina não correspondia às promessas do major. Três ou
quatro vezes chegara-se a ela Luís Bastinhos, com uma frase piegas na ponta da língua,
e vira-se obrigado a engoli-la outra vez, porque a recepção de Marcelina não animava
mais. Irritado, foi sentar-se ao canto de uma janela, com os olhos na lua, que estava
esplêndida — uma verdadeira nesga de romantismo. Ali fez mil projetos trágicos, o
suicídio, o assassinato, o incêndio, a revolução, a conflagração dos elementos; ali jurou
que se vingaria de um modo exemplar. Como então soprasse uma brisa fresca, e ele a
recebesse em primeira mão, à janela, acalmaram-se-lhe as idéias fúnebres e
sangüíneas, e apenas lhe ficou um desejo de vingança de sala. Qual? Não sabia qual
fosse; mas trouxe-lha enfim uma sobrinha do major.
— Não dança? perguntou ela a Luís Bastinhos.
— Eu?
— O senhor.
— Pois não, minha senhora.
Levantou-se e deu-lhe o braço.
— De maneira que, disse ela, já agora são as moças que tiram os homens para dançar?
— Oh! não! protestou ele. As moças apenas ordenam aos homens o que devem fazer; e o
homem que está no seu papel obedece sem discrepar.
— Mesmo sem vontade? perguntou a prima de Marcelina.
— Quem é que neste mundo pode não ter vontade de obedecer a uma dama? disse Luís
Bastinhos com o seu ar mais piegas.
Estava em pleno madrigal; iriam longe, porque a moça era das que saboreiam esse
gênero de palestra. Entretanto, tinham dado o braço, e passeavam ao longo da sala, à
espera da valsa, que se ia tocar. Deu sinal a valsa, os pares saíram, e começou o
turbilhão.
Não tardou muito que a sobrinha do major compreendesse que estava abraçada a um
valsista emérito, a um verdadeiro modelo de valsistas. Que delicadeza! que segurança!
que acerto de passos! Ela, que também valsava com muita regularidade e graça,
entregou-se toda ao parceiro. E ei-los unidos, a voltearem rapidamente, leves como duas
plumas, sem perder um compasso, sem discrepar uma linha. Pouco a pouco, esvaziando-se
a arena, iam sendo os dous objeto exclusivo da atenção de todos. Não tardou que
ficassem sós; e foi então que o sucesso se formou decisivo e lisonjeiro. Eles giravam e
sentiam que eram o alvo da admiração geral; e ao senti-lo, criavam forças novas, e não
cediam o campo a nenhum outro. Pararam com a música
— Quer tomar alguma cousa? perguntou Luís Bastinhos com a mais adocicada de suas
entonações.
A moça aceitou um pouco de água; e enquanto andavam elogiavam um ao outro, com o
maior calor do mundo. Nenhum desses elogios, porém, chegou ao do major, quando daí a
pouco encontrou Luís Bastinhos.
— Pois você estava com isso guardado! disse ele.
— Isso quê?
— Isso... esse talento que Deus concedeu a poucos... a bem raros. Sim, senhor; pode
crer que é o rei da minha festa.
E apertou-lhe muito as mãos, piscando o olho. Luís Bastinhos tinha já perdido toda a fé
naquele jeito peculiar do major; recebeu-o com frieza. O sucesso entretanto fora grande;
ele o sentiu nos olhares sorrateiros dos outros rapazes, nos gestos de desdém que eles
faziam; foi a consagração última.
— Com que então, só minha prima é que mereceu uma valsa!
Luís Bastinhos estremeceu, ao ouvir esta palavra; voltou-se; deu com os olhos em
Marcelina. A moça repetiu o dito, batendo-lhe com o leque no braço. Ele murmurou
algumas palavras, que a história não conservou, aliás deviam ser notáveis, porque ele
ficou vermelho como uma pitanga. Essa cor ainda se tornou mais viva, quando a moça,
enfiando-lhe o braço, disse resolutamente:
— Vamos a esta valsa...
Tremia o rapaz de comoção; pareceu-lhe ver nos olhos da moça todas as promessas da
bem-aventurança; entrou a compreender os piscados do major.
— Então? disse Marcelina.
— Vamos.
— Ou está cansado?
— Eu? que idéia. Não, não, não estou cansado.
A outra valsa fora um primor; esta foi classificada entre os milagres. Os amadores
confessaram francamente que nunca tinham visto um valsador como Luís Bastinhos. Era
o impossível realizado; seria a pura arte dos arcanjos, se os arcanjos valsassem. Os mais
invejosos tiveram de ceder alguma cousa à opinião da sala. O major chegou às raias do
delírio.
— Que me dizem a este rapaz? bradou ele a uma roda de senhoras. Ele faz tudo: nada
como um peixe e valsa como um pião. Salvou-me a filha para valsar com ela.
Marcelina não ouviu estas palavras do pai, ou perdoou-lhas. Estava toda entregue à
admiração. Luís Bastinhos era até ali o melhor valsista que encontrara. Ela tinha vaidade
e reputação de valsar bem; e achar um parceiro de tal força era a maior fortuna que podia
acontecer a uma valsista. Disse-lho ela mesma, não sei se com a boca, se com os olhos,
e ele repetiu-lhe a mesma idéia, e foram ratificar daí a pouco as suas impressões numa
segunda valsa. Foi outro e maior sucesso.
Parece que Marcelina valsou ainda uma vez com Luís Bastinhos, mas em sonhos, uma
valsa interminável, numa planície, ao som de uma orquestra de diabos azuis e invisíveis.
Foi assim que ela referiu o sonho, no dia seguinte, ao pai.
— Já sei, disse este; esses diabos azuis e invisíveis deviam ser dous.
— Dous?
— Um padre e um sacristão...
— Ora, papai!
E foi um protesto tão gracioso, que o Luís Bastinhos, se o ouvisse e visse, mui
provavelmente pediria repetição. Mas nem viu nem soube dele. De noite, indo lá, recebeu
novos louvores, falaram do baile da véspera. O major confessou que era o melhor baile
do ano; e dizendo-lhe a mesma cousa o Luís Bastinhos, declarou o major que o salvador
da filha reunia o bom gosto ao talento coreográfico.
— Mas por que não dá outra brincadeira, um pouco mais familiar? disse o Luís Bastinhos.
O major piscou o olho e adotou a idéia. Marcelina exigiu de Luís Bastinhos que dançasse
com ela a primeira valsa.
— Todas, disse ele.
— Todas?
— Juro-lhe que todas.
Marcelina abaixou os olhos e lembrou-se dos diabos azuis e invisíveis. eio a noite da
"brincadeira", e Luís Bastinhos cumpriu a promessa; valsaram ambos todas as valsas. Era
quase um escândalo. A convicção geral é que o casamento estava próximo.
Alguns dias depois, o major deu com os dous numa sala, ao pé de uma mesa, a
folhearem um livro — um livro ou as mãos, porque as mãos de um e de outro estavam
sobre o livro, juntas, e apertadas. Parece que também folheavam os olhos, com tanta
atenção que não viram o major. O major quis sair, mas preferiu precipitar a situação.
— Então que é isso? Estão valsando sem música?
Estremeceram os dous e coraram muito, mas o major piscou o olho, e saiu. Luís
Bastinhos aproveitou a circunstância para dizer à moça que o casamento era a verdadeira
valsa social; idéia que ela aprovou e comunicou ao pai.
— Sim, disse este, a melhor Terpsícore é Himeneu.
Celebrou-se o casamento daí a dous meses. O Pimentel, que serviu de padrinho ao
noivo, disse-lhe na igreja, que em certos casos era melhor valsar que nadar, e que a
verdadeira chave do coração de Marcelina não era a gratidão mas a coreografia. Luís
Bastinhos abanou a cabeça sorrindo; o major, supondo que eles o elogiavam em voz
baixa, piscou o olho.
Núcleo Pesquisas em Informática. Literatura e Lingüística
LITERATURA BRASILEIRA
Textos literários em meio eletrônico
A Chave, de Machado de Assis
Edição de Referência: Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.
15/01/2018
A Herança, Machado de Assis
Venância tinha dois sobrinhos, Emílio e Marcos; o primeiro de vinte e oito, o segundo de
trinta e quatro anos. Marcos era o seu mordomo, esposo, pai, filho, médico e capelão. Ele
cuidava-lhe da casa e das contas, aturava os seus reumatismos e arrufos, ralhava-lhe às
vezes, brandamente, obedecia-lhe sem murmúrio, cuidava-lhe da saúde e dava-lhe bons
conselhos. Era um rapaz tranqüilo, medido, geralmente silencioso, pacato, avesso a
mulheres, indiferente a teatros, a saraus. Não se irritava nunca, não teimava, parecia não
ter opiniões nem simpatias. O único sentimento manifesto era a dedicação a D. Venância.
Emílio era em muitos pontos o contraste de Marcos, seu irmão. Primeiramente, era um
dândi, turbulento, frívolo, sedento de diversões, vivendo na rua e na casa dos outros,
dans le monde. Tinha cóleras, que duravam o tempo das opiniões; minutos apenas. Era
alegre, falador, expansivo, como um namorado de primeira mão. Gastava às mãos largas.
Vivia duas horas por dia em casa do alfaiate, uma hora em casa do cabeleireiro, o resto
do tempo na Rua do Ouvidor; salvo o tempo em que dormia em casa, que não era a
mesma casa de D. Venância, e o pouco em que ia visitar a tia. Exteriormente era um
elegante; interiormente era um bom rapaz, mas um verdadeiro bom rapaz.
Não tinham pai nem mãe; Marcos era advogado; Emílio formara-se em medicina. Por um
alto sentimento de humanidade, Emílio não exercia a profissão; o obituário conservava o
termo médio usual. Mas, tendo um e outro herdado alguma coisa dos pais, Emílio mordia
razoavelmente a parte da herança, que aliás o irmão administrava com muito zelo.
Moravam juntos, mas tinham a casa dividida de maneira que não podiam tolher a
liberdade um do outro. Às vezes passavam-se três ou quatro dias sem se verem; e é justo
dizer que as saudades primeiro feriam Emílio do que ao irmão. Ao menos era ele quem,
depois de larga ausência, se assim podemos chamar-lhe, entrava mais cedo para casa a
esperar que Marcos viesse da casa de D. Venância.
— Por que não foste à casa de titia? perguntava Marcos, logo que ele dizia estar a
esperá-lo durante muito tempo.
Emílio erguia os ombros, como rejeitando a idéia desse sacrifício voluntário. Depois,
conversavam, riam um pouco; Emílio referia anedotas, fumava dois charutos, e só se
levantava quando o outro confessava estar a cair de sono. Emílio, que não dormia antes
das três ou quatro, nunca tinha sono; lançava mão de um romance francês e ia devorá-lo
na cama até a hora habitual. Mas esse frívolo tinha ocasiões de seriedade; numa doença
do irmão, velou-lhe longos dias à cabeceira, com uma dedicação verdadeiramente
materna. Marcos sabia que ele o amava.
Não amava, entretanto, a tia; se fosse mau, podia detestá-la; mas se não a detestava,
confessava intimamente que ela o aborrecia. Marcos, quando o irmão repetia isso, tratava
de o reduzir a melhor sentimento; e com tão boas razões que Emílio, não se atrevendo a
contestá-lo e não querendo sair de sua opinião, recolhia-se a um eloqüente silêncio. Ora, D. Venância encontrava essa repulsa, talvez pelo excesso mesmo de seu afeto. Emílio era o predileto de seus sobrinhos; ela adorava-o. A melhor hora do dia era a queele lhe destinava a ela. Na ausência falava de Emílio a propósito de qualquer coisa.
Geralmente o rapaz ia à casa da tia, entre as duas e três horas; raras vezes à noite. Que
alegria quando ele entrava! que afagos! que intermináveis carinhos!
— Vem cá, ingrato, senta-te aqui ao pé da velha. Como passaste de ontem?
— Bem, respondia Emílio sorrindo contrafeito.
— Bem, arremedava a tia; diz aquilo como se não fosse verdade. E quem sabe mesmo?
Tiveste alguma coisa?
— Nada, não tive nada.
— Pensei.
D. Venância tranqüilizava-se; depois vinha um rosário de perguntas e outro de anedotas.
No meio de umas e outras, se via algum gesto de incômodo no sobrinho, interrompia-se
para perguntar se estava incomodado, se queria tomar alguma coisa. Mandava fechar as
janelas de onde supunha que vinha ar; fazia-o trocar de cadeira, se lhe parecia que a que
ele ocupava era menos cômoda. Esse excesso de cautelas e cuidados fatigavam o moço.
Ele obedecia passivamente, falava pouco, ou o menos que lhe era possível. Quando
resolvia sair, tornava-se perfidamente mais alegre e carinhoso, açucarava um
cumprimento, punha-lhe mesmo alguma coisa do coração, e despedia-se. D. Venância,
que ficava com essa impressão última, confirmava-se nos seus sentimentos a respeito de
Emílio, a quem proclamava o primeiro sobrinho deste mundo. Pela sua parte, Emílio
descia as escadas mais aliviado; e no coração, lá no mais fundo do coração, uma voz
secreta sussurrava estas palavras cruéis:
— Quer-me muito bem, mas é muito amoladora.
A presença de Marcos era uma troca de papéis. A acariciada era ela. D. Venância tinha
seus momentos de enfado e de zanga, gostava de ralhar, de bater no próximo. Sua alma
era uma fonte de duas bicas, vertia mel por uma e vinagre pela outra. Sabia que o melhor
meio de aturar menos, era não imitá-la. Calava-se, sorria, aprovava tudo, com uma
docilidade exemplar. Outra vezes, conforme o assunto e a ocasião, reforçava os
sentimentos pessimistas da tia, e ralhava, não com igual veemência, porque ele estava
incapaz de a fingir, mas na conformidade das idéias dela. Presente a tudo, não esquecia,
no meio de um discurso de D. Venância, de lhe acomodar melhor o banquinho dos pés.
Sabia-lhe os hábitos, e ordenava as coisas de maneira que lhe não faltasse nada. Ele era
a Providência de D. Venância e o seu pára-raios. De mês em mês prestava-lhe contas; e
nessas ocasiões só uma alma forte podia resistir ao suplício. Cada aluguel trazia um
discurso; cada obra nova ou conserto produzia objurgatória. Ao cabo, D. Venância não
ficava com a menor idéia das contas, tão ocupada estava em desabafar o seu
reumatismo; e Marcos, se quisesse afrouxar um pouco a consciência, podia dar às contas
certa elasticidade. Não o fazia; era incapaz de o fazer.
Quem dissesse que na dedicação de Marcos entrava um pouco de interesse, podia dormir
com a consciência tranqüila, pois não caluniava ninguém. Havia afeto, mas não havia só
isso. D. Venância possuía bons prédios, e tinha só três parentes.
O terceiro parente era uma sobrinha, que morava com ela, moça de vinte anos, graciosa,
doida por música e confeitos. D. Venância também a estimava muito, quase tanto como a
Emílio. Meditava até casá-la antes de morrer; e só tinha dificuldade em achar um noivo
digno da noiva.
Um dia, no meio de uma conversa com Emílio, aconteceu-lhe dizer:
— Quando te casares, adeus tia Venância!
Esta palavra foi um raio de luz.
— Casar! pensou ela, mas por que não com a Eugênia?
Nessa noite não cuidou mentalmente de outras coisas. Marcos nunca a vira tão taciturna;
chegou a supor que ela estivesse zangada com ele. D. Venância não disse, durante essa
noite, mais de quarenta palavras. Olhava para Eugênia, lembrava-se de Emílio, e dizia
consigo:
— Mas como é que não lembrei disso há mais tempo? Nasceram um para o outro. São
bonitos, bons, jovens. — Só se ela tiver algum namoro; mas quem seria?
No dia seguinte sondou a moça; Eugênia, que não pensava em ninguém, disse
francamente que trazia o coração como lho haviam dado. D. Venância exultou; riu-se
muito; jantou mais do que de costume. Restava sondar Emílio no dia seguinte.
Emílio respondeu a mesma coisa.
— Deveras! exclamou a tia.
— Pois então!
— Não gostas de nenhuma moça? não tens nada em vista?
— Nada.
— Tanto melhor! tanto melhor!
Emílio saiu aturdido e um pouco vexado. A pergunta, a insistência, a alegria, tudo aquilo
tinha um ar pouco tranqüilizador para ele.
— Quererá casar comigo?
Não perdeu muito tempo em conjecturas. D. Venância, que, com os seus sessenta anos,
receava qualquer surpresa da morte, apressara-se a falar diretamente à sobrinha. Era
difícil; mas D. Venância passava por ter um gênio original, que é a coisa mais vantajosa
que pode acontecer à gente, quando quer passar por cima de certas consideraeões.
Perguntou diretamente a Eugênia se estimaria casar com Emílio; Eugênia, que nunca
pensara em tal, respondeu que lhe era indiferente.
— Indiferente só? perguntou D. Venância.
— Posso casar.
— Sem vontade, sem gosto, só por obedecer?...
— Oh! não!
— Velhaca! Confessa que gostas dele.
Eugênia não se lembrara disso; mas respondeu com um sorriso e baixou os olhos, gesto
que podia dizer muita coisa e nada. D. Venância interpretou-o como uma afirmativa,
talvez porque ela preferia a afirmativa. Quanto a Eugênia, ficou abalada com a proposta
da tia, mas não lhe durou muito o abalo; foi tocar música. De tarde pensou outra vez na
conversa que tivera, começou a lembrar-se de Emílio, foi ver o retrato dele que havia no
álbum. Realmente, entrou a parecer-lhe que gostava do moço. A tia, que o dizia, é porque
o percebera. Que admira? Um rapaz bonito, elegante, distinto. Era isso; devia amá-lo;
devia casar com ele.
Emílio foi menos fácil de contentar-se. Quando a tia lhe deu a entender que havia uma
pessoa que o amava, teve um sobressalto; quando lhe disse que era uma moça, teve
outro. Céus! um romance! A imaginação de Emílio construiu logo vinte capítulos, cada
qual mais cheio de luas e miosótis. Enfim, soube que se tratava de Eugênia. A noiva não
era de desprezar; mas tinha o defeito de ser um santo de casa.
— E escusas de fazer essa cara, disse D. Venância; eu já percebi que gostas dela.
— Eu?
— Não; hei de ser eu.
— Mas, titia...
— Deixa-te de partes! Já percebi. Não me zango; pelo contrário, aprovo e até desejo.
Emílio quis recusar de uma só vez; mas era difícil; tomou a resolução de contemporizar.
D. Venância, a muito custo, concedeu-lhe oito dias.
— Oito dias! exclamou o sobrinho.
— Em menos tempo fez Deus o mundo, redargüiu D. Venância sentenciosamente.
Emílio sentiu que a coisa era um pouco dura de roer assim feita às pressas. Comunicou
suas impressões ao irmão. Marcos aprovou a tia.
— Também tu?
— Também. A Eugênia é bonita, gosta de ti; titia faz gosto. Que mais queres?
— Mas é que nunca pensei em semelhante coisa.
— Pois pensa agora. Em oito dias pensarás nela e talvez acabes por gostar... Acabas
com certeza.
— Que maçada!
— Não acho.
— É porque não é contigo.
— Se fosse era a mesma coisa.
— Casavas?
— No fim de oito dias.
— Admiro-te. Custa-me a crer que um homem se case, assim como faz uma viagem a
Vassouras.
— O casamento é uma viagem a Vassouras; não custa mais nem menos.
Marcos disse ainda outras coisas mais, no sentido de animar o irmão. Ele aprovava o
casamento, não só porque Eugênia merecia, como porque era muito melhor que tudo
ficasse em casa.
Não interrompeu Emílio as suas visitas cotidianas; mas os dias passavam-se e ele não se
sentia mais disposto ao casamento. No sétimo dia, despediu-se da tia e da prima, com
uma cara lúgubre.
— Qual! dizia Eugênia; ele não casa comigo.
No oitavo dia, D. Venância recebeu uma carta de Emílio, pedindo-lhe muitos perdões,
fazendo-lhe carícias sem fim, mas acabando por uma negativa franca.
D. Venância ficou desconsolada; tinha feito nascer esperanças no coração da sobrinha, e
não as podia realizar de nenhuma maneira. Chegou a ter um movimento de cólera contra
o rapaz, mas arrependeu-se dele até morrer. Um sobrinho tão amável! que recusava com
tão bons modos! Era pena que não aceitasse, mas se ele não amava, podia ela obrigá-lo
ao casamento?
Suas reflexões foram essas, tanto à sobrinha, que aliás não chorou, posto ficasse um
pouco triste, como ao sobrinho Marcos, que só tarde soubera da recusa do irmão.
— Aquilo é uma cabeça de vento! disse ele.
D. Venância defendeu-o, como confessou que se acostumara à idéia de deixar Eugênia
casada e bem casada. Enfim não se pode forçar os corações. Isso mesmo repetiu ela
quando Emílio a foi ver daí a dias, um tanto envergonhado da recusa. Emílio, que
esperava achá-la no mais agudo de seus reumatismos, achou-a risonha como de
costume.
Mas a recusa de Emílio não foi aceita tão filosoficamente pelo irmão. Marcos não achara
a recusa, nem bonita nem prudente. Era um erro e uma tolice. Eugênia era uma noiva
digna até de um sacrifício. Sim; tinha qualidades notáveis. Marcos atentou nelas. Viu que
efetivamente a moça não valia o modo por que o irmão a tratara. A resignação com que
aceitava a recusa era na verdade digna de respeito. Marcos simpatizou com esse
proceder. Não menos lhe doeu a dor da tia, que não alcançava realizar o desejo de deixar
Eugênia entregue a um bom marido.
— Que bom marido não podia ser ele?
Marcos seguiu esta idéia com alma, com afinco, com desejo de acertar. Sua solicitude
dividiu-se entre Eugênia e D. Venância — o que era servir a D. Venância. Um dia
entestou com o assunto...
— Titia, disse ele, oferecendo-lhe torradinhas, eu desejava pedir-lhe um conselho.
— Tu? Pois tu pedes conselhos, Marcos?...
— Às vezes, redargüiu ele sorrindo.
— Que é?
— Se a prima Eugênia me aceitasse por marido, a senhora aprovava o casamento?
D. Venância olhou para Eugênia espantada, Eugênia, não menos espantada do que ela,
olhou para o primo. Este olhava para ambas.
— Aprovava? repetiu ele.
— Que dizes? disse a tia voltando-se para a moça.
— Farei o que titia quiser, respondeu Eugênia olhando para o chão.
— O que eu quiser, não, tornou D. Venância; mas confesso que aprovo, se for do teu
gosto.
— É? perguntou Marcos.
— Não sei, murmurou a moça.
A tia cortou a dificuldade dizendo que ela podia responder daí a quatro, seis ou oito dias.
— Quinze ou trinta, acudiu Marcos; um ou mais meses. Meu desejo é que fosse logo, mas
não desejo surpreender seu coração; prefiro que escolha com tranqüilidade. É assim que
nossa boa tia deseja também...
D. Venância aprovou as palavras de Marcos, e deu à sobrinha dois meses. Eugênia não
disse sim nem não; mas no fim daquela semana declarou à tia que estava pronta a
receber o primo por esposo.
— Já! exclamou a tia, referindo-se à curteza do prazo da resposta.
— Já! respondeu Eugênia, referindo-se à data do casamento.
E D. Venância, que o percebeu pelo tom, riu-se muito e deu a notícia ao sobrinho. O
casamento efetuou-se dai a um mês. As testemunhas foram D. Venância, Emílio e um
amigo da casa. O irmão do noivo parecia satisfeito com o resultado.
— Ao menos, dizia ele consigo, ficamos todos satisfeitos.
Marcos ficou morando em casa, de modo que nem retirava a companhia de Eugênia nem
a sua. D. Venância tinha assim uma vantagem mais.
— Agora o que é preciso é casar o Emílio, dizia ela.
— Por quê? perguntava Emílio.
— Porque é preciso. Meteu-se-me isso na cabeça.
Emílio não ficou mais amigo da casa depois do casamento. Continuava a lá ir o menos
que podia. Com os anos, D. Venância ia ficando de uma ternura mais difícil de suportar,
pensava ele. Para compensar a ausência de Emílio, tinha ela o zelo e a companhia de
Eugênia e Marcos. Este era ainda o seu mestre e guia.
Um dia adoeceu deveras a sra. D. Venância; esteve um mês de cama, durante o qual os
dois sobrinhos casados não lhe saíram da cabeceira. Emílio ia vê-la, mas só fez quarto a
última noite, quando ela ficara delirante. Antes disso ia vê-la, e saía de lá muito contra a
vontade dela.
— Onde está o Emílio? perguntava de quando em quando.
— Já vem, diziam-lhe os outros.
O remédio que Emílio lhe dava era bebido sem hesitação. Sorria até.
— Pobre Emílio! vais perder tua tia.
— Não diga isso. Ainda vamos dançar uma valsa.
— No outro mundo, pode ser.
A moléstia agravou-se; os médicos desenganaram a família. Mas antes do delírio, sua
última palavra foi ainda uma lembrança a Emílio; e quem a ouviu foi Marcos que
cabeceava de sono. Se quase não dormia!
Emílio não estava presente quando ela expirou. Morreu, enfim, sem nada dizer de suas
disposições testamentárias. Não era preciso; todos sabiam que ela tinha o testamento em
poder de um velho amigo de seu marido.
D. Venância nomeou Emílio seu herdeiro universal. Aos outros sobrinhos deixou um
razoável legado. Marcos contava com uma divisão, em partes iguais, pelos três.
Enganara-se, e filosofou muito sobre o caso. Que havia feito o irmão para merecer
tamanha distinção? Nada; deixara-se amar apenas. D. Venância era a imagem da fortuna.
Publicado originalmente em Jornal das Famílias 1878
A Causa Secreta - Machado de Assis
A Causa Secreta,
de Machado de Assis
Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço,
olhava para o tecto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha.
Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que
estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa
de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão
agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço.
Tinham falado também de outra cousa, além daquelas três, cousa tão feia e
grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de
saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os
dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia
uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou
foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da
situação.
Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860,
estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta da
Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda
assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois.
Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S.
Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mês,
e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam
estender os passos até aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras,
apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele.
14/01/2018
A Cartomante - Machado de Assis
Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que
sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço
Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na
véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui,
e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que
era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma
pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as,
e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não
era verdade...
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua
causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe
queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando
tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a;
disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião.
Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que
havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava,
paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é
que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões.
Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro
de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em
que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele,
como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e
logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê?
Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo
mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do
mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser
amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr
às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se
lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma
comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de
Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem
para a casa da cartomante.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das
origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a
carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que
queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a
mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da
província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e
veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo,
e foi a bordo recebê-lo.
13/01/2018
A Carteira - Machado de Assis
A Carteira
...DE REPENTE, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e
guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta
de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
-- Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.
-- É verdade, concordou Honório envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar
amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A
dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as
quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser
piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar
à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta
cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou
pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro,
quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um
turbilhão perpétuo, uma voragem.
25/09/2017
Vem Kafka Comigo (segunda parte)
Como já expus aqui, estive na sede do Tribunal Regional Eleitoral, tentava resolver "pendências" das quais não sabia da existência e seguir uma recomendação que me fora dada por e-mail. Pois bem, meus bens. Resolvi chegar cedo e me dirigi ao "andar" no qual meu processo estava sendo feito, mas por um malfado do destino resolvi que queria um pouco de café. O café em si era fácil de conseguir, haviam duas máquinas no setor, o problema foi conseguir o copo.
Na primeira parte desse impropério juridico-sentimental-aglosaxão-semiurbanizado-póscafeinistico estava conversando com Carlos, responsável pelo setor de almoxarifes, que me conseguiria o bendito copo. Depois de uma demora escarnecedora decidi que não queria mais café. Relembrando, disse ao meu recém-conhecido:
- Olha, eu estou atrasado. Muito obrigado pela atenção e disposição em ajudar, mas não preciso mais do copo. Vou tomar café quando sair daqui.
- Espere. O senhor não pode ir...
O senhor não pode ir...
- Ora, mas essa é boa. Por que diabos eu não posso ir?
- Bem -disse-me o encarregado do demônio. O senhor assinou um requerimento pedindo os copos.
- Mas meu amigo, já lhe disse, não quero mais porcaria de copo nenhum - confessei, já com um pouco de raiva. Que eu esperasse por um copo que eu pedira vá lá, mas me obrigar a ficar em um lugar contra minha vontade, achei um despautério.
- Se o senhor sair sem o copo teremos um problema orçamentário gigantesco. Isso pode dar até processo, é melhor o senhor esperar. Ou então...
- Ou então oquê? Me diga, não posso esperar mais, já deveria ter saído daqui.
- O senhor deve pedir o cancelamento de seu requerimento.
- Ok, eu quero o cancelamento de meu requerimento. Muito obrigado. Vou ter que assinar alguma coisa novamente? Tudo bem, me passe os papéis.
- Bem, mas o setor de cancelamentos é no quarto andar, não é aqui.
Creio que naquele instante algumas veias de meu corpo saltaram para fora. Não sou de frequentar muitos órgãos governamentais, esse vai-e-vem não me agradava nada. Mesmo assim achei desmedida a saga que deveria cumprir unicamente porque me achei no direito de beber um pouco de café. Já sem saber o que seria mais apropriado: se esperar o maldito copo ou ir atras do cancelamento. Acabei desistindo da espera, quando já ia saindo para pedir o cancelamento, que devia ser feito no quarto andar, o Carlos chega para mim correndo.
- Senhor, senhor! Aqui está o seu copo.
- Ora, muito obrigado.
Desci ao andar onde devia resolver meu problema, o terceiro, olhei copiosamente para a cafeteira. Tem um ditado chinês que diz que por mais insignificante que seja sua vitória, se lutou muito por isso, ela vai ter um sabor delicioso.
Enquanto enchia meu copinho com o café, que era expresso, daqueles com espuma e tudo, olhei ao redor, estranhamente não havia mais ninguém no setor. Pensei que todos deveriam estar dentro das suas salas resolvendo os assuntos administrativos do setor. Ledo engano.
Depois de ter saboreado o café fui tentar resolver o meu "assunto" com a justiça... e ... nada! Não tinha uma viva-alma naquele andar. Desci ao térreo e a atendente disse que o terceiro andar estava com um problema administrativo e que todos os funcionários tinham sido dispensados para "resolver o caso".
16/09/2017
Vem Kafka Comigo (primeira parte)
Alguns leitores desse mal-falado blog me perguntaram o porquê de minha sumida, sedentos por novos textos eles achavam incompreensível a minha atitude. Como forma de me desculpar e deixar registrado aqui minha saga, começo agora a série "Vem Kafka Comigo". Aqui vou descrever a "via-crusis" que fiz até chegar nesse momento no espaço-tempo.
Assinar:
Postagens (Atom)
Morte acidental
Enquanto ele falava, eu arrumava a churrasqueira até que todos viessem. Era uma típica festa de firma, onde as pessoas vão par...
-
Pensei em começar com o "acordei hoje cedo, me levantei da cama e bla bla bla..." mas hoje decidi poupá-lo da dor de cabe...
-
Carlos Drumond de Andrade Fernando Sabino Paulo Mendes Campos Rubem Braga PARA GOSTAR DE LER Volume 5 editora ática Crônicas Edição de texto...
-
Essa é uma dessas típicas historietas que nos acontecem apenas uma vez na vida e que, a partir daquele momento, teremos uma visão difere...